Estranho no ninho

Quando um jornalista de 50 anos vai trabalhar para uma startup o resultado não poderia ser mais tragicômico

Bimestral / Prateleira / Edição 152 / 30 de outubro de 2016
Por 


prateleira

Hilária e assustadora. Essas duas palavras bastariam para descrever a passagem de Dan Lyons pela HubSpot, uma startup da área de marketing digital sediada em Boston. No melhor estilo do consagrado gênero literário “empregado vingativo conta tudo”, o autor — jornalista, escritor e, atualmente, produtor da série Silicon Valley, da HBO — conta suas desventuras durante um breve e psicologicamente intenso período na empresa no livro Disrupted: My Misadventures in the Start-Up Bubble.

Lyons foi editor de tecnologia da revista Newsweek por muitos anos e testemunhou, em primeira pessoa, como a criação do conteúdo e a maneira de entregá-lo ao público foram transformadas pela internet de forma selvagem — o que levou à eliminação de seu próprio emprego. Com 50 anos e pai de gêmeos, ele estabeleceu como meta achar uma vaga em uma startup. A ideia era alcançar independência financeira, assim como vira acontecer várias vezes a partir de sua mesa de editor. Após um par de experiências profissionais penosas, surge uma oportunidade imperdível, em uma empresa nascente em Boston, perto de onde ele morava. #SQN…

A partir desse ponto, o livro explora uma profusão de “causos” e situações que expõem uma pseudocultura corporativa de forma bem-humorada e sarcástica. Curiosamente, todos apresentam uma nota comum: a discriminação, muitas vezes nada sutil, do colega mais velho pelos millennials que tipicamente compõem a força de trabalho das startups. Atraídos pelas promessas de transformar o mundo, desfrutar de senso de propósito no trabalho e (quem sabe?) enriquecer, os jovens recém-chegados ao mercado de trabalho competem ferozmente para entrar no mundo das startups, mesmo diante das baixas remunerações e das longas horas no escritório. Empreendedores e investidores em venture capital, conhecedores desse desbalanceamento na oferta de mão de obra, exploram-na ao máximo, elevando o turnover das startups a níveis estratosféricos. O efeito colateral dessa assimetria é o reforço do comportamento mercenário dos millennials: “Se a aposta não frutificar em um ano ou dois, acho outro lugar para colocar minhas fichas”, pensam.

Em determinado momento, Lyons entende sua situação como a de um participante de “experimento social”: todos ao seu redor comportam-se como se pertencessem a uma seita, louvando e respondendo “amém!” para tudo que os executivos-empreendedores dizem. Estes, por sua vez, assumem o papel de animadores de torcida, em geral minimizando problemas e más notícias, e condenando ao ostracismo quaisquer vozes dissonantes. Fica a impressão de que toda a atmosfera criada pela empresa, com suas copas cheias de guloseimas, salas de recreação e cervejadas às sextas-feiras, funciona como uma cortina de fumaça para distrair um exército de zumbis cheios de tarefas nada glamorosas.

Uma passagem em particular é bastante esclarecedora sobre a dinâmica dos negócios no mundo do marketing digital. Segundo o autor, existe um adágio no Vale do Silício que diz que os usuários de serviços on-line não são os “consumidores”, são o “produto” (!). As empresas de marketing digital existem para “empacotá-los e vendê-los” às empresas que inundam a internet de propaganda.

Em sua época de Newsweek, Lyons criou um blog bastante popular, chamado Fake Steve Jobs, em que parodiava o famoso líder da Apple. Mal sabia ele que a vida o levaria a viver uma tragicomédia particular no Vale do Silício. No final, ele destila sua versão da verdade sob a superfície: essa é a história de dois fundadores e de um grupo de investidores em sua jornada para extrair um bilhão de dólares do mercado de capitais. Os demais participantes da história não passam de meros figurantes.


*Peter Jancso é sócio da Jardim Botânico Investimentos e conselheiro independente

Disrupted: My Misadventures in the Start-Up Bubble
Dan Lyons
Editora: Hachette Books
272 páginas
1ª edição, 2016


Quer continuar lendo?

Você já leu {{limit_offline}} conteúdo(s). Gostaria de ler mais {{limit_online}} gratuitamente?
Faça um cadastro!

Tenha o melhor conteúdo do mercado de capitais sem limites ou interrupção.
Assine a partir de R$ 36/mês!
Você está lendo {{count_online}} de {{limit_online}} reportagens gratuitas

Seja um assinante!

Você atingiu o limite de reportagens gratuitas. Que tal se tornar nosso assinante? Além do acesso ao mais especializado conteúdo do mercado de capitais, você terá descontos de até 30% em nossos encontros e cursos. Aproveite!


Participe da Capital Aberto:  Assine Anuncie


Tags:  prateleira startup Estranho no ninho Dan Lyons marketing digital Disrupted: My Misadventures in the Start-Up Bubble Newsweek Encontrou algum erro? Envie um e-mail



Matéria anterior
Bitcoin em ritmo de montanha-russa
Próxima matéria
Controlador da Prumo reclama de laudo do Brasil Plural e alveja minoritários




Recomendado para você




Nenhum comentário

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado.



Leia também
Bitcoin em ritmo de montanha-russa
Há um ano, uma bitcoin valia por volta de US$ 385; no fim de 2016, tomou uma curva ascendente meteórica e bateu US$ 1.130...