“Investidores estão mal informados”

Marvyn King

Especial / Gestão de Recursos / Edições / Temas / Cobertura ICGN 2009 / Reportagem / 1 de agosto de 2009
Por 


Professor do Centro de Cidadania Corporativa da Universidade da África do Sul, Marvyn King é autor de um dos códigos de governança mais respeitados internacionalmente, o King Report. Para ele, as regras contra informação seletiva representam um problema sério para os acionistas de companhias abertas. Tanto os administradores como os investidores podem ser punidos se divulgarem ou usarem de forma indevida uma informação relevante que não é pública. A seu ver, o único caminho para compensar essa falha de comunicação é a preparação de relatórios financeiros mais abrangentes, incluindo aspectos sociais e ambientais. Veja a entrevista concedida por King à CAPITAL ABERTO durante a conferência da ICGN:

Em sua opinião, quais as razões para as falhas de governança corporativa que vimos recentemente?
Acredito que seja a falta de conhecimento, principalmente. Os investidores conversam com as empresas, mas não falam com os conselhos de administração, apenas com os executivos. Além disso, executivos e conselheiros estão proibidos por várias jurisdições de passar determinadas informações seletivas. Esse é um problema sério enfrentado pelas companhias abertas. Os proprietários não estão aptos a exercer sua função como deveriam, devido à possibilidade de violar as regras de “fair disclosure”. No investimento de private equity, por exemplo, isso não acontece. Conselheiros, executivos e acionistas sentam na mesma mesa para conversar livremente.

E como esse obstáculo poderia ser contornado?
Acredito que as companhias devem implementar o que eu chamo de relatório integrado. Um relatório anual único reportando os impactos financeiros, sociais e ambientais das operações. Ali devem constar informações mais prospectivas, que permitam aos investidores ter elementos para determinar o valor econômico da companhia. Devem também estar descritos os fatores de risco para cada um dos aspectos relacionados à sustentabilidade da empresa. Essa é a única maneira, a meu ver, de amenizar o problema de comunicação entre administradores e acionistas nas companhias abertas.

O novo King Report contempla esse relatório integrado?
Sim, exigimos todas as informações previstas pelo modelo Global Reporting Initiative (GRI) num sistema de “comply or explain”. A audiência pública terminou e nós temos 666 páginas de comentários. Como você vê, o diabo está nos detalhes (risos). Isso mostra o quanto o mercado estava interessado em contribuir com a discussão. Em setembro, vamos divulgar a versão final, com notas práticas sobre como implementar cada recomendação.

Como têm sido os comentários?
Recebemos observações de vários países, inclusive do Brasil. Lemos tudo, mas apenas 20% foram úteis para reavaliarmos nossa posição.

O senhor está acompanhando a reforma do Combined Code? O que tem achado?
Achei interessante que eles estão abandonando a ideia de fixar um limite de tempo para o conselheiro permanecer no cargo e ser considerado independente. Na versão atual, eles definem um prazo de nove anos. Acho que independência é uma questão de consciência e não deve ser tratada de forma objetiva. Por que nove anos e não oito ou sete? O que estamos dizendo no King 3 é que o conselho deve avaliar anualmente a independência dos seus membros. Porque ela pode deixar de existir de uma hora para outra, não precisa se passarem nove anos.



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