Arrancada do bem

Patrimônio de fundos socialmente responsáveis triplica em apenas um ano e já soma R$ 1,3 bilhão

Reportagens/Edição 50 / 1 de outubro de 2007
Por 


ed50_p32-34Há dez anos, que gestora de recursos vasculharia relatórios de companhias listadas na bolsa em busca de informações sobre projetos socioambientais? Pois, hoje em dia, essa prática virou a realidade de muitos analistas nas assets que oferecem os chamados fundos sustentáveis — carteiras de investimento concentradas em ações de empresas cuja administração é pautada por atitudes socialmente responsáveis. Até o fim de 2005, havia apenas dois bancos com produtos desse tipo em suas prateleiras — número que já chegou a sete neste ano. E não foram apenas as gestoras dessas instituições que aderiram à causa. Existe uma estatística ainda mais animadora quando o assunto é o interesse dos investidores brasileiros por fundos “do bem”.

Levantamento da Associação Nacional dos Bancos de Investimentos (Anbid) revela que, em agosto, o volume de recursos alocado em fundos sustentáveis — também conhecidos pela sigla Social Responsible Investment (SRI), em inglês — chegou a R$ 1,3 bilhão, três vezes mais que o registrado no mesmo mês do ano passado (R$ 403,5 milhões). É verdade que a soma do patrimônio líquido dessas carteiras ainda é modesta. Corresponde a apenas 0,01% do total de R$ 114 bilhões destinados aos demais fundos de ações no Brasil. Mas seu crescimento é constante.

Para quem pilota essas carteiras, o desafio é ir além dos balanços e múltiplos de mercado para descobrir comportamentos que garantam a sustentabilidade e os lucros da companhia no futuro. Isso, claro, sem esquecer de olhar para itens como liquidez e potencial de crescimento, fundamentais para garantir a evolução dos preços em qualquer mercado. Uma das maneiras mais práticas para o êxito dessa tarefa é se prender à carteira do Índice de Sustentabilidade Empresarial da Bovespa (ISE), criado no fim de 2005.

Ora, fica difícil errar na escolha da ação — pelo menos sob o ponto de vista da sustentabilidade — quando se sabe que a companhia emissora teve de passar por um rigoroso processo de seleção, envolvendo um questionário de mais de 200 perguntas divididas em quase uma centena de itens sobre responsabilidade socioambiental e governança. Das sete instituições que oferecem fundos com esse perfil no Brasil, três — Safra, Unibanco e Banco do Brasil — adotam esse procedimento.

“Parto do princípio de que todas as companhias pertencentes ao indicador têm igual preocupação com a sustentabilidade”, explica Ronaldo Patah, diretor de renda variável e multimercados da Unibanco Asset Managment, responsável pelo Unibanco Sustentabilidade. Rubens Monteiro, gerente da BB DTVM, acrescenta: “A Bovespa já teve o trabalho de fazer o índice. Penso que, se adotarmos outra estratégia, como a inclusão de empresas de fora do ISE, vamos descaracterizar a proposta”.

Mas existe um outro grupo de gestores que prefere fazer uma gestão ativa de suas carteiras. Eles têm o objetivo de superar o ISE e, para isso, buscam papéis que não estão na sua composição. Quem faz essa opção consegue, por exemplo, incluir na carteira companhias que não entraram no ISE pelo fato de suas ações não estarem entre as 150 mais líquidas da bolsa, ou mesmo por não terem mais de um ano de negociação no pregão — dois critérios de exclusão do indicador, segundo as regras da Bovespa. Existem ainda muitas empresas que ficam de fora, pois, embora adotem práticas socialmente responsáveis, não encontram tempo hábil para responder, num prazo de dois meses, às perguntas enviadas pela comissão julgadora.

TRABALHO DE FORMIGUINHA — Um exemplo desse modelo é o fundo Ethical, do ABN Amro Real. A expertise de seus gestores para garimpar ativos sustentáveis vem de 2001, quando o produto foi lançado. “Desde aquela época, desenvolvemos uma metodologia própria para promover a diversificação, gerando melhores retornos”, avalia o gestor de renda variável, Pedro Villani. Neste momento, os responsáveis pelo maior fundo de sustentabilidade do País, com um patrimônio de R$ 570 milhões, pensam em reformular o questionário que eles mesmos enviam às empresas. O objetivo é identificar quem realmente faz diferença num universo corporativo onde todos se dizem socialmente responsáveis. “É um trabalho de formiguinha”, desabafa Villani. “Nem sempre as companhias respondem ao que pedimos.”

No início deste ano, o HSBC Investment viu que era preciso contratar pessoal especializado em responsabilidade social corporativa para iniciar seu projeto de criação de um novo fundo com esse perfil. Desde então, o trabalho da analista de sustentabilidade Paula Peirão é observar companhias que estejam fora do índice social, mas também sejam seguidoras de boas práticas socioambientais e de governança. “É fundamental visitar as empresas, ver o que estão fazendo, onde estão melhorando”, conclui. Além de prospectar futuros ativos, ela integra a equipe de gestão do fundo FISE — lançado logo após o surgimento do indicador da Bovespa, em dezembro de 2005.

