Faísca no olhar

Ana Elisa, fundadora da Sparks Capital: “Minha competição não é com os outros, é comigo mesma”.

Bimestral / Retrato / Edição 152 / 30 de outubro de 2016
Por 


Foto: Régis Filho

Ana Elisa Bacha Lamounier tinha 17 anos quando suas vitórias no tênis impressionaram uma universidade americana, que lhe ofereceu uma bolsa integral de estudos. “Vão me pagar para jogar tênis!”, festejou a adolescente. Campeã paulista de hipismo aos 14 anos, ela havia trocado o esporte da infância pelas raquetes durante um intercâmbio de dois anos na Inglaterra, e logo se destacou nos torneios. Mas os pais, que desde cedo a haviam incentivado a praticar esportes (“não de forma amadora, mas dando o melhor”) chamaram a filha à razão: não havia hipótese de ela ser uma atleta profissional. Muito menos tenista de uma universidade americana de “segunda linha”.

É possível imaginar a contrariedade da jovem, obrigada a seguir com o plano de cursar administração na PUC de São Paulo — de onde depois sairia para um mestrado na Escola Politécnica da USP e outro na Universidade Harvard. “Foi uma sorte ter nascido numa família de intelectuais”, avalia hoje a fundadora da Sparks Capital, butique de investimentos especializada em M&A (fusões e aquisições). “Eles tinham toda a razão. Amo esporte, mas porque ele me ajuda a ser quem eu sou. Acordar cedo todo dia e treinar para a maratona [em outubro completou a meia-maratona de São Paulo] me faz uma profissional melhor.”

Sobrinha do economista Edmar Bacha e prima do cientista político Bolívar Lamounier, Ana Elisa sempre teve como referência as opiniões do pai, o engenheiro Julio Lamounier, e da mãe, a professora de filosofia e doutora em semiótica Maria de Lourdes Bacha. Foram eles, afinal, que primeiro perceberam o talento da filha, cuja habilidade matemática excepcional foi diagnosticada quando tinha apenas cinco anos. Aos 15, a professora do colégio a dispensou das aulas da disciplina, por absoluta falta do que lhe ensinar.

“No fundo, sempre soube que ia trabalhar com ciências exatas”, comenta Ana Elisa, na entrevista concedida uma semana depois de ter ministrado uma palestra sobre empreendedorismo feminino no Google. “Resolvi contar minha experiência porque descobri, dentro de mim, o raciocínio equivocado de que ser mulher era um fator limitante do meu projeto, de que talvez precisasse me associar a alguém.” A empresa, que completou um ano em outubro sem precisar de um sócio masculino, consolida-se apesar (ou por causa) da crise, e Ana Elisa diz que nunca esteve tão feliz. “Fico até sem graça quando fica todo mundo reclamando da crise, porque a minha empresa está crescendo.”

E quanto à suposta limitação? Antes de discorrer sobre as dificuldades que já enfrentou na carreira construída em bancos de investimento (morou dez anos em Nova York e trabalhou sete no Banco Safra), ela observa: “Depois de um tempo, é comum o meu interlocutor se dizer surpreso por eu ser uma ‘pessoa técnica’. Há um estereótipo de que mulheres não têm essa característica”.

Se tem uma qualidade que Ana Elisa esbanja, no trabalho e no esporte, é o apuro técnico. “Sou na vida profissional exatamente como sou no esporte.” Nas competições, ela continua buscando superação e subindo em pódios, como nos tempos da adolescência. A história com esportes é, de fato, longa e intensa: começou com a prática de diferentes atividades em escolinhas de clubes e chegou, recentemente, a atrapalhar sua vida social. “Todos os meus amigos já sabiam que, nas festas, o ‘parabéns’ tinha que ser cantado antes porque eu precisava dormir cedo”, conta, rindo.

Mais uma paixão é o ciclismo, que já a fez acordar às 4h30 diariamente — inclusive nos fins de semana — para treinar junto com um pelotão de atletas. Foi a modalidade mais próxima de um esporte em equipe que praticou, já que os treinos são sempre coletivos. “Meus esportes são um pouco solitários. Acho que isso tem relação com a minha personalidade. Sou nerd, gosto de trabalhar sozinha na frente do computador”, ela ri novamente. Por causa das reclamações do namorado e dos amigos ela se afastou das competições de mountain bike (depois de ter conquistado alguns troféus), mas rapidamente encontrou outro esporte para se dedicar com afinco: o stand up paddle (remada em pé sobre prancha de surfe). Seu treinador adaptou as atividades diárias para ela poder competir, novamente com chances de medalha, na travessia da Ilha de Boipeba, na Bahia, em novembro.

