Negócios da China

Com muito dinheiro em caixa e visão de longo prazo, empresários chineses avançam sobre ativos no Brasil

Bimestral / Fusões e aquisições / Reportagem / Edição 152 / 30 de outubro de 2016
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— Como andam as operações de M&A? — pergunta um advogado a uma colega de escritório especializada em fusões e aquisições.
— Meio fracas. Os estrangeiros olham muita coisa, mas não compram. Os negócios demoram a sair! Medo da instabilidade política, incerteza sobre diretrizes econômicas, câmbio…
— Mas e os chineses?, provoca o interlocutor.
— Ah, esses sim! Estão comprando tudo!

O diálogo é ficcional, mas a semelhança com a vida real não é mera coincidência. Quem trabalha com compras e vendas de empresas certamente já ouviu algo parecido nas conversas pelos corredores dos escritórios. Não que os chineses sejam os maiores compradores de companhias brasileiras no momento. De acordo com dados da PwC, publicados em julho, nos primeiros sete meses deste ano foram feitas 146 negociações envolvendo capital estrangeiro no Brasil — 33% menos do que em igual período de 2015. Os americanos foram responsáveis por 51 delas e os chineses por nove. “Empresas chinesas costumam fazer negócios vultosos, que movimentam muito dinheiro e se destacam. Daí vem essa impressão de que eles estão comprando muito”, avalia Rogério Gollo, sócio da área de fusões e aquisições da PwC.

De fato, as somas desembolsadas pelos chineses impressionam. No fim de setembro, a State Grid of China, maior empresa de energia elétrica do mundo, fechou a compra do controle da CPFL Energia, num negócio estimado em R$ 25 bilhões. Mais recentemente, em outubro, a China Three Gorges Corporation (CTG) arrematou os ativos da americana Duke Energy no Brasil por cerca de US$ 1 bilhão. Outra operação badalada foi a compra, em abril, de 57% da trading processadora de grãos Fiagril pela Hunan Dakang, por cerca de US$ 200 milhões.

Além dos valores altos, o comportamento dos chineses chama atenção de quem trabalha com M&A. Nas mesas de negociação, sua postura agressiva e otimista contrasta com as feições apreensivas e sorumbáticas de americanos e europeus. Segundo Reinaldo Guang Ruey Ma, sócio do escritório Tozzini Freire, que há 15 anos assessora negócios entre empresas chinesas e brasileiras, o perfil dos compradores do maior país do Oriente passa por mudanças nos últimos anos. Antes, afirma, os chineses vinham para cá almejando exportar capacidade ociosa de sua economia. O objetivo era a montagem de bases no exterior com as quais pudessem vender seus serviços e equipamentos — até por isso a preferência era pela construção de empresas do zero. “Hoje eles chegam ao Brasil com a cabeça de investidor. Querem comprar fatias de operações que já funcionam para ter uma rentabilidade mais imediata”, observa Guang Ruey Ma. O advogado cuida, no momento, de oito transações de M&A envolvendo empresas chinesas que querem comprar ativos locais — quatro delas no setor de energia e as outras nos setores de óleo e gás, consumo, proteína animal e infraestrutura de transportes.

Ilustração: Marco Mancini / Grau 180

Ilustração: Marco Mancini / Grau 180

Não à toa, esses são os segmentos que mais despertam o interesse dos asiáticos. Uma das principais motivações das empresas da China para comprar ativos no Brasil é a preservação da segurança alimentar de uma nação com 1,4 bilhão de habitantes. Para um brasileiro que cresceu em um território enorme, relativamente pouco povoado e com oferta abundante de comida, pode parecer suspeita a intenção dos chineses de adquirir terras, empresas de agronegócio e companhias de logística com a simples justificativa de garantir a exportação de alimentos para a China — mas isso não tem nada de absurdo. “O Brasil é um grande produtor de commodities, e os chineses têm interesse em que o País aumente a produção para exportar mais para eles. Por isso, também fazem investimentos em infraestrutura e logística no Brasil, já que, para aumentar a exportação, é preciso melhorar o escoamento”, explica Alan Fernandes, vice-presidente executivo do banco chinês Haitong no Brasil.

Apesar de segurança alimentar ser uma prioridade, não se trata apenas disso. Os investimentos em energia, por exemplo, refletem a ambição de gigantes estatais como State Grid of China e Three Gorges de se tornarem ainda maiores. “Energia é um setor em que, muitas vezes, a inciativa privada não tem dinheiro para fazer grandes investimentos. Mas a State Grid of China e a Three Gorges têm recursos de sobra e tiram proveito disso”, afirma Gollo, da PwC.

O setor financeiro é igualmente alvo dos chineses. Em setembro de 2015, o grupo chinês Haitong concluiu a aquisição do português Banco Espírito Santo de Investimento (Besi) e herdou o braço brasileiro da instituição. O plano do Haitong no Brasil para os próximos anos é se firmar como uma ponte entre compradores chineses e vendedores nacionais. “O banco optou por ter gente daqui na diretoria justamente por querer compreender bem a cultura brasileira e ampliar o engajamento com os empresários locais”, diz Fernandes.

Apetite por risco

O ímpeto dos asiáticos por adquirir ativos nos setores de infraestrutura e energia é uma característica que deixa muita gente que lida com M&A boquiaberto. “Os chineses são loucos, parecem não ter medo de risco”, espanta-se um consultor de operações financeiras sobre o interesse declarado da State Grid of China em subsidiárias da problemática Eletrobras.

