Em plena ascensão

Bolsa de Londres cresce com velocidade e já supera a Nyse em IPOs, mas ainda é desconhecida no Brasil

Edição 44/Reportagem especial / 1 de abril de 2007
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ed44_p042-045_pag_3_img_001A Bolsa de Londres atrai cada vez mais companhias de países emergentes. Já reúne 30 da América Latina, 40 da Índia, 70 dos Estados Independentes da Commonwealth (CIS), 60 da China continental e 20 de Hong Kong. Alguma do Brasil? Sim, uma, se considerarmos a Infinity Bio-Energy, companhia fundada por brasileiros que tem sede nas Bermudas e listou ações em um dos mercados londrinos (ver quadro na página 45). Mas este é o único caso. Ao que parece, o mercado norte-americano continua sendo a única vitrine das empresas brasileiras interessadas em captar recursos no exterior por meio de recibos de depósitos de ações (DR’s). Enquanto isso, a London Stock Exchange, ou LSE, não pára de crescer.

Em volume de IPOs, ela já supera a New York Stock Exchange (Nyse). De acordo com dados da World Federation of Exchanges (WFE), foram captados, no ano passado, cerca de US$ 37 bilhões por meio de IPOs na Bolsa de Nova York, e US$ 56 bilhões na LSE. No cômputo geral — que inclui não só as ofertas iniciais, mas também as subseqüentes (chamadas de follow on) —, a Nyse ainda ocupou a liderança, por pouco. Essas ofertas somaram US$ 103 bilhões em Nova York e US$ 95 bilhões na capital britânica.

Esses números mostram uma tendência de crescimento, mas ainda não significam uma ameaça, pelo menos no curto prazo, à hegemonia norte-americana. Vale dizer que, quando o critério é a capitalização de mercado, a Nyse mantém disparado o primeiro lugar, com US$ 15,4 trilhões (no fim de 2006), enquanto a LSE é a quarta bolsa do mundo, com US$ 3,79 trilhões, segundo a WFE.

E a que devemos creditar essa expansão do mercado londrino? A LSE está sendo beneficiada porque é operacionalmente eficiente, localiza-se em um importante centro financeiro mundial e usufrui do crescimento do fluxo financeiro entre países. Mas isso não é tudo. O grande impulso parece ter vindo mesmo dos Estados Unidos: a severa Lei Sarbanes-Oxley (SOX) impôs custos pesados para as empresas que têm valores listados naquele país. Nesse ambiente de crescente vigilância, os executivos de companhias com ações negociadas lá também preocupam-se com as investigações de empresas estrangeiras feitas pelo Departamento de Litígios e Processos do Ministério da Justiça. O resultado é que várias empresas retiraram seus papéis daquele mercado, e aquelas ainda em fase de IPO têm preferido listar as ações em outras bolsas, como a de Londres.

A participação de empresas estrangeiras na LSE e na Nyse é bastante expressiva. Das cerca de 3.200 companhias listadas em Londres, aproximadamente 640 são estrangeiras. Na Nyse, das 2.200 listadas, cerca de 450 são de fora dos Estados Unidos. São dois os mercados da LSE: o principal (Main Market), com mais companhias e generosa fatia da capitalização de mercado, e o Alternative Investment Market (AIM). Enquanto o primeiro é destinado a empresas já estabelecidas e tem vários pré-requisitos rigorosos para listagem, o segundo é um mercado de balcão que atrai companhias em desenvolvimento e com grande potencial. O AIM não exige que as empresas tenham uma capitalização de mercado mínima, um histórico de performance e nem determinado percentual de ações em circulação (free float). São aceitas demonstrações contábeis nos padrões norte-americano, canadense, australiano, do Reino Unido ou no padrão de contabilidade internacional (IFRS).