“Algumas pessoas dizem que sou competitiva, ambiciosa, como se isso fosse algo negativo, especialmente para uma mulher”, filosofa. “Gosto da adrenalina, mas minha competição não é com os outros, é comigo mesma. Não me interessa o tempo da outra corredora, assim como não interessa se as outras empresas também estão crescendo ou não. Gosto de lidar com planejamento de expectativas, resiliência, superação, de aprender a ganhar e a perder. Uso tudo isso na Sparks.”

Ana Elisa usa técnica, determinação e, claro, inteligência. Ela conta que demorou a achar o segmento no qual deveria atuar — private equity, com especialidade em estruturação. “Quando senti a necessidade de ter autonomia no meu trabalho, pensei nos espaços que havia no mercado financeiro, no que poderia fazer não sendo um banco, mas com inteligência no processo — é aí que vou me destacar.” De quebra, o foco escolhido praticamente a livrou daquelas eventuais “limitações” pelo fato de ser mulher. “Quanto mais sofisticado o mercado, com mais inteligência e dinheiro envolvido, menos importam coisas como ‘small talks’. No mercado financeiro, essas conversas sobre amenidades giram em torno de futebol, cerveja e mulher… Mas se a outra ponta é técnica, ela quer uma pessoa que entregue resultados, e não interessa se você é mulher, gorda ou magra, se está bem-vestida ou não.”

O nome Sparks foi escolhido durante um coaching que ela fez antes de abrir a empresa, com uma consultora alemã. Alguns de seus ex-chefes, entrevistados pela Retrato, comentaram o brilho nos olhos da futura empreendedora, que de certa forma os chocava, como se tivessem “sparks of light” (faíscas de luz). Esse brilho aparece em vários momentos da entrevista: quando ela fala da empresa, dos esportes, e também ao citar um novo hobby: a fotografia. No smartphone, exibe algumas de suas imagens preferidas, e a repórter observa que, não por acaso, Ana Elisa tem interesse em fotografar, nas paisagens, a luz. Em perspectiva, em diagonal, mas sempre ela, a luz.

3X4

Rotina – Acorda às 5h30, para treinar às 6 horas. Na segunda-feira joga tênis; na terça pratica corrida; na quarta treina remo e, às vezes, um pouco de tênis; quinta é dia de corrida; na sexta volta o remo. O sábado é reservado ao “descanso ativo”, com atividades físicas leves, e no domingo faz o treino de corrida mais puxado, de 15 quilômetros. Durante a semana, passa o dia trabalhando no escritório, na Avenida Faria Lima, e tem sempre duas semanas de almoços agendados “com investidores, clientes, meus ‘pares’, mas também com intelectuais, gente que me faz pensar.”

Fim de semana – Na praia de Juqueí, no litoral paulista, onde pode ser vista remando, num caiaque, acompanhada de seu cachorro, um golden-retriever.

Cuidado com a alimentação – Não come carnes, só peixe. “Não é por religião nem filosofia. Apenas não gosto de comer animaizinhos.”

Características ditas “femininas” – Não costuma se identificar com as supostas vantagens da liderança feminina. “Não sou mãezona de ninguém, nem a conciliadora e compreensiva. Mas não falo palavrão, uso roupas femininas, e acho que é mais difícil corromper mulheres.”

Características ditas “masculinas” – Identifica-se com aspectos como foco e determinação. “Não tenho um emocional de me desestabilizar, como vejo em algumas amigas. Se não conseguir falar com um investidor, não vou levar para o lado pessoal. Se ele não me atende, ligo no dia seguinte, no mesmo horário. Sou metódica.”

Uma saia justa – Costumava ser muito interrompida por homens, e não os interrompia. “Culturalmente fui educada para não interromper. Fiz até coaching para não me deixar mais ser interrompida.” Também foi, uma vez, chamada de “menina” em uma reunião, “o que nem é educado”.

Uma paixão – Além dos esportes, as viagens. No aniversário de 40 anos, no começo do ano, convidou um grupo de amigos para comemorar em Colônia do Sacramento, no Uruguai. “O meu dinheiro eu gasto em viagens. Tenho preguiça com quem ostenta com consumo.” Gosta do exotismo da Ásia e não consegue ficar muito tempo sem uma “reciclada” em Nova York.

Hobby – Fotografar. Fez cursos com o fotógrafo Marcelo Grecco, no Museu de Arte Moderna (MAM) de São Paulo e ganhou um concurso de fotos de cachorro, com uma pose do seu golden.

Planos para o futuro – Pensa numa carreira de conselheira (já é da MVP, uma empresa de Dubai), em talvez retomar a pesquisa do doutorado, mas tem, principalmente, planos de maternidade. “Agora não é o momento, mas quero ser mãe, não importa se biológica ou não. E não vou ser mãe para pagar uma babá para criar o meu filho.”


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Tags:  fusões e aquisições M&A empreendedorismo Retrato Ana Elisa Bacha Lamounier Ana Elisa Sparks Capital Encontrou algum erro? Envie um e-mail



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