Anne Moulier – Questão de tempo

“No século 21, o capital se move globalmente. Investidores querem ser capazes de negociar ações, sejam elas européias, asiáticas, africanas ou latino-americanas”

Edição 44/Reportagem especial / 1 de abril de 2007
Por  e


 

ed44_p046-048_pag_2_img_001Ela deixa claro que entrou com espírito de gente grande na briga com a Nyse. Vangloria-se de ter uma plataforma de negociação mais moderna, custos menores, investidores atentos ao mercado internacional e um sistema regulatório menos restritivo — principalmente depois da lei Sarbanes-Oxley, que, como se sabe, deu grande contribuição ao sucesso da Bolsa de Londres. Para Anne Moulier, gerente de desenvolvimento de negócios para a América Latina da London Stock Exchange (LSE), a entrada de companhias brasileiras no mercado inglês é apenas uma questão de tempo. Em respostas enviadas por e-mail, a executiva concedeu a seguinte entrevista à Capital Aberto:

C.A: Como a senhora enxerga o mercado de capitais brasileiro? Nossas companhias têm um papel em sua estratégia?
A.M: Na Bovespa reside um mercado de grande potencial, que se torna cada vez mais importante conforme companhias locais ganham disciplina para serem empresas de mercado. E, sinceramente, acreditamos que há espaço para Londres neste cenário. O capital internacional disponível aqui é uma oportunidade muito atrativa para várias empresas. Aderir ao mercado inglês pode ajudar uma companhia a ampliar seu portfólio global e permitir que suas ações sejam negociadas em paralelo com as de seus pares internacionais. Por exemplo, a Hoschschild Mining (segunda maior empresa mineradora peruana) recentemente listou-se em Londres e agora aparece no Main Market (mercado principal da London Stock Exchange) ao lado de muitos dos grandes players desse setor, como a BHP Billiton, Rio Tinto e Anglo American.

Como vocês pretendem atrair empresas brasileiras?
Esperamos realizar visitas e encontros com agentes-chave do mercado. Também manteremos conversas com consultores em Nova York, em Londres e no Brasil.

A senhora atribui à Sarbanes-Oxley o crescimento da Bolsa de Londres nos últimos anos?
As razões para esse crescimento são diversas. Vão desde aspectos relacionados à falta de cobertura de analistas e de investimento institucional disponível para empresas menores nos Estados Unidos até a ausência de uma comunidade de consultores e outros agentes de mercado tão focada como a nossa em empresas internacionais. Fatores regulatórios representam somente um dos inúmeros motivos para o sucesso da LSE, uma vez que o sistema de Londres, baseado em princípios, tem muitas vantagens em relação ao modelo norte-americano, que é excessivamente prescritivo. Várias empresas que poderiam obedecer à Sarbanes-Oxley ingressaram no nosso mercado porque oferecemos plataformas de negociação mais apropriadas às suas necessidades e porque o mercado londrino está muito mais atento ao que acontece internacionalmente.

Em sua opinião, por que as companhias brasileiras ainda não demonstraram interesse por Londres?
Até recentemente, companhias latino-americanas olhavam para Nova York como seu lar natural. E nós também não empreendíamos estratégias de marketing na área para mudar essa visão. Agora isso começou a mudar. Londres está se tornando o mercado número 1 para empresas internacionais, pois elas querem se listar ao lado de seus verdadeiros pares.


Quais seriam as principais vantagens de se optar por Londres em vez de Nova York?
Com seu modelo baseado em princípios, o ambiente regulatório do Reino Unido garante os mais elevados padrões de transparência, prestação de contas e governança corporativa, enquanto provê flexibilidade às companhias e um nível apropriado de proteção aos investidores. Além disso, o custo de uma oferta inicial de ações (IPO) é de importância crucial, uma vez que despesas com o banco de investimentos e serviços de consultoria são muito maiores em Nova York do que em Londres. No ano passado, um relatório da consultoria Oxera sobre custo de capital revelou que as taxas de underwriting para IPOs no Reino Unido respondem por 3% a 4% dos recursos captados. Nos Estados Unidos, o porcentual sobe para 6,5% a 7%. Os custos de manutenção de uma listagem em Londres também são mais baixos do que em Nova York, tanto em termos financeiros quanto em esforço de gestão.

