Faltam as gigantes

Por que boa parte das companhias do Ibovespa continua fora do time estrelado em governança

Especial / Governança Corporativa / Edições / Temas / Reportagem / 10 anos de Novo Mercado / 1 de Abril de 2012
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Mesmo sem bola de cristal, o presidente da BM&FBovespa, Edemir Pinto, arrisca uma previsão: daqui a cinco anos, o Novo Mercado e o Bovespa Mais, destinado a IPOs de empresas de pequeno porte, serão os únicos a existir (veja entrevista na página 32). Porém, para essa previsão não virar um sonho, será preciso que grandes companhias abandonem seus segmentos de listagem atuais e migrem para o Novo Mercado (veja infográfico na próxima página). Das 65 empresas que integravam, em 31 de janeiro, o Ibovespa — índice composto de ações emitidas por empresas que correspondem a mais de 80% do número de negócios e do volume financeiro da Bolsa —, 29 delas não faziam parte do Novo Mercado. Juntas, essas companhias somavam uma capitalização de mercado de R$ 1,5 trilhão, bem abaixo dos R$ 500 milhões das integrantes do Ibovespa listadas no segmento máximo de governança corporativa da Bolsa.

Dentre as exigências que afastam as grandes companhias do Novo Mercado está a adoção da Câmara de Arbitragem do Mercado (CAM), criada pela BM&FBovespa em 2001 para ser um foro de resolução de conflitos societários. “A impossibilidade de escolhermos qual câmara de arbitragem usar é uma das questões que precisaríamos analisar numa eventual migração”, afirmou a Braskem, via assessoria de imprensa. Listada desde 2003 no Nível 1, a maior petroquímica das Américas diz ter preferência por adotar a Câmara de Comércio Internacional (ICC, na sigla em inglês), “por ser mais aceita mundialmente”.

Obstáculos regulatórios também impedem a adesão voluntária de algumas companhias ao Novo Mercado. Empresas do setor de aviação comercial, por exemplo, não podem ter mais de 20% do capital votante em poder de estrangeiros, de acordo com o Código Brasileiro de Aeronáutica. O governo, contudo, discute ampliar esse limite para 49%, o que poderia abrir espaço para companhias do setor, como Gol e TAM, migrarem para o Novo Mercado. O setor bancário também sofre desse problema. Precisa de autorização presidencial para aumentar a fatia do capital votante em posse de estrangeiros. Essa parcela varia de banco para banco. Em janeiro, o Bradesco, listado no Nível 1 da Bolsa, obteve aval para subir esse percentual de 14% para 30%. A companhia precisava da autorização para lançar, nos Estados Unidos, um programa de American depositary receipts (ADRs) lastreado em ações ordinárias.

A Petrobras também não pode aderir ao Novo Mercado por questões regulatórias. Conforme a Lei do Petróleo, de 1953, o capital da empresa deve ser dividido entre ações preferenciais e ordinárias, e a maioria dos papéis com voto deve pertencer à União.

PONTUAÇÃO MAIOR — E quanto ao fato de grandes companhias como Ambev, Vale, Souza Cruz, Lojas Americanas e Pão de Açúcar estarem fora do Novo Mercado mesmo sem ter impedimentos regulatórios para ingressarem nele? Aos olhos de investidores, esse não é, necessariamente, um problema. José Luiz Junqueira, gestor da Joule Invest, lembra que a listagem no segmento é um dos itens avaliados, mas não o único direcionador. Hoje 59% dos recursos da principal carteira da gestora estão aplicados em empresas do Novo Mercado. “Nossa estratégia é calcada em fundamentos e no longo prazo, o que faz com que a governança tenha relevância. Mas esse é apenas um fator que analisamos”, afirma.

No BNP Paribas, a análise de uma companhia começa com um estudo da liquidez das ações e dos indicadores econômico–financeiros. Somente após essa etapa, é realizada uma análise qualitativa, em que três critérios têm pesos iguais: modelo de negócio (atratividade do segmento de atuação, posicionamento e estratégia); gestão; e governança corporativa.

“Ter uma boa governança vale tanto quanto ter uma boa gestão. Se a empresa possui o selo do Novo Mercado, começa com uma pontuação maior”, ressalta Frederico Tralli, gestor do banco. Segundo ele, nenhuma empresa é descartada por estar listada nos níveis tradicional, 1 ou 2. “Se fizéssemos isso, teríamos dificuldade para aplicar no setor de mineração ou de siderurgia, por exemplo.” Tralli observa que estar fora do Novo Mercado não é um impeditivo, mas estar nele é um sinal verde para a companhia receber investimentos maiores. “Esse é um lado importante a ser considerado pelas empresas”, avalia.



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Tags:  Bolsa de valores Governança Corporativa Novo Mercado Encontrou algum erro? Envie um e-mail



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