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Embora o projeto tenha sido concretizado apenas em maio de 2005, o ensaio da Localiza para entrar na Bolsa de Valores brasileira começou dez anos antes. Sócia desde 1995 do fundo estrangeiro DLJ Marchand Banking, que vendeu sua posição na abertura de capital, a companhia já desembarcou no pregão sabendo, por exemplo, como é fazer a contabilidade em US GAAP e ter seus balanços revisados por auditores independentes. Com o lançamento das ações, 34,4% do capital ficou disponível para negociação. Hoje, o free float da Localiza é de 37,7%, e a sua ação se destacou no Ranking Capital Aberto ao proporcionar, no período analisado, uma das mais elevadas valorizações. Não por acaso, a Localiza é a primeira colocada na categoria, com valor de mercado de até R$ 5 bilhões.

“Nossa ação ocupa a 64ª posição entre as 100 mais negociadas da Bolsa de Valores”, conta, orgulhoso, o seu diretor-presidente, José Salim Mattar Júnior. Ele é um dos quatro fundadores dessa companhia mineira com sede em Belo Horizonte, ao lado do irmão Eugênio e de outra dupla de irmãos (Antônio Cláudio e Flávio Brandão Resende). A empresa é uma “grande geradora de caixa”, segundo definição do empresário — o que ajuda num ramo de investimentos elevados, em que os carros são pagos à vista. Mas a companhia também “sofre” com um paradoxo: por ter muito caixa, subutiliza o capital de terceiros em seu projeto de crescimento. “A Localiza é muito pouco alavancada, devemos apenas uma vez o nosso Ebtida (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização)”, diz Salim, que tem como meta atingir um endividamento que gire entre duas e duas vezes e meia o Ebtida.

O baixo aproveitamento dos recursos de terceiros pode ser, inclusive, uma das razões para que a Localiza tenha apresentado um crescimento de EVA inferior ao das outras duas companhias — Dasa e Porto Seguro — que dividem com ela a liderança na categoria. A dívida, quando bem calibrada, reduz o custo de capital da companhia e, dessa forma, amplia a criação de valor. Ainda assim, a taxa de crescimento de EVA da Localiza atinge quase o dobro da média das companhias com valor de mercado até R$ 5 bilhões.

No que se refere à governança, a empresa elaborou o “Livro de Valores e Código de Ética”, com 76 páginas, cujo download está disponível no site de RI, onde também é possível consultar um check-list que indica a posição da companhia em diferentes itens relacionados com transparência, eqüidade, prestação de contas e conformidade. Por meio da lista, pode-se saber rapidamente o que a Localiza tem em termos de governança — conselho fiscal instalado, membros dos acionistas minoritários no conselho de administração e comitê de auditoria, por exemplo — e também o que não tem — como as posições de presidente-executivo e de presidente do conselho ocupadas por pessoas diferentes. Na Localiza, ambas pertencem a Mattar, o que também reduziu a nota de governança da locadora no Ranking Capital Aberto.

Entre as metas da equipe de RI para 2007 está a divulgação mais ágil de resultados e a maior cobertura do papel RENT3

Já a área de RI é formada pelo principal executivo de finanças (Roberto Mendes), pelo diretor (Sílvio Guerra) e por um analista. O grupo é responsável pelo atendimento individual a investidores, pela organização de visitas à companhia, por road shows nacionais e internacionais, e pela divulgação dos resultados trimestrais, seja por meio de teleconferências, webcasts ou reuniões públicas. Em praticamente todas essas ocasiões, o principal executivo de finanças está presente. Entre as metas desse time para 2007 está uma divulgação mais ágil dos resultados trimestrais, a realização de pelo menos dois non-deal road shows ao ano (reuniões esporádicas, desvinculadas de uma oferta pública) e a expansão da cobertura do papel RENT3 para, no mínimo, dez corretoras (atualmente são oito).

Assim como as outras duas vencedoras na categoria até R$ 5 bilhões — Dasa e Porto Seguro —, a Localiza deparou com a dificuldade de não ter analistas formados para acompanhar o setor, uma vez que não havia locadoras de veículos listadas até então. “Hoje, a Localiza tem cerca de 20% do mercado de aluguel de carros, enquanto 66% se concentra em poder de cerca de 2 mil pequenas empresas”, diz o presidente, que acredita que se trata de um segmento ainda muito jovem e, portanto, com grande potencial. “Mas esse ramo exige escala”, lembra.

Com receita líquida de R$ 855 milhões em 2005 (aumento de 39% sobre o ano anterior), a empresa mineira tem uma plataforma de negócios sinérgicos que combina aluguel de carros, franchising, administração de frotas e uma rede de pontos de venda de carros usados. Com 310 agências de aluguel de carros ao final de 2005 — sendo 117 próprias e 193 franqueadas —, a Localiza também marca presença no exterior, com lojas em 36 cidades de oito países latino-americanos. A companhia tem mais de 43 mil carros, cuja idade média é de 6,1 meses (para os carros de aluguel) e de 13,6 meses (para o aluguel de frotas). Nada mau para um grupo de quatro amigos que começou, em 1973, com seis fuscas usados, todos comprados a prazo.

Fazendo jus à identidade mineira, a Localiza cresceu ao “comer pelas bordas”: diferentemente da maioria das empresas, não buscou logo os principais mercados — Sul e Sudeste. A primeira filial foi aberta em Vitória (ES), seguida pelas lojas do Rio de Janeiro (RJ), Salvador (BA), São Luís (MA) e Fortaleza (CE). Em menos de três anos, estava presente na maioria das capitais do Nordeste. Em 1981, já liderava o mercado de aluguéis de carro no Brasil, com base no número de agências, e dois anos depois deu início à atividade de franchising, com o licenciamento das seis primeiras franqueadas — que, dez anos depois, passariam a existir também no exterior, começando pela Argentina.

Segundo Salim, a expansão da Localiza vai continuar sendo pautada pelo crescimento orgânico. “Vamos fazer mais negócios a partir das lojas já existentes, e não crescer por meio de aquisições”, afirma o empresário, que considera o atendimento o principal motivador do sucesso. “O contrato que estabelecemos com o cliente é uma pérola de transparência”, diz Salim. “Governança é para ser praticada com todos os públicos, não só com os acionistas.”


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