Coordenadas para o lucro

Empresas aprimoram práticas de guidance e enfrentam o desafio de equilibrar o ajuste das projeções com os cuidados para evitar informação privilegiada

Reportagem / Edição 22 / 1 de junho de 2005
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ed22_p044-046_pag_3_img_001Prática de orientação aos analistas de investimentos comum nos mercados financeiros mais desenvolvidos, o “guidance” começa a ganhar adeptos entre companhias abertas brasileiras. Quando chegou ao pregão, em junho do ano passado, a Gol lançou uma política de monitoramento das projeções dos analistas bem parecida com o modelo originalmente desenvolvido nos Estados Unidos.

“A cada trimestre, fazemos ajustes e avisamos ao mercado o que esperamos para o ano corrente”, conta Richard Lark, vice-presidente de finanças e relações com investidores da Gol. A companhia orienta seus analistas sobre os valores estimados para a receita líquida e o lucro líquido, além dos percentuais de margem operacional e margem Ebitar, um indicador de resultado operacional sem os efeitos financeiros que leva em conta o leasing de aeronaves. Faz parte da política da Gol revisar os números a cada três meses, quando os resultados trimestrais são divulgados, ou caso haja algum fato novo que altere os parâmetros.

Embora reúna investidores brasileiros e estrangeiros, a Gol divulga suas premissas apenas conforme o sistema contábil norte-americano, US Gaap. Segundo Lark, a postura se justifica pelo fato de as comparações com concorrentes estrangeiras serem feitas pelas regras contábeis dos Estados Unidos. Para este ano, as estimativas da companhia são alcançar uma receita líquida de R$ 3 bilhões, com uma margem operacional que varie de 27% a 29%, lucro por ação na casa dos R$ 2,85 a R$ 3,15 e margem Ebitdar de 38% a 40%. O executivo lembra que esses parâmetros foram revisados para cima na divulgação do balanço do primeiro trimestre, em maio, já que a empresa espera chegar em dezembro com mais aeronaves do que estimava anteriormente.

A política lançada pela Gol é a mais parecida com o padrão internacional de guidance, mas o princípio de orientar as projeções dos analistas já vinha sendo testado por outras companhias. Bradesco, Suzano, Itaú e Aracruz são alguns exemplos de empresas que fornecem ao mercado algumas projeções básicas do desempenho futuro como forma de minimizar a volatilidade das ações em bolsa. Elas fazem uma espécie de abrasileiramento do guidance. Dão informações sobre a produção física, estimativa de faturamento, de exportação e até de operações de crédito. Mas quando o assunto é projeção de lucro por ação, preferem a cautela.

O Bradesco adota o guidance há mais de quatro anos, mas não chega ao mesmo nível de detalhe que a Gol. José Luiz Acar Pedro, vice-presidente do banco, conta que o objetivo da instituição é procurar a melhor prática de governança corporativa e não prejudicar os pequenos investidores privilegiando os grandes. Dentro desse princípio, anualmente informa aos analistas projeções macroeconômicas como taxas de câmbio, juros e inflação, além do crescimento do PIB (Produto Interno Bruto). “Damos o guidance baseado em variáveis como a evolução das operações de crédito, da receita de serviços e das margens financeiras”, afirma Pedro. A cada trimestre, sempre levando em conta o ano calendário, o banco vai fazendo ajustes nesses indicadores.

Essas mesmas premissas macroeconômicas são repassadas ao mercado por seu concorrente direto, o Itaú. Silvio Carvalho, diretor-executivo de controladoria do banco, costuma orientar os analistas sobre as projeções de expansão das operações de crédito. Ele conta que, na divulgação do balanço de 2004, o Itaú avançou nessa política dando informações sobre controle de custos. Também detalhou um pouco mais a estratégia para a marca Taii – uma financeira voltada a clientes de baixa renda. “Pretendemos ter 150 lojas da marca até o fim de 2005, diante das 29 no final de 2004”, revela.

