Fora da rotina

Bimestral / Editorial / Edição 103 / 1 de Março de 2012
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Cavar boas pautas é o desafio de qualquer jornalista. É preciso vencer a repetição inevitável dos acontecimentos e encontrar novos recortes e abordagens, perseguindo incessantemente a missão de ser interessante para o leitor. Em uma revista especializada, lidar com a reincidência é um desafio ainda maior. Criatividade, boas fontes e uma apuração dedicada são o melhor antídoto contra o infortúnio de ser descartado pelo leitor.

A parte boa é que, às vezes, os fatos ajudam nessa lição de casa. Aquilo que sempre foi de um jeito, de repente, aparece de outro, para a sorte da redação. Tome–se como exemplo o direito de retirada previsto na Lei das S.As. Depois de ter sido inúmeras vezes tratado como o benefício que ninguém quer — pois, quase sempre, significa vender as ações para a companhia pelo minguado valor patrimonial —, ele aparece surpreendentemente na contenda societária da Oi como o desejo de consumo de todo investidor. No caso da tele, excepcionalmente, o valor pago a quem exercesse o direito de retirada seria 35% maior que o cotado na Bolsa. Alguém descartaria uma oportunidade dessas?

Curioso que, ao ser finalmente reputado pelos acionistas após décadas de absoluto desprezo, o direito de retirada revelou seus mistérios. Alguém percebeu que não estava claro na lei nem mesmo um detalhe singelo: que acionistas, afinal, podem usufruí–lo? Na dúvida, os interessados na bolada trataram logo de buscar argumentos para assegurar a si o outrora rejeitado direito da lei. Uma ruidosa querela societária eclodiu, suscitando interpretações inéditas do órgão regulador e deixando evidentes os pontos fracos da Lei das S.As. Um deleite para nós, jornalistas.

Se o direito de retirada era um assunto batido com sua pecha de mau negócio, imaginem o tema transparência. Pois até ele se apresentou para nós com uma proposta original nesta edição. Em situações normais, os investidores institucionais batem à porta dos reguladores exigindo mais abertura de informações das companhias. Desta vez, que tal o inverso? Agora é o regulador que está na cola desses profissionais para que reportem mais informações financeiras sobre suas próprias firmas. A iniciativa levantou uma série de reclamações do lado das gestoras de recursos, que não veem sentido em dar transparência sobre si mesmas, mas sim sobre seus fundos. Outra ótima pauta para a redação, como vocês conferem na reportagem da página 12.



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