Mudanças de rumo

Bimestral / Editorial / Edição 153 / 1 de janeiro de 2017
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Há muito os Estados Unidos servem de referência para os mercados financeiro e de capitais de todo o mundo. Depois que o tsunami dos derivativos sintéticos devastou as carteiras de crédito dos bancos e as hipotecas dos cidadãos, em 2008, o país criou regras para tornar mais críveis os pilares do seu modelo de capitalismo e evitar que o Estado venha a ter de, mais uma vez, acudir instituições privadas arruinadas por seus próprios desvarios. Agora, sob o surpreendente — e ainda assustador — comando de Donald Trump, algumas dessas regras tendem a ser afrouxadas. Passados alguns anos, percebeu-se que as normas concebidas para se remediar os problemas exigem tanto de seus regulados que acabam por causar, mesmo que de forma não intencional, efeitos semelhantes aos que pretendiam coibir.

A missão de prevenir falcatruas, como se sabe, costuma ser ingrata. Nem firmas especializadas na tarefa ficam imunes a elas, inclusive dentro de casa. Veja-se o caso da Deloitte Brasil, reportado nesta edição. Um sócio integrante da alta hierarquia — e candidato até a ocupar a presidência da firma — preferiu manipular papéis e enganar o órgão fiscalizador de auditorias dos Estados Unidos a reconhecer as falhas que havia cometido na validação de balanço da Gol. As emendas, como se pode supor, saíram pior que o soneto.

Enquanto as instituições financeiras fortemente vigiadas buscam se restabelecer, um segmento inovador avança pelas margens. As chamadas fintechs, constituídas para ocupar os espaços em que os bancos tradicionais não navegam bem, receberam US$ 5,3 bilhões em investimentos no mundo no primeiro trimestre de 2016, um crescimento de 67%. No Brasil, os volumes ainda são modestos, mas crescem sistematicamente, como mostra a reportagem da página 36.

No contexto das fusões e aquisições, esta edição destaca a mudança de planos do Grupo Pão de Açúcar (GPA) em relação à Via Varejo. Depois de uma aquisição tumultuada em 2009 e das midiáticas brigas com a família Klein, ex-dona da Casas Bahia, o GPA viu seu cobiçado negócio converter-se em uma fonte de prejuízos em meio à deterioração econômica e a decisões erradas da gestão. A intenção do grupo de se livrar da companhia foi anunciada no fim de novembro. Os interessados, sem tempo a perder, já se planejam para dar o bote.

Em entrevista à seção Papo Aberto, a diretora de mercado de capitais do BNDES, Eliane Lustosa, descreve seus planos para o cargo assumido em junho passado. Qualificar os conselheiros de administração para que eles façam a coisa certa é a sua principal aposta para valorizar as participações acionárias da instituição. Em vez de dar o peixe, o novo comando do banco é mais afeito a ensinar a pescar — uma mudança explícita de rumo.



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