Nessa carteira, sim, o banco permite aportes somente em ações de companhias integrantes do ISE. Ainda assim, Paula faz questão de não replicar o peso sugerido como referência pelo índice. Para ela, é importante que cada papel passe por um critério de avaliação estabelecido pela própria asset, que vise medir os diferentes graus de responsabilidade social. “Respeitamos muito a seleção feita pela Bovespa, mas não consideramos que todas as companhias do ISE tenham padrões idênticos nos quesitos de responsabilidade socioambiental”, explica.

Na Bradesco Asset Management (Bram), a carteira de responsabilidade social, lá chamada apenas de Fundo ISE, também não se prende, necessariamente, ao índice da bolsa. É previsto que até 30% do patrimônio líquido do fundo se aventure por ações não integrantes do indicador. Contudo, o diretor de renda variável da instituição, Herculano Alves, não usufrui tanto dessa prerrogativa quanto os seus colegas citados. Neste momento, quase todos os ativos do fundo da Bram pertencem ao ISE. O motivo? Receio de que um grande deslocamento do indicador leve a um resultado muito diferente do benchmark combinado com os clientes, principalmente em períodos de alta volatilidade. “Se você se afasta muito do índice, o retorno pode dar muito certo ou muito errado. A intenção desta carteira é respeitar o investidor que quer ver seu dinheiro alocado nas empresas daquele referencial”, diz.

Para Roberto Gonzales, assessor da Associação dos Analistas e Profissionais de Investimento do Mercado de Capitais (Apimec) para assuntos de sustentabilidade, a dificuldade da gestão ativa em sustentabilidade é grande. Muitas empresas brasileiras ainda não centralizam suas práticas sociais numa única diretoria ou gerência encarregada de consolidar os resultados alcançados. “É uma realidade bastante diferente do dia-a-dia de quem avalia o perfil financeiro de um negócio e encontra tudo o que precisa no site da companhia, nos balanços ou, ainda, no seu relatório anual”, afirma.

Engana-se, porém, quem pensa que esse trabalho chega a desanimar os gestores de fundos do bem. “Se a busca fosse fácil, não haveria vantagem competitiva”, afirma Walter Mendes, superintendente da área de estratégias específicas em renda variável da Itaú Asset Management. Aliás, quando o assunto é competição, o Itaú gosta de sair na frente. Além da gestão ativa, o Itaú Excelência Social busca se diferenciar promovendo a interação dos cotistas com o produto. Metade da taxa de administração do fundo é doada a ONGs de responsabilidade social. Só em 2007, essas entidades dividirão a bolada de R$ 2,3 milhões.

Uma análise da indústria de fundos socialmente responsáveis no exterior dá uma idéia do potencial que este nicho ainda tem no Brasil. Nos Estados Unidos, os gestores de carteiras com esse perfil mantinham, no fim de 2005, um patrimônio de US$ 2,29 trilhões, o equivalente a 9,4% da indústria de fundos norte-americana, segundo informa o Report on Responsible Investing Trends, publicado pelo Social Investment Forum (SIF). O mesmo documento, publicado em 2006, informava que, na Europa, naquele ano, os fundos sustentáveis somavam um patrimônio de US$ 473 bilhões. Como o relatório do SIF é feito a cada dois anos, espera-se para 2008 novas estatísticas sobre essas aplicações.


Quer continuar lendo?

Faça um cadastro rápido e tenha acesso gratuito a três reportagens mensalmente.
Tenha o melhor conteúdo do mercado de capitais sem limites ou interrupção.
Assine a partir de R$ 4,90 (nos 3 primeiros meses).
Você está lendo {{count_online}} de {{limit_online}} matérias gratuitas por mês

Você atingiu o seu limite de {{limit_online}} matérias por mês. X

Ja é assinante? Entre aqui >

ou

Aproveite e tenha acesso ilimitado ao melhor conteúdo sobre mercado de capitais!

Básica

R$ 4, 90*

Nos três primeiros meses

01 Acesso Digital
-
10% de Desconto em grupos de discussão e workshops
10% de Desconto em cursos
Acervo Digital
sem áudos**
A partir do 4° mês, o valor cobrado séra de R$36,00

Completa

R$ 9, 90

Nos três primeiros meses

01 Acesso Digital
01 Edição Impressa
10% de Desconto em grupos de discussão e workshops
10% de Desconto em cursos
Acervo Digital
sem áudos**
A partir do 4° mês, o valor cobrado séra de R$42,00

Corporativa

R$ 14, 90

Nos três primeiros meses

05 Acessos Digitais
01 Edição Impressa
15% de Desconto em grupos de discussão e workshops
15% de Desconto em cursos
Acervo Digital
sem áudos**
A partir do 4° mês, o valor cobrado séra de R$69,00

Clube de conhecimento

R$ 19, 90

Nos três primeiros meses

05 Acessos Digitais
01 Edição Impressa
20% de Desconto em grupos de discussão e workshops
20% de Desconto em cursos
Acervo Digital
com áudos**
A partir do 4° mês, o valor cobrado séra de R$89,00

**Áudios de todos os grupos de discussão e workshops.




Participe da Capital Aberto:  Assine Anuncie

Encontrou algum erro? Envie um e-mail



Matéria anterior
Muito além dos balanços
Próxima matéria
O verde chega à bolsa



Comentários

Escreva o seu comentário sobre este texto!

O seu endereço de e-mail não será publicado.




Leia também
Muito além dos balanços
Entre 2007 e 2009, a paulista Mangels Industrial, fabricante de lâminas de aço, botijões de gás e rodas de automóveis,...