“Gosto de períodos conturbados”

Luciane Ribeiro

Bimestral/Retrato/Edição 98 / 1 de outubro de 2011
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O marido não pode saber, mas Luciane Ribeiro, diretora executiva da asset management do Santander, às vezes checa o BlackBerry de madrugada, escondida no banheiro. As ideias que surgem no meio da noite são anotadas em um bloquinho colocado ao lado da cama. Também nos fins de semana, na casa de praia, ela aproveita para trabalhar no iPad enquanto o marido sai para caminhar. “Ele fica doido comigo”, diz entre risos, garantindo que a estratégia é adotada sem culpas, apenas “para não dar muita briga”. “Sempre gostei do que eu faço. Sabe quando você se encontra? Sou uma pessoa feliz e realizada com as minhas opções.”

A opção de Luciane por se tornar uma alta executiva do mercado financeiro, que hoje administra R$ 125 bilhões, começou lá atrás, quando decidiu o destino que daria a seus dotes artísticos. Bailarina desde os nove anos, a jovem que chegou a se apresentar no Teatro Municipal, de São Paulo, pintava telas a óleo e tinha o traço firme no desenho. Ao mesmo tempo, boa aluna no colégio, adorava matemática. Na hora do vestibular, a divisão de talentos ficou explícita: se inscreveu para o curso de arquitetura, na Universidade de São Paulo (USP), mas, nas demais faculdades, optou por economia e administração de empresas. Passou em todas, menos na USP, e resolveu experimentar o curso de economia, antes de insistir na arquitetura. “Foi a melhor coisa que eu poderia ter feito na vida. Entrei na universidade e adorei. Aí falei para mim mesma: ótimo, vou tratar das minhas habilidades artísticas como hobby. E nunca mais pensei nisso.”

Foi com esse pragmatismo que Luciane construiu uma carreira alavancada em cada crise econômica e dificuldade enfrentadas no trabalho. “Gosto de momentos conturbados”, confessa. “É quando se tem oportunidade de ganhar dinheiro, de as coisas acontecerem.” Já no segundo ano de faculdade, na Fundação Armando Álvares Penteado (Faap), conseguiu um estágio na mesa de operações do BankBoston, na tesouraria. Entusiasmou–se com o trabalho e foi efetivada um ano e meio depois. Era operadora de renda fixa quando se mudou para o Banco Safra, em 1985, para uma área nova, dedicada a fazer operações estruturadas. O Plano Cruzado acabaria deslocando–a para a delicada missão de administrar a fortuna pessoal dos acionistas do banco, a própria família Safra. “Foi o melhor MBA que eu podia ter, porque, na prática, precisei aprender de tudo.”

Enquanto ganhava a confiança dos exigentes acionistas, enfrentando as crises da Ásia, da Rússia, e a desvalorização cambial, ela passou por outras áreas do banco, até tornar–se CEO da asset, em 2002. Mal assumiu e se deparou com o cenário imposto pela antecipação da marcação a mercado e pelos temores em relação à eleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Um panorama conturbado, como ela gosta. Resultado: depois de dois anos de “reconstrução”, em que criou produtos e precisou ir atrás dos recursos dos clientes, sua gestão foi coroada com prêmios importantes no mercado. Do anonimato de administradora da fortuna dos Safra, ela passou a executiva cortejada por bancos concorrentes. Depois de 20 anos de casa e algumas propostas profissionais, precisava pedir demissão a José Safra — o terceiro homem mais rico do Brasil, segundo a Forbes — para assumir novos desafios. “Eu disse a ele que tinha de cortar o cordão umbilical”, conta.

Do tipo mignon (tem 1,57 metro), Luciane chegou ao comando da asset do ABN Amro, em 2006, impondo–se pelo alto conhecimento técnico e pela visão estratégica. O desafio era lidar com uma equipe de 80 pessoas. Se no antigo emprego o estilo centralizador ajudava na rapidez das decisões, no novo, ela precisou aprender a gerir pessoas. “O ABN foi perfeito nessa minha transição, porque tinha um trabalho de preparação do executivo, de coaching (treinamento), que me ajudou muito.” A prova de fogo em gestão de pessoas viria a seguir, durante o processo de aquisição da asset pelo Santander. Depois de meses de incertezas, já que o negócio foi comprado primeiro pelo belga Fortis, que repassou a parte brasileira ao banco espanhol, Luciane foi escolhida para liderar a integração entre as assets do ABN e do Santander. Quando iniciou o processo — dividida entre as equipes da Avenida Paulista e do Brooklin —, estourou a crise global de 2008. Mais conturbado, impossível. “Foi o momento mais difícil da minha carreira”, lembra ela, que agora comanda 120 pessoas, instaladas em um novo prédio.

É nessas horas que conta a disciplina. Superinformada, metódica nas cobranças e precisa em suas avaliações, Luciane está sempre sublinhando nomes e metas em seu caderninho e aproveitando cada segundo de seu agitado dia — que inclui corridas matinais, levar o filho de dez anos ao colégio e jogar uma partida semanal de tênis, às 6h30 das quartas–feiras. “Como não consigo parceiro nesse horário, faço aula.” E quanto aos hobbies artísticos, antigas promessas da juventude? “Quando posso, assisto a um balé, vou a um museu. Levei meu cavalete e minhas telas para a casa de praia. Pintar em São Paulo, com essa rotina, é impossível.” Se já participou de exposições e até vendeu quadros no passado, hoje sua produção está acessível a poucos. “Sou bem resolvida nisso. Aproveito a paz interior da pintura e espalho os meus quadros pelas casas dos amigos.” Nos momentos em que pinta, pelo menos, ela não precisa temer as broncas da família.


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