Economicamente irresponsável

A dicotomia entre “empresa do bem” e “empresa do mal” invadiu, sem questionamentos, o mundo dos negócios

Artigo / Edição 22 / 1 de junho de 2005
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A última edição da Capital Aberto, em excelente reportagem de capa – “Entre o lucro e a sociedade” – discutiu a questão da responsabilidade social das empresas vis a vis a geração de valor para os acionistas.

Ser uma empresa “socialmente responsável” está na moda. Os empresários competem entre si para posicionar suas companhias em uma virtual “lista das companhias amigas da sociedade e dos acionistas”. A dicotomia entre a “empresa do bem” ou “empresa do mal” parece ter invadido, sem questionamentos, o mundo dos negócios. O reflexo tem sido verificado no incremento de iniciativas, incluindo milionárias campanhas de marketing, criadas para convencer os críticos do “capitalismo selvagem” de que é possível “abrir mão um pouco do lucro, em prol do bem-estar social”.

Os produtos com a marca SRI (socially responsible investments) crescem de forma exponencial, já representando cerca de 10% da indústria de fundos mútuos no planeta. Palavras de sentido forte têm sido usadas como uma espécie de “apelo a um mundo melhor”. Por exemplo, é cada vez mais comum a utilização da palavra “ética”, definida pelo dicionário Aurélio como “estudo de juízos de apreciação referente à conduta humana, do ponto de vista do bem e do mal”.

Lanço de imediato um desafio ao leitor: já que estamos tratando de um “juízo de valor”, o que é “ético” para mim, necessariamente é “ético” para você? É justa a condenação, desde os tempos bíblicos, dos bancos, por exercerem seu papel na engrenagem econômica de intermediação entre a poupança e investimento, recebendo juros com remuneração? É correto que empresas que desenvolvem energia nuclear, com comprovada utilização nobre em campos importantes como medicina, engenharia e biotecnologia, sejam previamente excluídas de fundos ditos “éticos”? Neste raciocínio, as empresas de aço também não deveriam ser eliminadas automaticamente por fornecerem material para a indústria bélica?

O apelo moral de palavras como “ética” é sempre de difícil contra-argumento. Quem, em sã consciência, pode se declarar contra a preservação do meio ambiente e dos direitos dos acionistas minoritários ou a favor da utilização da mão-de-obra infantil, produção de armas ou prostituição? Como não aplaudir o mérito da Lei das S.As e a luta de institutos sérios como o IBGC e a Animec, além do trabalho de ONGs quase anônimas, representantes legítimas da sociedade civil a favor do respeito às leis e à vida?

Porém, como em todos os movimentos que surgem como verdade única, sem direito à oposição, distorções de conceitos são aceitas sem muito debate. A empresa, como berço da riqueza financeira, está para a família, enquanto raiz de valores morais. A busca pelo lucro vem movendo sociedades através dos séculos, sendo notório o desenvolvimento fantástico que nos trouxe até aqui. O espírito da ganância, apesar do termo pejorativo, contribuiu, por exemplo, para o avanço da medicina que salva vidas, além de ter permitido a criação de empregos em massa que garantem vida digna para muitos. Obviamente, estamos a anos-luz de um sistema perfeito, mas como a democracia em termos de conceito político, não se inventou nada melhor até hoje.

Portanto, a tese de responsabilidade social e corporativa, no seu significado mais amplo, não deve superar a idéia básica de que o objetivo principal das empresas é a maximização de valor para o acionista. A defesa desta idéia definitivamente não torna o indivíduo mais “perverso” ou “menos ético” do que um componente da “turma do bem”. A verdadeira função das empresas no longo prazo tem correlação com o crescimento de emprego e riqueza a ser dividida.

A questão do aperfeiçoamento da distribuição desta riqueza é papel dos governos. No curto prazo, cabe a implementação de políticas compensatórias para corrigir as carências urgentes e, no longo prazo, a preparação dos indivíduos (sobretudo com condições mínimas de sobrevivência e educação básica) para participar e ajudar a criar mais riqueza para ser repartida. A legislação deve ser “sabiamente dura” para promover o equilíbrio de interesses.