Outro ponto que pesa a favor do mercado londrino é a existência de uma série de corretoras especializadas nos mais diversos setores da atividade econômica. Toda empresa, para listar ações no AIM, deve ter um consultor nomeado pela própria companhia (chamado de Nomad, ou Nominated Advisor). Ele deve assegurar que a companhia é adequada para o AIM e funciona como uma espécie de guia durante o seu processo de listagem e enquanto tiver ações negociadas no seguimento. Preferencialmente, o Nomad deve ter conhecimento profundo do ramo de atuação da empresa. Essa segmentação tem atraído vários negócios, especialmente os do setor de tecnologia e de outros ligados a recursos naturais.

De acordo com June Paddock, sócia do escritório Fasken Martineau Stringer Saul em Londres, o mercado inglês olha mais para princípios do que para regras. Assim, os custos de adequação à regulamentação costumam ser menores em Londres que em Nova York, especialmente se for levado em conta o AIM. A regulamentação mais leve poderia levar-nos a pensar que o mercado britânico é menos seguro para os investidores que o norte-americano. Paddock ressalta que não: “A transparência e a segurança das informações contábeis são muito importantes e bem reconhecidas na LSE, e os riscos são os mesmos que os dos mercados em geral.”

Ivan Clark, da PricewaterhouseCoopers, afirma que “o papel do auditor é mais robusto em Londres”. Nos Estados Unidos, os auditores têm de revisar as informações financeiras, dar um parecer e fazer uma rigorosa apuração contábil (due diligence). Em Londres, o auditor analisa ainda a consistência das projeções apresentadas pela empresa e emite relatórios sobre a qualidade das práticas de governança corporativa, sobre a suficiência de capital de giro e sobre as informações pro forma, que permitem a comparação de dados originalmente compostos a partir de bases distintas.

POUCA FAMILIARIDADE — Se o mercado londrino agrega agilidade, custos inferiores, liquidez, transparência e segurança, por que as empresas brasileiras ainda não o descobriram? Parte da explicação pode estar no mero e simples desconhecimento e na grande familiaridade com os Estados Unidos. Mesmo escritórios de advocacia com atuação internacional ainda não mantêm no Brasil profissionais com conhecimento da regulamentação britânica. Nas empresas, a situação é semelhante. Várias companhias foram procuradas pela reportagem para falar sobre a possibilidade de listagem no mercado de Londres, mas nenhuma disponibilizou um porta-voz para falar do assunto.

“A cultura brasileira olha tradicionalmente para os Estados Unidos, mas isso está mudando. As companhias estão percebendo um pouco mais as possibilidades do mercado londrino após analisar os problemas e custos de listar suas ações e mantê-las nos Estados Unidos”, afirma June Paddock.

VIÉS AMERICANO — Há também um aspecto ligado aos bancos de investimento que assessoram as companhias dispostas a realizar IPOs. “A maioria dos bancos que assessoram essas operações tem sede nos Estados Unidos, onde possuem uma forte rede de distribuição”, diz Walter Nakamura, professor do Ibmec São Paulo. Além disso, vale lembrar, as filiais brasileiras reportam-se aos profissionais dos Estados Unidos, onde também é definido o bônus dos brasileiros.

No geral, a listagem no exterior não tem sido uma preferência das companhias que abrem o capital no País. Elas têm optado pelas regras 144A e Reg S, da Securities and Exchange Commission, que lhes permitem colocar ações nos Estados Unidos e no resto do mundo desde que os papéis fiquem restritos aos investidores considerados qualificados (Qualified Institutional Buyers — QIBs). Nesses casos, elas não precisam listar papéis em nenhuma bolsa de valores do exterior.

Junte-se a essas questões a inexistência de uma ofensiva comercial por parte da LSE — que vem dando maior ênfase à atração de empresas de outros países do grupo dos BRICs. Mas a LSE agora parece ter começado a olhar para o Brasil. Recentemente, um profissional da bolsa esteve por aqui para checar a possibilidade de atrair para Londres as empresas que têm ADRs negociados em Nova York. “Desde setembro de 2005, estamos investigando ativamente as oportunidades de negócios na América Latina”, afirma Anne Moulier, gerente de desenvolvimento de negócios da LSE para a região, em entrevista concedida à Capital Aberto (ver página 46).

