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Especuladores de plantão
Pessoas físicas buscam cada vez mais o ganho fácil do IPO, debandam em apenas 15 dias e, pior, perdem os atraentes retornos do longo prazo

ed43_p026-030_pag_5_img_001Se o avanço da popularização do mercado de capitais no País pode ser medido pela participação de investidores pessoa física nas recentes ofertas públicas, então a Bovespa atravessa agora uma das melhores fases de sua história. Neste ano, pelo menos três companhias estreantes no mercado — Rodobens, Camargo Corrêa Desenvolvimento Imobiliário e São Martinho — contaram com a presença de mais de 10 mil pessoas físicas, ficando para esta última o recorde de 24.400 CPFs. Para efeito de comparação, desde 2004, do total das 71 ofertas realizadas no período, apenas 15 haviam superado a marca de 10 mil investidores individuais. Um número que, pelo jeito, torna-se cada vez mais comum.

Esse público adquire um lote de ações gastando entre R$ 1 mil e R$ 3 mil (pelo fato de a demanda ser enorme, ninguém consegue comprar além disso), num período conhecido como reserva, ou seja, antes de iniciada a negociação no pregão. O grande interesse das pessoas físicas nessas ofertas até nos levaria a acreditar que elas gostavam um bocado das companhias em que investiram. Mas os números a seguir provam que não é bem assim. A Cosan, por exemplo, que atraiu 8.800 pessoas físicas no dia do IPO (sigla para Initial Public Offering) registrava, 15 dias depois da oferta, apenas 3.480 investidores individuais, 60% menos. Ainda considerando o mesmo período após a estréia, na Brascan esse público caiu 80%, de 4.200 para 860 pessoas; na Copasa, 45%, de 15.400 para 8.500; e na Lupatech, de 11.200 para algo em torno de 1.500 investidores, uma perda de 90% — sim, em apenas duas semanas.

Mas o que leva essas pessoas a comprar a ação, se a maioria tem a intenção de vendê-la logo nos dias seguintes? No jargão do mercado, essa pergunta seria: por que esses público gosta de “flipar”? — termo utilizado para definir a compra no IPO e a venda nos primeiros dias de negociação. A hipótese mais conhecida é que esse público prefere ficar com o lucro, quando ele existe, vindo da alta dos preços logo no início. Nas ofertas públicas iniciais, é comum o emissor lançar o papel com o chamado “desconto do IPO”, que tem o propósito de ser um atrativo para os investidores comprarem o papel na largada, mas acaba sendo também o incentivo para a especulação dos “flippers”.

Na maioria das vezes, o que se vê é que a estratégia dá certo. Em 82% dos casos, ou 27 dos 33 IPOs que permitiram a participação do varejo de 2006 para cá, quem “flipou” ganhou dinheiro. Muito dinheiro? Aí é que está, muito pouco — ao menos quando comparado com os lucros de quem resistiu à tentação de vender o papel na estréia segurando-o até o dia 23 de fevereiro. A constatação vem de um levantamento feito pela corretora Souza Barros com exclusividade para a Capital Aberto (veja quadro na pág. 30).

Nas situações em que os apressadinhos perderam feio, temos a oferta da Vivax, que saiu a mercado por R$ 24,50 e hoje está cotada na casados R$ 46. O ganho é de quase 90%, bastante superior aos 5,7% levados por quem vendeu no primeiro dia. Outro exemplo é a Lupatech. Os 9,7 mil investidores que venderam suas posições nos primeiros 15 dias deixaram de aproveitar um ganho de 68% até o último dia 23. Na melhor das hipóteses, nessas duas semanas, poderiam ter um lucro de no máximo 15%, já que a maior cotação do papel chegou a R$ 25,25 nesse período, ante os R$ 22 do IPO. Das poucas ocasiões em que o imediatismo deu certo, podemos citar as vendas da Camargo Corrêa Desenvolvimento Imobiliário. Tanto o investidor de longo prazo quanto o flipper tomaram prejuízo, mas este último saiu com uma queda de 0,5% na cotação (supondo que vendeu no primeiro dia), enquanto quem segurou o papel até 23 de fevereiro sofreu com uma desvalorização acumulada de 14,62%.

DECISÃO TOMADA — Agora, uma pausa nos números para duas observações. A primeira é que acabou a dúvida sobre quem são os investidores que compram as ações dos flippers no dia da oferta com tanta voracidade, a ponto de fazer o papel subir sobremaneira nessa ocasião. Ora, certamente eles estão no grupo dos mais espertos — independentemente de serem do time dos institucionais ou das pessoas físicas. Por sorte ou por terem estudado os fundamentos da empresa onde colocaram o dinheiro, acertaram na previsão de valorização em um horizonte maior.

Já a segunda (e mais importante) conclusão desses números é que muitas das pessoas físicas atraídas pelos IPOs ainda não enxergam o mercado de capitais como forma de poupança para seus investimentos. Bem, pelo menos não quando investem nas ações de empresas recém-lançadas. “Infelizmente, aqui na corretora, nove em cada dez dos investidores individuais vendem no primeiro dia”, desabafa Clodoir Gabriel Vieira, economista da Souza Barros, autor do estudo. Ele afirma que o cliente já chega até eles com essa decisão tomada, pois costuma acompanhar as notícias de sucesso das últimas operações. “Às vezes, recebem conselhos de amigos que lucraram com ‘flipagens’ anteriores”, conta.f

“Da maneira como eu faço, posso ganhar sem precisar ficar com o dinheiro preso”, diz Kenia Toledo, 37 anos, flipper

Segundo Vieira, “a ordem na corretora é explicar a diferença entre especulação e investimento de verdade, com base nos fundamentos da empresa”. Entretanto, depois de muito gastar seu repertório, o economista chegou a ouvir de alguns que até poderiam se lembrar daquele conselho mais adiante, no momento de aplicar os ganhos obtidos no day trade. “Agora, mostrando essa tabela, quero ver se não irei convencê-los a pensar diferente”, brinca, referindo-se ao levantamento feito para a Capital Aberto.