O bom gestor é aquele que entende não só de seu negócio, mas das demandas de seu tempo. Um exemplo interessante é o da Xerox, empresa que chegou a atingir o status que todas sonham – quando o nome próprio vira substantivo (xerox virou sinônimo de fotocópia). Por ter cometido o erro estratégico de não perceber que o “mundo das impressoras” era uma realidade, a companhia perdeu 90% (US$ 27 bi) do seu valor de mercado entre 1998/2000.

O mesmo acontecerá com as empresas que não entenderem as demandas do mundo moderno. Para muitos observadores, em uma visão incompleta, a queda do muro de Berlim representou a vitória definitiva do capitalismo sobre o socialismo. Em maior (Europa) ou menor (EUA) grau, a herança socialista impôs uma série de mudanças à sociedade moderna. A partir da exigência de garantias e direitos a trabalhadores, o capitalismo passou a conviver com a melhora da noção de cidadania, com desdobramentos na exigência de tratamento melhor a acionistas, credores, meio ambiente e sociedade em geral.

A distinção apropriada deve ser entre “empresas bem geridas” ou “empresas mal geridas”. Ações de empresas brasileiras, como Itaú, Ambev e Pão de Açúcar, sempre foram negociadas a múltiplos diferenciados no mercado, basicamente pela sua excelência gerencial, que certamente leva em conta aspectos ditos “éticos”, por tratar-se de uma exigência da sociedade moderna.

É perigoso o caminho que o conceito de responsabilidade social está tomando. A idéia deve maximizar eficiência ao longo do tempo e não reduzi-la.
Como em tudo que surge como verdade única, sem direito à oposição, distorções de conceitos são aceitas sem muito debate

Portanto, o framework decisório de maximização do valor do acionista, objetivo principal de qualquer empresa, exige respostas imediatas às seguintes questões: firmas com remuneração atrelada a resultados mantêm empregados mais motivados? O provimento de certas condições (salários, benefícios, motivação) propicia maiores chances de incremento de produtividade? Empresas com histórico de bom relacionamento com credores apresentam melhores chances de financiamento no médio e longo prazos? Companhias que tratam acionistas como parceiros e não como simples fornecedores de capital criam demanda cativa por suas ações? Respeito ao meio ambiente e à comunidade gera boa imagem e maior potencial de penetração de seu produto?

Um exemplo é bem ilustrativo: digamos que uma empresa em dificuldades tenha como solução final a dispensa urgente de 50% de sua força de trabalho. Há pressões naturais de sindicatos para impedir as demissões. O gestor se vê diante de duas alternativas – não efetuar o plano – o que significaria “morte lenta”, colocando em risco o futuro da empresa e, conseqüentemente, o emprego da outra metade de funcionários; ou ir em frente com as demissões, o que deve salvar o negócio e prepará-lo, quem sabe, para um crescimento de emprego muito mais significativo no futuro. Certamente, as empresas que mais contribuíram para o crescimento da riqueza mundial escolheram o segundo caminho, enquanto os que optaram pela primeira alternativa dificilmente sobreviveram para contar os seus resultados. Por mais duro que possa parecer, alguns atores específicos desta história podem até sair perdendo, mas a sociedade como um todo, em uma visão prospectiva, certamente ganhará com a alocação eficiente de recursos.

Apesar de um início saudável, é perigoso o caminho que o conceito de “responsabilidade social e corporativa” está tomando. No lado das empresas, a introdução da idéia deve maximizar eficiência ao longo do tempo e não reduzi-la. No Brasil, já há fundos “éticos”, “responsáveis” ou de “governança” contando com mais de trinta empresas em seu portfólio, demonstrando como estes conceitos estão ficando “elásticos” e movidos a interesses comerciais.

A boa notícia para as “turmas do bem e do mal” é que não há contradição entre a responsabilidade corporativa e social e o foco na riqueza do acionista. Qualquer objetivo intermediário pode levar o gestor a decisões subótimas. A sociedade se beneficiará dos resultados desta sinergia de forma concreta, evitando o risco de assumirmos uma linha muito bonita no discurso, mas sem efeitos maximizadores de benefícios através de gerações.


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