A prática de projetar o lucro por ação, como adotada pela Gol, é comum nos Estados Unidos, mas implica riscos demasiados na visão de muitos executivos brasileiros. Podem levar as companhias a quebrarem a cara ao não alcançar o número projetado, decepcionar o mercado e, conseqüentemente, ver a cotação dos papéis em bolsa despencar no dia em que é divulgado o balanço. Isaac Zagury, diretor financeiro da Aracruz, a maior produtora de celulose de eucalipto do mundo, defende a adoção do guidance em certa medida, mas sem a antecipação de resultados. “Não costumamos fazer projeção de lucro por ação. Acho melhor evitar”, diz ele. A Aracruz prefere informar o mercado sobre premissas como a capacidade de produção para o ano seguinte. Para 2006, prevê fabricar 3 milhões de toneladas, diante das 2,5 milhões esperadas para este ano. Quanto aos preços da commodity, o diretor financeiro informa que discute com os analistas apenas as variáveis de oferta e demanda. “Não falamos sobre o preço da celulose.”

PREFERÊNCIA PELA CAUTELA – A divulgação de premissas mais gerais – que depois são adicionadas pelos analistas a suas planilhas e geram novas projeções de lucros – também é adotada pelo grupo Pão de Açúcar. Mensalmente, a rede de supermercados informa aos acionistas e ao mercado o faturamento total e o compara com o volume obtido para as mesmas lojas existentes no mesmo mês do ano anterior. Isso separadamente, para cada marca da companhia.

João Pinheiro Nogueira Batista, vice-presidente executivo da Suzano Holding, que atua em papel e celulose e em petroquímica, também prefere a cautela. Ele entende que o guidance não pode ser muito aberto, nem dar informações de muito longo prazo. Sua empresa informa apenas as perspectivas para as vendas e para a parcela a ser exportada. “O guidance é importante para evitar especulações, mas devese tomar cuidado para não criar muita expectativa.” Haroldo Levy, presidente da Apimec (Associação dos Analistas e Profissionais de Investimento do Mercado de Capitais), acrescenta outro fator de risco para o guidance. “No Brasil, devido à volatilidade da economia, é difícil as empresas divulgarem lucro por ação. Se fizerem uma projeção errada, podem levar o mercado todo no mesmo rumo”, avalia.

ENTRE O GUIDANCE E O PRIVILÉGIO – Mas é justamente o grau de “intimidade” entre as empresas abertas e os analistas de investimentos que divide opiniões. Há quem defenda que o guidance pode configurar uma prática de favorecimento quando realizado em conversas particulares.

Valter Faria tem uma visão crítica das praticas de algumas companhias. Questiona empresas que, ao receber o relatório de um analista com projeções distintas das traçadas internamente, ligam para o profissional a fim de abastecê-lo de informações que o aproximem das expectativas da companhia. O ajuste de projeções, afirma, deve ser feito sim, mas com cautela e transparência. Numa situação como essa, a melhor solução seria fazer uma divulgação ampla toda vez que houver projeções divergentes daquelas da companhia.

Se o contexto for apenas o esclarecimento de uma dúvida, contudo, Lark, da Gol, não vê problemas em mostrar para o analista as diferenças entre as premissas adotadas por ele e as da companhia. “Se um profissional me liga e diz que não está conseguindo chegar aos mesmos resultados, explico onde está a diferença”, afirma.

Levy, da Apimec, considera uma prática saudável as empresas buscarem os profissionais de análise para redimir pontos mal-entendidos. Mas avalia que todas as informações repassadas aos analistas devem ser registradas na CVM (Comissão de Valores Mobiliários) e na SEC (Securities and Exchange Commission) – esta última no caso das companhias com papéis negociados na Bolsa de Nova York. A divulgação de informações privilegiadas é seriamente punida pelos órgãos reguladores e, mais ainda, pelo mercado, que perde a credibilidade no ativo.

A cervejaria AmBev pratica o monitoramento mencionado por Levy. Segundo informações do seu departamento de comunicação, ela faz um acompanhamento permanente dos relatórios dos analistas. Caso detecte alguma divergência relevante, além de informar os órgãos reguladores, convoca uma conferência por telefone e revisa os pontos que podem não ter ficado claros. Fundamental para o investidor, uma política de guidance transparente, eqüitativa e eficiente será sempre uma questão para lá de sensível na atividade dos profissionais de relações com investidores.


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