PRIMEIRO PASSO — Outras duas corretoras consultadas também admitem ter investidores com esse perfil. “Em geral, participam de várias ofertas e repetem o mesmo comportamento em todas elas”, conta Paulino Botelho, diretor da Coinvalores. No entanto, enfatiza que muitos dos que começaram pelo caminho do ganho fácil nos primeiros dias, hoje já retêm ações por um prazo maior. Daniel Gorayeb, analista de investimentos da Spinelli, pondera que, embora as estatísticas reveladas acima impressionem, é preciso considerar que o percentual de flippers nas ofertas é apenas uma parte do total de 220 mil investidores individuais que hoje mantêm ações na Bovespa — número que cresceu cerca de 40% em relação a dezembro de 2005. “Na minha percepção, quem participa dos IPOs é uma minoria. A maior parte das pessoas físicas espera o período de silêncio passar, recebe a orientação do analista e só então decide pela compra ou manutenção do papel”, afirma.

Não existe uma estatística pronta para comprovar essa hipótese, mas o fato de a Cosan ter recuperado a quantidade inicial de pessoas físicas atraídas no IPO, depois de ter perdido 40% delas nos 15 dias seguintes, pode corroborar essa opinião. Além disso, se o número de investidores individuais cresceu de forma tão expressiva nos registros da Bovespa, é porque muitos estão investindo em ações das veteranas — nestes casos, provavelmente, com um horizonte maior. Gerdau, por exemplo, aumentou a base de pessoas físicas em 9% nesse mesmo período; Banco do Brasil, em 13,5%; Itaú, em 7,3%; e a Petrobras, 12,5%, o que corresponde a 27 mil novos acionistas.

Maioria ou não, o fato de milhares de investidores comprarem e venderem rapidamente ações de uma companhia como a Lupatech, por exemplo — que, convenhamos, não está num ramo de negócios dos mais populares —, não deve ser encarado como algo de menor importância. Sobretudo quando lembramos de iniciativas como o programa de popularização da Bovespa e o trabalho do Instituto Nacional de Investidores (INI), que vislumbram exatamente o contrário para o mercado de capitais do País. “O ato de ‘flipar’ deturpa a mentalidade do investidor, que começa acreditar que a bolsa é um jogo”, avalia Théo Rodrigues, presidente do INI.

SEM DINHEIRO PRESO — E o que a pessoa física acha disso? A pergunta foi feita à comerciante Kenia Toledo, 37 anos, uma clássica representante do grupo que vem “flipando” nos vários IPOs. Até hoje, seu recorde de permanência com uma ação adquirida em IPO foi de dez dias — quando estava de férias e esqueceu de deixar uma ordem de venda na corretora. “Quando vejo que o preço da ação subiu, não resisto e realizo o lucro”, confessa. Mesmo informada dos resultados do levantamento da Souza Barros, que mostra ganhos mais gordos no longo prazo, Kenia não se arrepende. Afinal — continua — quem se dispôs a participar de várias ofertas segurando as ações por prazos mais longos teve de desembolsar uma quantia maior, ou cerca de R$ 1 mil, para cada uma delas. “Da maneira como eu faço, ganho sem precisar ficar com o dinheiro preso”. Quando questionada sobre a hipótese de seu comportamento simbolizar a falta de cultura de investimento em ações no País, ela argumenta: “Como a gente pode ficar segurando a ação do IPO se ainda nem tivemos uma recomendação do corretor sobre o papel, ou mesmo sabemos qual será a aceitação do mercado?”.

Do lado das empresas, quem comenta o assunto é o presidente da Associação Brasileira das Companhias Abertas (Abrasca), Alfred Plöger. Segundo ele, a drástica redução na presença de pessoas físicas entre o momento da oferta e dias depois da negociação é um acontecimento absolutamente esperado. “E vamos lembrar que essa prática não é adotada apenas pelos investidores do varejo, pois os institucionais também flipam”, diz. Há prejuízo para as empresas? “Não, é como um soluço. Todos sabem que, depois daqueles primeiros dias, o preço irá se ajustar sozinho e tudo voltará ao normal.”

Plöger concorda que essa aposta, quase automática, no ganho pós-IPO pelos investidores pessoas físicas não faz nada bem à cultura de investimento no Brasil. Mas também não vê como evitar que isso aconteça. Já a presidente da Associação dos Analistas e Profissionais de Investimento do Mercado de Capitais (Apimec-SP), Lucy Sousa, acredita que exista uma forma de suavizar o problema. O segredo estaria justamente em deixar mais ações disponíveis para o investidor individual durante o período de reserva. “Quanto menores são as cotas conferidas a esse público (e, portanto, os valores investidos), maiores são as chances de atrair o flipper ao invés do investidor de longo prazo”, afirma. Faz sentido, portanto, imaginar que os investidores mais interessados no desempenho futuro da companhia tenham interesse em aportar recursos maiores, e não ficar restritos aos R$ 3 mil oferecidos ao varejo nas últimas ofertas. Nesse sentido, avalia Lucy, por mais que a empresa continuasse vendendo ações para os flippers, também abriria mais espaço para o outro tipo de acionista. Afinal, o mercado precisa tanto de especuladores, quanto de investidores.


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