OLHO NO EXTERIOR — Teoricamente, a listagem das ações de uma mesma companhia em várias bolsas amplia o leque de investidores e aumenta a probabilidade de captação de recursos no exterior. A mineradora BHP Billiton, por exemplo, listou-se na Australian Stock Exchange, na LSE, na Johannesburg Stock Exchange e na Nyse (em mercado de balcão).

No entanto, essa presença em vários mercados traz custos de adequação à regulação de cada bolsa e com custodiantes locais que podem não compensar, especialmente se a companhia não tiver planos de inserção no mercado internacional. “Grande parte dos investidores europeus investe em ativos brasileiros por meio do mercado norte-americano”, diz Nami Neneas, superintendente de renda variável do Banif Banco de Investimento. Ou seja, as companhias já podem atrair boa parcela desses aplicadores mesmo sem listarem papéis na London Stock Exchange ou em outra bolsa européia. As empresas brasileiras com ações negociadas em mais de duas bolsas (além da Bovespa e da Nyse) optaram pelo Latibex, mercado de balcão de valores mobiliários latino-americanos da Bolsa de Madri. Várias delas enxergaram nesse mercado uma forma de aumentar a visibilidade na Europa, sem incorrer em elevados custos.

O Latibex aceita os balanços elaborados conforme o nosso padrão contábil e dispensa outros tipos de demonstrativos financeiros. Dentre as companhias brasileiras que se listaram no Latibex estão Vale do Rio Doce, Bradesco, Braskem, Copel, Gerdau, Petrobras, Sadia e Aracruz Celulose.

Por enquanto, o mais provável é que a presença do Brasil na Bolsa de Londres evolua de acordo com a estratégia de internacionalização de cada companhia e a análise do custo e do benefício da múltipla listagem. Neste último aspecto, uma ação comercial mais agressiva por parte da bolsa londrina seria mais do que necessária. Afinal, o mar dominado por instituições depositárias e bancos norte-americanos não está para peixe inglês.

Brasileiros que listaram empresa no AIM elogiam agilidade e diversidade

Uma empresa criada por brasileiros para adquirir, construir e operar usinas de álcool e açúcar no País, a Infinity Bio-Energy, aderiu ao mercado de balcão AIM, da London Stock Exchange, listando ações e opções de compra de ações (warrants) em maio do ano passado. “Optamos pela Bolsa de Londres porque ela reúne investidores de todas as partes do mundo, tem controles adequados e um processo de listagem muito rápido”, afirma Sérgio Thompson-Flores, presidente da empresa, que tem sede nas Bermudas. Embora a listagem na Bovespa tenha sido avaliada, o AIM foi escolhido pela própria natureza da companhia. O mercado europeu costuma ser mais receptivo às iniciativas e aos negócios relacionados à sustentabilidade e a questões ecológicas — no caso, a produção de fonte de energia renovável.O processo de listagem teve início em março e, no dia 23 de maio, os papéis já começavam a ser negociados. Outros mercados, como o Latibex, não foram avaliados pela empresa. A Infinity captou US$ 300 milhões e colocou no mercado a maior parte (75%) de seu capital.

Para Thompson-Flores, os custos da listagem de ações no mercado de balcão, ainda que menores, só são compensados se houver uma escala mínima de captação. O processo de listagem custa entre 5% e 8% do valor a ser captado e demanda investimento em governança corporativa. O AIM exige padrões mínimos de governança, tal como a existência de um conselho de administração cujos membros não tenham função executiva.

Para a Infinity Bio-Energy, a estratégia combina com suas metas de crescimento ambiciosas. O objetivo da companhia, segundo o executivo, é alcançar a liderança global na produção e distribuição de álcool e outros combustíveis renováveis e tornar-se uma relevante produtora e exportadora de açúcar. No ano de 2006, a empresa adquiriu três usinas brasileiras — Cridasa, Usinavi e Alcana. (L.C.L.)


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