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Lula e Campos Neto ofuscam IPCA-15
A discreta melhora no índice de preços não resistiu a falas do presidente sobre gastos públicos, um dia após o BC publica post com o meme do Divertidamente “desejo de gastar sem poder”
Reprodução do Instagram publicado pelo Banco Central
Reprodução do Instagram publicado pelo Banco Central

A agenda desta quarta-feira (26) prometia emoções, com a expectativa pelos dados de inflação, pela reunião do Conselho Monetário Nacional (CMN) e pela entrevista do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao portal UOL. O IPCA-15 foi a surpresa positiva do dia, abaixo da expectativa do mercado, embora com dados subjacentes que preocupam. Na entrevista do presidente, falas sobre corte de gastos, aumento de arrecadação e o trabalho de Roberto Campos Neto à frente do Banco Central (BC) foram indigestas ao mercado. O dia também foi marcado pela repercussão do post do BC no Instagram sobre “desejo de gastar sem poder”, publicação feita em um momento em que a política fiscal do governo é questionada. O decreto que muda o regime de metas de inflação também foi publicado hoje.

O resultado da guerra de discursos e narrativas pesou e os mercados operam com dólar e juros em alta e a bolsa em queda. A moeda americana, que já havia subido perto de 1,26% na terça-feira, a R$ 5,453, rompeu a marca de R$ 5,50. Na tarde desta quarta, subia 1,23%, a R$ 5,518. O Ibovespa apagava a baixa e está com ligeira alta de 0,3%, a 122 mil pontos.


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A divulgação do IPCA-15, abaixo da expectativa do mercado, poderia ter trazido algum alívio, mas foi ignorado. O IPCA-15 de maio ficou em 0,39%, abaixo dos 0,43% esperados. Mesmo assim, lembra Luis Otavio Leal, economista-chefe da G5 Partners, o acumulado em 12 meses passou de 3,70% para 4,06%. “Na análise dos dados qualitativos, notícias ruins, com todos os grupos importantes acelerando com relação ao mês anterior. A ‘média dos núcleos’ passou de 0,31% para 0,34%, os ‘serviços subjacentes’ de 0,31% para 0,40% e os ‘serviços intensivos em trabalho’, um grupo que tem ganhado relevância com a resiliência do mercado de trabalho, foi de 0,36% para 0,47%”, comenta.  

O economista-chefe do Banco Fator, José Francisco Gonçalves, reforça as preocupações com o IPCA-15. “Veio abaixo da expectativa, mas não foi lá grande coisa porque confirmou preocupações que estavam expressas na ata da última reunião do Copom sobre inflação corrente. Preços da indústria e de alimentos não vão contribuir tanto para desinflação para compensar os serviços”. O coordenador do MBA de Gestão Estratégica e Econômica de Negócios da FGV, Mauro Rochlin, vê como positivo o dado agregado do IPCA-15 e lembra que a tendência é alimentos, que não foram tão bem, pesarem menos. “Quando vemos a série histórica, sazonalmente no meio do ano a inflação este grupo tem um comportamento melhor e vai ajudar.”

Falas do presidente pesam

A piora no humor do mercado também se explica pela repercussão de trechos da entrevista do presidente Lula ao portal UOL. Ele afirmou que a inflação permanecerá sob controle durante o seu governo e despistou ao comentar sobre o suposto favoritismo de Gabriel Galípolo, diretor de Política Monetária do BC, como futura indicação para substituir Campos Neto, cujo mandato termina em 31 de dezembro. O presidente da República voltou a sair em defesa do ministro da Fazenda, Fernando Haddad (PT), apesar de divergências. “O Haddad é uma pessoa muito importante para mim e para o país. Eu nem sempre comungo com tudo o que o Haddad pensa. Isso é saudável.”

As falas que mais incomodaram parte do mercado, no entanto, foram em referência aos critérios para substituir Campos Neto e ao dilema arrecadação x gastos públicos. “Eu não indico o presidente do Banco Central para o mercado. Eu indico o presidente do BC para o Brasil. Ele vai ter de tomar conta dos interesses do Brasil”, afirmou Lula. “A frase é absolutamente esperada, faz parte do discurso do presidente. Mas tem quem ouça com o fígado e causa estresse, nervosismo”, explica José Francisco.

Em outro trecho da entrevista, a fala de Lula sobre corte de gastos deixou o mercado ainda mais nervoso. “O problema não é que tem que cortar. É preciso saber se precisa efetivamente cortar ou se a gente precisa aumentar a arrecadação. Como é que a gente pode falar em gastos se a gente está abrindo mão de receber uma quantidade enorme de recursos que os empresários têm que pagar?” Na visão do economista do Fator, a fala foi endereçada ao próprio governo e partidários. “Ele não disse que não cortará, mas falou que tem de olhar a arrecadação.”

Post do BC pega mal

Para piorar a situação, um post na página oficial do BC publicado um dia antes foi entendido como um recado para o governo. Em meio a atritos envolvendo juros altos e a necessidade de o governo reduzir os gastos, o que abriria espaço para uma Selic menor, o post com imagem do filme Divertida Mente 2 pegou mal. O meme é sobre uma emoção nova chamada “a vontade de gastar sem poder”. Embora na legenda o BC faça referência à necessidade de o brasileiro controlar os gastos, foi inevitável a associação com o ambiente ruim entre governo e BC.

O economista do Banco Fator lamenta a publicação e diz que ataques ou insinuações são ruins. “É lamentável que a página de um Banco Central se preste a mandar recados. É muito ruim. Ele (Campos Neto) tem que entender que é um funcionário público e que o presidente Lula foi eleito democraticamente”, analisa José Francisco, lembrando que mesmo antes de Lula ganhar as eleições já havia sinais de como seria a relação. “Não podemos esquecer que o Campos Neto, já presidente do BC, no dia da eleição deu o início às provocações”, afirma, se referindo ao episódio em que o presidente do BC foi votar com a camiseta verde e amarela, uma referência clara ao outro candidato na ocasião, Jair Bolsonaro, que o colocou no cargo.

O coordenador da FGV tem visão semelhante sobre o comportamento de Campos Neto e do presidente Lula. “Eu acho que toda essa turbulência em torno de como o Banco Central está se comportando, como o presidente do BC está se comportando é muito barulhenta. Tanto do lado do Lula quanto do Campos Neto está faltando um pouco de sobriedade”, comenta Mauro Rochlin, acrescentando que o presidente do BC age de uma forma que não é adequada pelo cargo que ocupa, indo a festas partidárias. Recentemente, Campos Neto foi homenageado e participou de jantar com o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas. “Assim como eu acho que o presidente Lula não deve entrar no confronto direto, ele tem direito a entrar no debate sobre a taxa Selic, mas usando apenas questões técnicas, de forma elegante e não respondendo a provocações”, comenta o professor em referência ao post publicado na página do BC no Instagram com o meme.

Novo Regime de Metas

Também nesta quarta-feira o presidente Lula publicou o decreto que altera o regime de metas de inflação, de apuração de ano-calendário para o regime contínuo. A medida é confirmada um ano depois de ter sido anunciada pelo ministro da Fazenda, Fernando Haddad.

O novo regime prevê que o cumprimento da meta seja apurado com base na inflação acumulada em 12 meses. Será considerado que a meta foi descumprida quando a taxa se desviar por seis meses consecutivos do intervalo de tolerância. O novo sistema entrará em vigor em 1º de janeiro de 2025.


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