Por mais insano que pareça, o fato é que os chineses se mostram receptivos à análise de ativos de empresas endividadas, envolvidas em escândalos de corrupção ou com grande exposição ao governo — três características que normalmente afugentam americanos e europeus. “Os chineses estão acostumados a lidar com intervenções do governo nas companhias, até porque boa parte delas é estatal. Isso faz com que se assustem menos”, opina Gollo, da PwC.

Mas isso não significa que os chineses estejam dispostos a jogar dinheiro fora — ao contrário. Segundo Guang Ruey Ma, os asiáticos podem até avaliar vários negócios, mas boa parte não é concluída justamente por causa dos riscos legais e financeiros que, muitas vezes, emergem antes mesmo de o processo de due dilligence começar. Além disso, os chineses estão bastante conscientes dos problemas que podem enfrentar no Brasil — como mudanças no sistema político ou multas de agências regulatórias. “A visão deles é de muito mais longo prazo que as de um fundo de private equity e de muitos compradores estratégicos”, justifica Fernandes, do Haitong. Por isso, para os chineses, na hora de assinar o cheque as pendengas políticas contam bem menos do que, por exemplo, a oscilação cambial. “No último um ano e meio diversos investimentos foram represados por causa da imprevisibilidade da moeda. Mas com a diminuição da volatilidade do câmbio, mais negócios devem ser fechados”, vislumbra Guang Ruey Ma.

E a governança?

Mas será uma boa ideia deixar companhias de setores estratégicos nas mãos de empresários de um país conhecido por práticas intervencionistas e pouco transparentes e por apresentar elevados níveis de corrupção? A China, vale lembrar, é uma nação comunista, com um governo centralizador. No ranking de percepção de corrupção elaborado pela Transparency.org em 2015, o país aparece na 83a posição, ao lado de Colômbia, Benin, Libéria e Sri Lanka. O Brasil está em 76o lugar. O ranking ordena as nações de 1 a 167, do mais honesto para o mais corrupto.

A China, contudo, se esforça para “limpar a casa”. Em 2012, o líder chinês Xi Jinping lançou uma ofensiva contra a corrupção e prometeu punir infratores de todas as esferas de poder. Como consequência, cerca de 100 mil pessoas foram indiciadas e algumas chegaram a ser condenadas a prisão perpétua nos últimos quatro anos, conforme reportagem publicada pela The Economist em outubro do ano passado. Aqui, vale uma ressalva: entre os indiciados, predominaram políticos e funcionários públicos — foram pouquíssimos os executivos e empresários. Os próximos anos é que vão dizer quanto a avalanche de dinheiro chinês fez bem (ou não) para a sociedade brasileira.

Quem são eles?

Os grupos chineses que recentemente compraram empresas brasileiras:

Bank of Communications — Companhia de capital misto listada nas bolsas de Hong Kong e Xangai, tem como acionistas o governo chinês e o HSBC. Em 2015, comprou 80% do Banco BBM por R$ 525 milhões.

China Construction Bank — Controlado pelo Estado, é o segundo maior banco da China em valor de mercado, com ações negociadas nas bolsas de Hong Kong e Xangai e no mercado de balcão americano. Em 2013, comprou 72% do Bicbanco, por
R$ 1,62 bilhão.

China Three Gorges (CTG) — Empresa estatal, construiu a usina hidrelétrica de Três Gargantas, a maior do mundo. Em 2013, comprou 21,35% da Energias de Portugal e, em 2015, arrematou a maioria dos ativos vendidos pelo governo brasileiro em leilão de hidrelétricas. Estima-se que tenham desembolsado cerca de
R$ 14 bilhões. Recentemente também comprou ativos da Duke Energy no País.

Fosun Group — Empresa privada de investimentos fundada em 1992 em Xangai e listada em Hong Kong desde 2007. Comprou a gestora Rio Bravo Investimentos, que pode ser usada como um braço para outras aquisições no País.

Haitong — Listada na bolsa de Xangai, a empresa estatal presta serviços de banco de investimento e gestão de recursos. Entrou no Brasil após a compra do português Banco Espírito Santo de Investimento (Besi), que já possuía um braço no País.

HNA Group — Começou suas atividades em 1993 como companhia aérea, mas hoje é um conglomerado privado com participações em companhias de turismo, logística, aviação, entre outras. Em 2015, adquiriu uma fatia de 23% da companhia aérea Azul, por
R$ 1,7 bilhão.

Shanghai Pengxin Group — Conglomerado privado, possui subsidiárias que atuam em vários setores, como infraestrutura, desenvolvimento imobiliário e agronegócio. Por meio de sua subsidiária Hunan Dakang comprou, em 2016, o controle da agrícola Fiagril. De acordo com rumores de mercado, estaria interessada em adquirir o banco brasileiro Indusval, que nega o boato.

State Grid of China — Junto com a CTG, é uma das maiores empresas do setor elétrico no mundo. Em setembro, a estatal chinesa anunciou a compra do controle da CPFL Energia, numa operação que pode movimentar R$ 25 bilhões.


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Tags:  fusões e aquisições M&A infraestrutura commodities ativos brasileiros capital estrangeiro Negócios da China investidores chineses State Grid compradores chineses Encontrou algum erro? Envie um e-mail



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