Mudou a lógica

Bimestral / Editorial / Edição 154 / 12 de março de 2017
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O último par de anos de recessão econômica no Brasil causou desagradáveis rupturas em projetos de crescimento que poucos tinham disposição — ou interesse — em questionar. Tome-se como exemplo os setores imobiliário e de varejo de moda, dissecados em duas reportagens de Rodrigo Petry nesta edição. O primeiro acostumou-se a crer que não havia alternativa à expansão infindável dos preços dos imóveis, do crédito acessível e da demanda dos clientes. Freneticamente as incorporadoras compraram terrenos e ergueram torres, sem dedicar tempo aos alicerces da improvável hipótese de algo dar errado. Já no varejo de moda a inclusão da classe C no mercado consumidor reorientou as estratégias de negócio. Abrir lojas em áreas populares e ofertar produtos mais elaborados e com boas margens parecia o plano certo para incrementar as vendas.

Com a crise, foi preciso não apenas desarmar os planos anteriores com a mesma agilidade como aprender a lidar com uma lógica inversa. O desafio de crescer com mais rentabilidade que o concorrente foi substituído pelo de consertar os estragos e remodelar-se com mais competência. Na área imobiliária, a realidade dos lançamentos sem moderação transmutou-se no pesadelo das repactuações e dos distratos, colocando à prova as garantias outrora tratadas com pouco zelo. Uma experiência dolorida, mas necessária, para os incorporadores e organizadores dos fluxos de financiamento, especialmente quando os recursos são captados com valores mobiliários como os CRIs.

Enquanto a maior parte da economia se esforça para reparar os enganos do passado recente, outra mergulha nas oportunidades apresentadas pelo futuro. Reportagem de Thais Folego descreve as apostas dos empreendedores brasileiros que investem nos chamados consultores-robôs — plataformas baseadas em algoritmos que orientam os investimentos dos clientes a custos atrativos e sem os conflitos de interesses das assets dos bancos. Lá fora, já mais desenvolvidas, essas máquinas vêm provocando as gestoras de recursos tradicionais a rever os seus modelos de negócios.

Suscitada pela crise ou pela tecnologia, a reinvenção das empresas é tema desta e da próxima colunas do professor Alexandre Di Miceli. Aspecto central da governança contemporânea, a remodelagem de organizações insere-se em uma transformação do próprio sistema econômico. Assim, começam a se firmar no mundo negócios orientados pelo chamado capitalismo consciente, cujas premissas o colunista explora nesta edição.

O novo capitalismo reluz no horizonte, enquanto as mazelas do atual persistem no dia a dia — às vezes sem lógica nenhuma. A disputa envolvendo a Prumo Logística, detalhada na reportagem de Yuki Yokoi, expõe quão bizarra pode se tornar a negociação entre acionistas controladores e minoritários numa ocasião de fechamento de capital. A bússola da ganância, nesse caso, parece orientar as decisões dos dois lados e afastá-los de um acordo que seja razoável e justo.


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