Por que os brasileiros deveriam se dirigir a mercados europeus se os mais importantes investidores internacionais já estão na Nyse?
Essa balança está começando a mudar de lado. Hoje, há bancos nova-iorquinos instalando-se em Londres. Além disso, a capital britânica dá acesso a uma base internacional de investidores instruída e profissional, que é mais atraente para as companhias do que a dos mercados norte-americanos, dominados pelo varejo. Uma listagem em Londres permite alcançar uma rede de capital realmente global. No mês passado, por exemplo, nós listamos uma companhia vietnamita que alocou 26% de suas ações para investidores do Reino Unido, uma proporção equivalente para os Estados Unidos e 11% para o resto da Europa. E a fatia maior mesmo, 29%, foi entregue a investidores do sudeste asiático.

Alguns dos bancos que trabalham como coordenadores líderes de IPOs brasileiros são norte-americanos ou estão associados a instituições dos Estados Unidos. Essa característica poderia exercer alguma influência na preferência de nossas companhias por aquele mercado?
A nacionalidade de um banco está se tornando menos relevante. Alguns bancos norte-americanos, inclusive, estão preferindo ter sua sede em Londres. Além disso, consultores baseados nos Estados Unidos agora estão atentos às vantagens da LSE e passaram a trazer companhias americanas para cá.

Temos visto poucas empresas brasileiras listando-se na Nyse. O caminho mais freqüente tem sido a Regra 144A ou o Reg S, que permitem acessar investidores estrangeiros com procedimentos mais simples. Em Londres vocês têm uma regra como a 144A?
Não, não há nenhuma regra equivalente à 144A. Mas, se uma companhia brasileira decidir se listar com Global Depositary Receipts (GDRs), vai atingir um público altamente sofisticado de investidores profissionais e administradores de recursos. As vantagens em relação à Regra 144A são a oferta de uma plataforma de negociação completamente eletrônica e o posicionamento ao lado de competidores globais.

A partir de 2009, a Securities and Exchange Commission (SEC) aceitará o IFRS, padrão internacional de contabilidade, para companhias estrangeiras listadas nos Estados Unidos. Qual a modelo contábil requerido pela LSE?
O IFRS, ou padrão equivalente para emissores não-residentes no Reino Unido, é requerido para relatórios financeiros no Main Market. Também aceitamos princípios contábeis geralmente aceitos (GAAP) locais no Professional Securities Market (segmento para companhias que não desejam converter suas informações financeiras para o IFRS ou seguir as exigências para ofertas no varejo). Empresas européias listadas no AIM devem apresentar seus balanços de acordo com o International Accounting Standards e as outras devem seguir este padrão ou o GAAP americano, canadense ou japonês — ou, ainda, o IFRS australiano.

Quais são os principais requisitos para uma empresa se listar em Londres? Vocês têm regras de governança corporativa, por exemplo?
Para participar do Main Market, no mínimo 20% das ações da companhia devem estar em circulação no mercado. Geralmente, exige-se a participação de um banco de investimento na oferta pública, a apresentação de pelo menos três anos de demonstrações financeiras auditadas e a aprovação da documentação por nossa autoridade de listagem. As companhias listadas também precisam buscar a aprovação prévia de acionistas para aquisições substanciais e outras decisões relevantes. Trabalhamos com um código de governança corporativa, o Combined Code, cujo princípio fundamental é obrigar as companhias a segui-lo ou a explicar por que não o fazem.

Como uma companhia brasileira deveria escolher entre o AIM e o mercado convencional em Londres?
Esperamos que as empresas de maior porte sejam as primeiras a abrir o capital em Londres, e o Main Market seria uma via adequada para elas. No longo prazo, porém, certamente esperamos ver pequenas e médias empresas que desejam internacionalizar-se entrarem no AIM.

O Latibex poderia representar uma barreira para o avanço da Bolsa de Londres na América Latina?
Não especificamente. O Latibex oferece uma plataforma para empresas da América Latina, enquanto a LSE se comunica com companhias de todo o mundo. Acreditamos que, no século 21, o capital se move globalmente. Investidores querem ser capazes de negociar, por exemplo, ações das líderes mundiais do ramo de mineração — sejam elas européias, asiáticas, africanas ou latino-americanas.

Por que a Bolsa de Londres demorou tanto para prestar atenção na América Latina?
Historicamente, empresas latino-americanas sempre gravitaram em torno das bolsas dos Estados Unidos, por razões bem compreensíveis. Mas os mercados estão em constante transformação. Um número crescente de companhias dessa região deu sinais de interesse em se listar na LSE. Foi o que nos persuadiu a descobrir mais e, por isso, desde setembro de 2005, temos investigado ativamente nosso potencial de negócios na América Latina.


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