Um pianista do direito

Erasmo Valladão França

Bimestral/Retrato/Edição 100 / 1 de dezembro de 2011
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O advogado Erasmo Valladão França não estranhou a reunião marcada com o cliente numa segunda–feira à noite. A data era 13 de dezembro de 2010, e a tabacaria no bairro paulistano dos Jardins onde o encontro fora agendado já fazia parte de sua rotina: toda quarta–feira ele assumia o piano Yamaha de um quarto de cauda no espaço anexo, tocando músicas de um cardápio recheado de jazz, MPB e bossa nova. Clientes e alunos de direito da Universidade de São Paulo (USP) sempre estavam na plateia. Avoado, como se define, ele não havia percebido os cochichos das semanas anteriores no escritório (no estilo butique) que ele mantém com o sócio Nunes Pereira desde 1985, no centro de São Paulo.

“Quando entrei no restaurante havia umas cem pessoas cantando parabéns pra você”, conta França, ainda emocionado um ano depois. “Só que não era meu aniversário.” Tratava–se na verdade de uma homenagem rara, emblemática de quanto o advogado é querido e respeitado no ambiente do direito societário: o lançamento de um livro dedicado a ele com textos de 56 dos mais renomados advogados e juristas do País — e com participação até estrangeira, do alemão Herbert Wiedemann, que aceitou prontamente participar da homenagem organizada pelo primeiro orientando de França na USP, Marcelo von Adamek. “Eu tinha traduzido um texto do Herbert e nos tornamos amigos. Para mim, trata–se do maior societarista vivo”, diz ele.

França continua a entrevista falando de afetos — Wiedemann tornou–se “amigo de correspondências”; o primeiro orientando “é como um filho” — e repetindo a palavra paixão para justificar gestos e passos de sua trajetória. Uma paixão que ele via nos olhos do avô materno, o advogado Noé Azevedo, presidente da Ordem dos Advogados do Brasil de São Paulo (OAB–SP) durante 30 anos, “sem nunca ter feito campanha”, e de quem foi estagiário entre o primeiro e o quarto ano na São Francisco, como é conhecida a faculdade de direito da USP. França não chegou a ter aulas com o avô, naquela altura já aposentado, mas o acompanhou no escritório até morrer.

Aos domingos, depois das noitadas de sábado, o jovem Erasmo seguia para o quinto andar de um pequeno prédio da Rua Riachuelo, onde ficava um escritório com móveis pesados e escuros do começo do século. Ia datilografar para o avô, que jamais folgava nos fins de semana. “Era um apaixonado pelo que fazia”, diz França. Ali, interessou–se pelas primeiras causas ligadas ao direito societário e ao mercado de capitais. Quando o avô faleceu, passou para o terceiro andar do mesmo prédio, onde foi “adotado” pelo advogado Theotônio Negrão, um dos mais célebres autores de livros didáticos de direito. “Foi um pai espiritual para mim”, afirma.

França também tinha como exemplo o próprio pai, o avô paterno e o tio, todos advogados, quando escolheu a profissão. Mesmo assim, na época do vestibular, balançou. A culpada foi a música, uma descoberta “tardia”, aos 15 anos de idade. “É tarde para um pianista”, explica. Aprendeu a tocar música popular por um método simplificado, rendeu–se aos apelos do pai para migrar para o jazz, deixou–se influenciar pela bossa nova e só depois, já definitivamente conquistado pela música, França aprenderia a teoria com o maestro Olivier Toni. O estudo mais aprofundado de piano clássico só aconteceria depois de casado. “Fiz tudo ao contrário.”

De fato, seus caminhos nem sempre foram os mais óbvios e padronizados, como ele faz questão de dizer ao confessar que detesta acordar cedo (“só me convidam para palestras à tarde”) ou que perdeu o prazo para entregar a dissertação em seu primeiro mestrado em processo civil (“Eu já estava com 38 anos e tive que fazer tudo de novo dez anos depois. Mas aí abracei o direito societário”). Em compensação, ficou feliz ao constatar que não correspondia ao padrão quando chegou à universidade, com os horizontes já ampliados pela música. “Aos 15 anos eu era um menino preocupado com automóvel bonito, roupa bonita. A música mudou a minha compreensão do mundo. Dela, parti para a poesia, para apreciar pintura, bom cinema, literatura. As pessoas que passaram pela arte têm outra visão do mundo do direito.”

E que ninguém ouse reduzir a sua paixão pelo piano a um hobby. França poderá responder que toca profissionalmente (“sou remunerado in natura, com comida e bebida, porque não pago a conta do restaurante nestes dias”) ou que é incapaz de viver sem a música (“seria como cortar um braço”). A interrupção do hábito de tocar na noite este ano é temporária, garante — o espaço onde se apresentava fechou, e ele precisava se dedicar à livre–docência, pré–requisito para passar de professor–doutor a professor–titular na USP. “Amo lecionar”, diz ele.

Antes da São Francisco, França dava aulas na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC–SP), na década de 1980, quando chegou a se apresentar como pianista por sete anos consecutivos, uma noite na semana, conciliando aulas e música sem descuidar do escritório. “Sou advogado militante desde sempre”, diz ele. “Mas ultimamente ando me afastando do Judiciário e me dedicando mais à arbitragem. O nível é bem melhor.” Outra atividade que tem lhe dado muita satisfação é emitir pareceres. “Fica a meio caminho entre uma obra de doutrina e um arrazoado forense. É uma delícia.”




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