Sem candidatos

Único acionista e pai de uma menina de 12 anos aspirante a estilista, Mário Rizkallah não tem substituto para assumir o comando da centenária Casa da Bóia

Especial/Governança Corporativa/Governança em empresa familiar/Reportagem/Edições/Temas / 1 de maio de 2010
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O neto do fundador da Casa da Bóia, Mário Roberto Rizkallah, tem um ponto de interrogação em sua mente. Nada que lhe tire o sono, ainda. Mas, de uns tempos pra cá, ele começou a pensar que o comércio fundado em 1898 por seu avô, o imigrante sírio Rizkallah Jorge Tahan, está sem candidatos ao posto de principal executivo, hoje ocupado por ele próprio. Aos 59 anos, com apenas uma filha — de 12 anos e, ao que tudo indica, propensa a seguir a carreira de estilista ou de artista plástica, como a mãe —, o herdeiro se vê sem sucessor. Não se sabe, portanto, se a empresa chegará à quarta geração.

Desde 2007, o controle da Casa da Bóia está concentrado nas mãos de Mário. Ao longo da última década, ele veio comprando participação de seus parentes, incluindo primos e seus outros três irmãos, sendo duas mulheres. Ficou praticamente sozinho no capital da empresa, que nasceu como a primeira fabricante de artigos de cobre do Brasil, mas atualmente se limita a uma loja que vende mais de 5 mil itens (entre conexões hidráulicas, fios de cobre, vergalhões e até peças de decoração feitas em cobre) e tem 40 funcionários. Detém 85% da Milas Participações, a holding que abarca a Casa da Bóia. Os 15% restantes cabem ao seu irmão que, na condição de interdito por problemas de saúde, é representado por uma das irmãs, a Maria Tereza.

A solidão de Mário no comando e na concentração dos negócios começou por vontade própria, em 1993, quando ele, aos 42 anos, achou que era hora de dar uma virada na empresa. “Era um negócio pequeno e não dava para sustentar o crescimento da família”, diz o caçula de um dos filhos do fundador. “A empresa chegou a passar por dificuldades”, recorda. Foi então que ele, com o consentimento da família, solicitou à consultoria PricewaterhouseCoopers uma avaliação detalhada dos ativos. “Queríamos um respaldo técnico.”

O patriarca e mentor da Casa da Bóia, Rizkallah Jorge Tahan (em famílias árabes é comum o primeiro nome virar, depois, sobrenome) teve três filhos: Jorge, Nagib e Salim. O tronco constituído por Jorge nunca participou ativamente da Casa da Bóia — de seus cinco filhos, um deles, Alfredo, foi presidente da Bovespa duas vezes (de 1973 a 1976 e de 1996 a 2001). A filha dele, Renata Rizkallah, hoje está no conselho da BM&FBovespa. Os negócios ficaram, então, nas mãos de Nagib e Salim.

Tudo correu bem enquanto o comando estava polarizado entre os dois. Os problemas vieram depois. E, segundo Mario, o empecilho foi um “generation gap” que houve entre os descendentes desses dois irmãos. A diferença de idade de Mario (filho de Nagib) para o primo Antonio é de 21 anos. “É natural que tivéssemos modos de pensar distintos”, justifica. “Havia dificuldades de comunicação.”

Os antagonismos na metodologia de gestão entre os primos que assumiram a Casa da Bóia começaram a interferir nos negócios e, de um certo modo, nas relações familiares. “Levava esses conflitos para a terapia”, revela Mário. Ele lembra que empresas familiares carregam muitos componentes emocionais que regem os conceitos dos laços de sangue — com a família não se pode brigar. “Eu não estava feliz e propus mudanças.”

Foi assim que ele fez um acerto de contas com o primo e as irmãs e ficou com a Casa da Bóia. Mario diz que ainda não houve oportunidade e tampouco estrutura financeira para uma empresa de porte médio, como a sua, implementar as estruturas de governança corporativa. Os negócios da Casa da Bóia seguem, agora, um ritmo tranquilo. A loja continua no mesmo endereço — um casarão estilo “art noveau”, na rua Florêncio de Abreu, centro de velho de São Paulo. Uma casa que, até 1920, tinha a parte superior reservada à residência da família. É a mais antiga loja comercial da cidade, e sua fachada foi tombada pelo patrimônio.

Apesar da fama, a boia (usada em sistemas hidráulicos, como caixas d’água) não é mais o principal produto vendido na loja. Desde 1950, a empresa deixou de ser indústria. Daquela época, o empresário preserva as vendas feitas no antigo balcão, mas o coração do negócio está numa central de telemarketing que responde por 90% das comercializações para todo o País. Ir até a loja pode ser um passeio no tempo. Na parte superior, um pequeno museu conta um pouco da história daquela que foi a primeira fundição de cobre do Brasil. Ali, produziam-se arandelas, gradis e candelabros.

A grande oportunidade da Casa da Bóia surgiu em 1903, quando o governo de Rodrigues Alves, presidente do Estado de São Paulo, decidiu melhorar as condições de limpeza da cidade e erradicar a febre amarela, abrindo espaço para que a empresa começasse a produzir material sanitário. Hoje, embora o seu principal negócio seja a distribuição de metais não ferrosos vendidos por telemarketing, o consumidor final pode adquirir, na loja, produtos como torneiras, boias, ferramentas e artefatos elétricos.


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