Instabilidade econômica afeta a preparação de balanços

Grupo de Discussão Contabilidade, realizado no dia 26 de maio de 2015



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Instabilidade econômica afeta a preparação de balanços

A oscilação do câmbio, a alta contínua da taxa básica de juros e a volta do fantasma da inflação afetam cada vez mais as demonstrações financeiras das companhias brasileiras. O problema é que nem sempre elas refletem da forma mais fiel o que acontece no ambiente macroeconômico e tampouco indicam a estratégia que a empresa adotará diante de um cenário tão instável. Os efeitos acabam no bolso do investidor.

A correção monetária de balanços é um exemplo. No Brasil, a técnica foi extinta em 1995, após a adoção do Plano Real. As normas contábeis internacionais, introduzidas no País em 2008, também não permitem tais ajustes – a exceção fica por conta das economias hiperinflacionárias, que acumulam alta de 100% num período de três anos. Ainda assim, se os balanços refletissem a oscilação dos preços, o resultado das companhias poderia ser bem diferente daqueles que apresentam. Levada em conta a inflação de 40% acumulada entre 2009 e 2014, a varejista Marisa teria registrado uma despesa inflacionária de R$ 166 milhões; e a Natura, de R$ 227 milhões. Já a Totvs teria lucro inflacionário de R$ 58 milhões.

“Se Marisa e Natura distribuíram dividendos no período, podem ter atentado contra o caixa porque perderam com a inflação. A Totvs pode ter pago dividendos a mais porque ganhou a alta dos preços”, diz Edison Fernandes, sócio do escritório Fernandes Figueiredo Advogados. Os cálculos foram apresentados no dia 26 de maio durante o Grupo de Discussão Contabilidade, realizado pela CAPITAL ABERTO em São Paulo.

O descompasso entre o que é apresentado nos balanços e o cenário econômico ocorre até mesmo quando as regras permitem que essa aproximação seja feita. De acordo com Daniel Utsch, chefe de análise do Banco Fator, muitas companhias fazem opções contábeis focadas no impacto de curto prazo, em detrimento daquelas que seria a melhor informação estratégica. A constatação é reforçada por Tadeu Cendon, sócio da PwC. Ele classifica como “casuística” a maneira como algumas empresas adotaram o hedge accounting, principalmente para reduzir o impacto da oscilação do dólar em seus resultados. “Depois que a variação cambial acontece, a empresa adota (o hedge accounting). Em seguida, quando não precisa mais, abandona. Infelizmente isso está na norma, mas não reflete uma estratégia de longo prazo”, diz Cendon.

As decisões de curto prazo são tão nocivas à qualidade das informações contábeis que um grupo de países asiáticos pleiteia, junto ao Iasb, entidade emissora das normas internacionais, uma nova forma de contabilização dos efeitos do câmbio nas dívidas corporativas de longo prazo. “Eles propõem que a variação a outras moedas seja feita contra o patrimônio líquido e apropriada ao resultado levando-se em conta o prazo de cada contrato”, explica o professor Eliseu Martins, da FEA-USP. “Eles argumentam que o impacto refletido diretamente no resultado é uma visão de curto prazo que atrapalha a administração do negócio e a visão do mercado sobre seu desempenho”, completa.

• Leia a reportagem sobre o evento na edição de julho da CAPITAL ABERTO.

• Confira os tuítes que publicamos durante o evento.

• Acompanhe a agenda completa dos próximos Grupos de Discussão.

Fotos: Régis Filho


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