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Famílias na bolsa

Do bojo de um negócio de família surgiram grandes companhias nacionais. Não é à toa que atualmente as empresas familiares respondem por 62% do PIB brasileiro e são responsáveis por 60% dos empregos formais no País. Parte desse grupo abastado se listou na bolsa de valores e hoje integra a carteira de investimentos de grandes fundos e até de pequenos investidores. Dividir a outrora propriedade familiar com um universo vasto de acionistas é uma transformação radical que demanda entendimento de mercado e rearranjos nos modelos de governança. Nesse contexto, o componente emocional da família no negócio precisa ser isolado. “O conflito familiar pode significar o fim de uma empresa”, ressalta Carlos Mendonça, sócio-líder da área de empresas familiares da PwC.

O fundador da Arezzo e atual presidente do conselho de administração da holding Arezzo&Co concorda com Mendonça e diz que família pode ser o maior problema de uma companhia. Esse foi um dos motivos pelo qual a empresa investiu desde cedo na profissionalização da gestão, muito antes da sua listagem na bolsa, em 2011. “Você separa a questão emocional quando separa o caixa”, diz ele. A Arezzo foi fundada há mais de 40 anos e desde 2013 é presidida pelo primogênito de Anderson, Alexandre Birman. O patriarca garante que a sucessão foi baseada em competência e não por relações consanguíneas. “Como é a administrar a vida com um filho que é sócio e CEO? Tratando-o como filho, sócio e CEO”, afirma. Pesquisa da PwC com empresas do Brasil e de mais 40 países aponta que apenas 34% das companhias familiares tem um plano de sucessão. “Ninguém nasce sucessor, nasce herdeiro”, pontua Carlos Mendonça.

Quando fez o IPO em 2010, a JSL Logística tinha um objetivo específico. “O menos importante para a nossa abertura de capital foi o financiamento. Queríamos o selo do mercado e a perpetuação da companhia”, diz o atual CEO da empresa, Fernando Simões. Ele assumiu a presidência em 2009, três anos após a morte de seu pai, Júlio Simões, um imigrante português que começou o negócio com um caminhão que transportava verduras na Grande São Paulo. Diante do momento desafiador da economia brasileira, Fernando admite que já surgiram propostas de fechamento de capital, mas garante que a empresa vai continuar na bolsa. “A abertura de capital trouxe capacidade crescimento. Nunca pensamos em fechar”.

A listagem de uma empresa familiar, porém, está longe de ser um objetivo unânime. Até em economias mais desenvolvidas, ainda há uma rejeição em abrir o negócio à participação e tomada de decisões de outros acionistas que não sejam os parentes. “O dilema está na dor de passar de empreendedor para empresário”, diz Richard Doern, professor do IBGC e membro de conselhos de administração, sobre a mudança no perfil da gestão exigida pelo ambiente de negócios. Para o sócio da Go Capital, Adeodato Netto, experiente no aperfeiçoamento da governança de empresas familiares, a bolsa ainda deve ganhar relevância entre essas companhias no Brasil. “Ainda estamos nos recuperando de um passado hiperinflacionário não muito distante. Acredito que as próximas gerações vão olhar a bolsa como oportunidade para os negócios da família”, diz.

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Fotos: Régis Filho