Pacto de valores

Segunda geração da Laselva aposta na criação de um conselho para alinhar os interesses das três famílias herdeiras

Especial/Governança Corporativa/Governança em empresa familiar/Reportagem/Edições/Temas / 1 de maio de 2010
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Em meados de 1998, a primeira e a segunda geração da família de Onofrio Laselva perceberam que tinham dois caminhos: ou a empresa se profissionalizava ou os conflitos poderiam jogar por terra a organização fundada a partir da visão empreendedora do patriarca italiano. Fez-se, então, um pacto: agir somente em prol da empresa, com base nos valores do “ser” (que incluem honestidade, coragem, autodisciplina e fidelidade, conforme a definição dos Laselva) e da “doação” (lealdade, respeito, justiça e perdão). Estava selado um acordo entre irmãos e primos.

A companhia era administrada pelos três filhos de Onofrio. “Percebemos que aquele cabide de empregos familiar não faria bem para a saúde da empresa”, diz Marcia Laselva, membro do conselho de família. Boas práticas de governança corporativa começaram a ser implementadas de forma intuitiva. De comum acordo, foi eleito um representante de cada uma das famílias dos três filhos do fundador para representá-las num conselho de família. Os primos Marcia, Onofrio e Fernando passaram por um processo de seleção e avaliação comandado por uma consultoria especializada até se tornarem os três representantes escolhidos.

Desde então, a rotina de conflitos faz parte do passado. O faturamento saiu de R$ 36 milhões, em 2000, para R$ 140 milhões, em 2009. “A partir do momento em que instituímos um representante por família, tudo melhorou. Cada um deles leva para a sua família os pontos principais a serem discutidos e decide com esse grupo”, avalia Marcia.

As mudanças intensas e a disposição da nova geração para expandir os negócios motivaram a confiança de pais e tios que, aos poucos, desligavam-se da gestão. Em 2000, a empresa já era completamente administrada pela segunda geração. Todas as decisões eram compartilhadas, assim como a sala em que trabalhavam.

Com energia de sobra, a nova gestão deu início ao crescimento e à modernização dos pontos de venda. Até que percebeu a hora certa de formar um conselho de administração. Em 2009, mais uma vez, a família teve a necessidade de evoluir. Era preciso cuidar da estratégia da empresa e contratar executivos de mercado para as operações do dia a dia.

Com 100% do capital compartilhado entre as três famílias, a Laselva tem a sua estrutura de gestão também dividida: a diretoria executiva (estruturada em diretoria comercial e de operações); a diretoria administrativa financeira; e uma equipe de gestores internos, que compõem os comitês de gestão de riscos e de compras. Mais um comitê está em fase de estruturação — o da editora do grupo. Não existe a figura do presidente executivo, mas esse é o próximo passo na evolução da governança, segundo Marcia.

São os diretores de cada área que remetem aos familiares as informações para a tomada de decisões. Com pelo menos uma reunião semanal entre conselho e diretoria, Marcia e os primos continuam muito ligados à rotina da administração. “Ainda é difícil para nós, mas estamos aos poucos trabalhando o distanciamento do dia a dia da empresa”.

Desde 2008, a Laselva vem passando por um processo de reestruturação financeira, organizacional e de governança. O balanço de 2009 será o primeiro a ser auditado. Marcia reconhece o longo caminho que tem à frente quando o assunto é a implantação de melhores práticas de gestão. “Antes tarde do que nunca”, afirma. Dentre os próximos desafios, está a instituição de um plano de sucessão, previsto para começar em 2011. Existe também o projeto de buscar um conselheiro independente para integrar o conselho de administração, recém-criado e composto, por enquanto, apenas de familiares.

“Não faríamos uma outra Laselva nos dias de hoje”. Marcia refere-se à trajetória de construção de um negócio prestes a completar 63 anos de existência a partir da visão empreendedora do avô — um imigrante italiano que vendia jornais no centro de São Paulo e morava nos arredores do aeroporto de Congonhas, cercado de ruas de terra batida na época. Em um dia do ano de 1947, ele foi com a família ao aeroporto assistir a um voo inaugural e se deparou com um vendedor ambulante de jornais na porta do saguão. Ágil e certo de sua visão de futuro, negociou o ponto e iniciou uma nova história para a família.

Hoje, três netos cuidam do relacionamento familiar, com o intuito de perpetuar o negócio do avô. A todo custo, lutam para manter a empresa sem interferência financeira de partes relacionadas, atuando de forma independente das famílias e vice-versa. “Não queremos abrir precedentes. Privilégios? Nem pensar”, defende Marcia. Sua palavra-chave para crescer é criatividade. Mas ela sabe que ainda há um vocabulário inteiro de boas práticas a trilhar.




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Tags:  Governança Corporativa conselho de administração Sucessão Controle familiar Encontrou algum erro? Envie um e-mail



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