Conservadorismo recompensado

Poupando o dinheiro do caixa, mas esbanjando na transparência, Embraer agrada ao acionista

Especial / Relações com Investidores / Edições / Temas / As Melhores Companhias para os Acionistas 2009 / Reportagem / 1 de outubro de 2009
Por 


Quando o céu era de brigadeiro para a Embraer, até o ano passado, parte do mercado insistia para que a companhia distribuísse dividendos mais robustos e diminuísse a posição de caixa líquido, que chegou a mais de R$ 1,3 bilhão em 2007. Preocupada com a manutenção de seus ratings e já avistando nuvens negras no horizonte, a administração da companhia preferiu manter o conservadorismo. E provou estar certa: o caixa cheio ajudou a enfrentar a forte crise de mercado que começou no último trimestre de 2008. O ano passado foi o melhor de todos, como define seu presidente Frederico Curado. O valor econômico adicionado (EVA, sigla em inglês) alcançou R$ 140,1 milhões no período, ante R$ 176,8 milhões negativos em 2007. A nota 10 nesse item ajudou e muito a colocar a fabricante de aeronaves como a segunda melhor empresa para os acionistas em sua categoria.

Atingir essa posição é um feito para a Embraer. A tempestade financeira jogou água em seus negócios no fim de 2008, quando começou uma enxurrada de cancelamentos e postergações de encomendas. Os clientes viram desaparecer suas fontes de financiamento para a compra de aeronaves. Os gestores, então, tiveram de deixar o conservadorismo preventivo para tomar logo ações drásticas em resposta à inversão de cenário. Em menos de seis meses, a Embraer foi do céu ao inferno: do recorde de entregas e receitas à maior demissão em massa de sua história. No começo de 2009, mais de 4 mil funcionários foram dispensados.

Guidances cada vez mais “precisos”, “completos” e “úteis” são elogiados por analista

A redução do quadro foi o ajuste mais contundente à retração da demanda, mas também houve melhoria de processos e uma articulação com o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). A instituição de fomento abriu novas linhas de crédito para a compra de aeronaves para clientes da Embraer que perderam suas fontes de captação no mercado financeiro. “Hoje, cerca de um terço de nossas vendas é financiado pelo BNDES”, diz Curado. “Não é muito se comparado às vendas da nossa concorrente Bombardier, em 90% financiadas pela agência de exportações canadense.”

Outra decisão que mostra o conservadorismo da companhia foi suspender os pagamentos trimestrais de dividendos em 2009, deixando para distribuir parte do lucro só no fim do exercício e protegendo o caixa de eventuais adversidades. “A Embraer continua sendo uma empresa saneada, mas com um mercado em crise”, diz o analista Caio Dias, do banco Santander. O fato de não ter distribuído dividendos nos dois primeiros trimestres do ano sacrificou o seu total shareholder return (TSR), que foi apenas o 47º melhor da amostra avaliada pela CAPITAL ABERTO. Mas a companhia garante que vai distribuir, no mínimo, os 25% do lucro líquido apurado em 2009. “A decisão de postergar as distribuições acaba sendo um bom sinal para o mercado, tanto que nossas ações já se recuperaram fortemente a partir de julho”, constata o vice-presidente executivo de finanças e relações com investidores, Luiz Carlos Aguiar.

A Embraer também revisou para baixo os chamados guidances — estimativas de ganhos futuros — para 2009. “Quando tudo vai bem, todas as empresas têm transparência. Mas ser transparente é manter o mesmo nível de informação para o mercado nas fases boas e ruins, e isso a Embraer sempre faz”, elogia Dias. Para o analista, um grande avanço na governança corporativa da Embraer, a partir da gestão de Curado, iniciada em 2007, foi apresentar guidances cada vez mais completos, precisos e úteis. E, mais importante, sempre atingir esses resultados. “Não esperamos até novembro, quando os resultados estão praticamente consolidados, para revisar nossas previsões”, diz o presidente da companhia.

A boa relação da Embraer com os acionistas traz resultados palpáveis, em especial no quesito liquidez: o peso relativo das ações da companhia no Ibovespa subiu de 0,56% durante a crise para 0,725% no mês passado. Só em 2009, foram realizadas 22 conferências com analistas e investidores. O grande salto de governança da empresa foi dado em 2006, com a pulverização do capital, lembra Curado. Hoje, o maior investidor da Embraer é o fundo de pensão dos funcionários do Banco do Brasil, a Previ, que tem 14% do capital total e votante — listada no Novo Mercado, a companhia emite apenas ações ordinárias. Não há nenhum acordo de acionistas.
Ao que tudo indica, os investidores e analistas já atestaram a capacidade dos gestores e do conselho de administração de tocar a empresa sem um dono. “O mercado está curioso para conhecer os guidances da companhia para 2010, mas a visão consolidada é a de que a administração, sempre conservadora, está fazendo um bom trabalho diante da crise”, afirma Dias, do Santander.


Quer continuar lendo?

Faça um cadastro rápido e tenha acesso gratuito a algumas reportagens.

Tenha o melhor conteúdo do mercado de capitais sem limites ou interrupção.
Assine a partir de R$ 36/mês!
Você está lendo {{count_online}} de {{limit_online}} reportagens gratuitas

Seja um assinante!

Você atingiu o limite de reportagens gratuitas. Que tal se tornar nosso assinante? Além do acesso ao mais especializado conteúdo do mercado de capitais, você terá descontos de até 30% em nossos encontros e cursos. Aproveite!


Participe da Capital Aberto:  Assine Anuncie

Encontrou algum erro? Envie um e-mail



Matéria anterior
Energia bem gasta
Próxima matéria
Prova de força




Nenhum comentário

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado.



Leia também
Energia bem gasta
Manter o cronograma de um de seus projetos mais ambiciosos — a construção de duas usinas termelétricas no estado do Maranhão,...