A caminho da bolsa

Empresas de médio porte planejam abertura de capital para ampliar suas áreas de atuação e crescer com aquisições

Reportagem/Edição 37 / 1 de setembro de 2006
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ed37_p030-034_pag_3_img_001O projeto da Bolsa de Valores de São Paulo de trazer de volta ao mercado empresas de médio porte por meio do Bovespa Mais ainda não decolou, mas a lista das que se encaixam neste perfil e pretendem abrir o capital é crescente. Entre as novas candidatas estão Blanver, DBA, Controil, Mectron, Memphis e Teikon. Elas serão apresentadas ao mercado durante o V Fórum Brasil de Abertura de Capital, realizado em setembro, a partir de uma iniciativa conjunta de Bovespa e Finep. Desde 2002, o evento promove a prospecção de negócios com bom potencial de crescimento e retorno aos acionistas e já trouxe para a Bovespa companhias como Company, Totvs, Lupatech, CSU e Datasul.

Ao contrário do que aconteceu com a Company — participante do Fórum de 2005 que, em apenas seis meses, já tinha suas ações negociadas no Novo Mercado —, as potenciais novatas prometem demorar um pouco mais para fazer sua estréia. Segundo Wang Horng, gerente de desenvolvimento de empresas da Bovespa, nenhuma delas está em processo de listagem neste exato momento. Mas, com base nos depoimentos prestados pelas candidatas à Capital Aberto, pode-se estimar que, se tudo sair como previsto, elas desembarcarão na bolsa nos próximos dois anos.

Aparentemente, a que está mais próxima de estrear no mercado de capitais é a DBA, do Rio de Janeiro, prestadora de serviços relacionados a programas de computador (criação, instalação e manutenção) e voltada a grandes clientes corporativos. O plano é a adesão ao Novo Mercado ou ao Bovespa Mais, através de uma colocação privada de ações (private placement), para a captação de recursos que serão destinados à entrada em novos segmentos de mercado e à aquisição de empresas. Atualmente, quase 100% do faturamento é gerado no Brasil, mas há unidades na Alemanha e nos Estados Unidos — este último, o principal foco da expansão. Das seis empresas mencionadas nesta reportagem, ela é a maior. Com faturamento bruto de R$ 190 milhões em 2005 e projeção de R$ 210 milhões neste ano, a DBA tem a seu favor o fato de, há alguns anos, adotar práticas que vão facilitar seu acesso ao mercado de capitais.

“Desde a bolha da Internet, em 2000, nossa empresa é avaliada por vários investidores internacionais interessados em adquirir o negócio. Ainda não havia a idéia de abrir o capital, mas sabíamos que era preciso nos organizar. Por isso, há cinco anos somos auditados por uma empresa internacional e, há dois, adotamos práticas exigidas pela lei Sarbanes-Oxley”, afirma Danilo Meth, sócio e presidente da empresa, com 50% de participação societária. A outra metade pertence a um fundador que já não participa do dia-a-dia da DBA.

Entre as práticas previstas na SOX e adotadas pela BDA estão a auditoria interna dos controles e demonstrações financeiras; balanço anual com relatório de controle interno e avaliação de eficácia; auditoria externa cadastrada no Public Company Oversight Board (PCAOB); código de ética para o CFO (diretor executivo de finanças) e demonstrações financeiras referentes ao ano imediatamente anterior executadas conforme modelos apresentados pela SEC.

A Controil, do Rio Grande do Sul, espera abrir seu capital em dois ou três anos. Fabricante de freios hidráulicos e produtora de elastômeros (peças de borracha para montadoras e empresas de refrigeração), quer aumentar a parcela do faturamento oriunda de exportações, hoje restrita a apenas 4%. Outro objetivo é profissionalizar ainda mais a gestão da empresa. Dos três sócios fundadores, apenas um é atuante.

“A transparência já é forte. Desde 2001, quando dois dos sócios se afastaram do trabalho diário, temos auditoria em todas as áreas da empresa”, conta Gilso Gotardo, diretor superintendente. A Controil também possui um conselho de administração, composto pelos fundadores e por outros três conselheiros externos. O presidente da empresa acumula o cargo de presidente do conselho, mas em no máximo três anos, segundo Gotardo, os cargos serão exercidos por pessoas diferentes.

O BNDES seria uma das principais alternativas de financiamento para empresas de médio porte. No entanto, os recursos do banco de fomento não passam pelos planos das principais candidatas à abertura de capital. A Controil é a única que estuda a possibilidade. “A linha de crédito pode ser mais vantajosa para os atuais acionistas, já que proporcionaria maior retorno sobre o capital. Mas o mercado de capitais seria mais rápido e o Bovespa Mais, o caminho para o tamanho da oferta planejada”, comenta o superintendente.

Fundada em 1949 na cidade de Porto Alegre (RS), a Memphis, fabricante de produtos de higiene pessoal e detentora das marcas Alma das Flores, Senador, Biocrema e Quatro Estações, planeja aderir ao Novo Mercado para financiar seu projeto de expansão. O objetivo é adquirir novas marcas para otimizar o crescimento da empresa. A opção pelo mercado de capitais está baseada também na intenção de profissionalizar ainda mais a empresa, hoje na terceira geração. “Ainda estudamos como ficarão questões como controle acionário e pulverização das ações”, comenta Clóvis Cortesia, diretor de vendas e marketing. Atualmente, 99% do capital da Memphis estão sob a administração dos herdeiros dos três sócios fundadores e apenas 1% nas mãos de outros acionistas.

Segundo o executivo, o modelo de governança corporativa adotado pela Memphis segue as recomendações do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC). A empresa possui um conselho de família e um conselho de administração formado pelo presidente, representantes dos sócios e três membros externos. Um acordo de acionistas rege o modelo de gestão e a empresa conta com auditoria externa desde 2004.

EXPERIÊNCIA COM INVESTIDOR — Outra gaúcha que promete estar na Bovespa é a Teikon, manufatureira de produtos eletrônicos como medidores de energia, balanças fiscais, computadores e telefones celulares. Fundada em 1996, a Teikon é uma espécie de braço operacional de outras três empresas: Altus e Elo, detentoras de 23,8% do capital cada uma, e Urano, proprietária de 18,2%. A empresa conta ainda com investimentos de um fundo de private equity (o CRP 6 Venture, que detém 7,8%) e do BNDESPar (24%). Outro acionista é o diretor presidente da Teikon, que acumula participação de 2,4%.

O histórico de captação de recursos pode ser um ponto a favor da Teikon no processo de abertura de capital. O ingresso do primeiro fundo de private equity aconteceu em 1999. Em 2000, o BNDESPar entrou como debenturista. Em 2005, estes papéis foram convertidos em ações, fazendo do braço de investimentos do BNDES um dos principais acionistas da empresa. Em 2006, Altus e Elo compraram a participação do fundo de private equity. Em seguida, novos aportes foram feitos, por outro fundo e também pelo BNDES.

“Avaliamos a entrada no Bovespa Mais ou no Novo Mercado, mas não há definição. Como não tivemos operações no Bovespa Mais, fica mais difícil avaliar”, diz Paulino Rodrigues, diretor financeiro da empresa, que projeta a estréia da Teikon em bolsa para o ano que vem ou, no máximo, 2008. Além do investimento em novas tecnologias e capital de giro, os recursos captados seriam disponibilizados também para cobrir a eventual saída de sócios, principalmente os financeiros.

SETORES NOVOS — Algumas empresas que estrearam recentemente no mercado de ações foram pioneiras de seus segmentos. A próxima pode ser a Mectron, do setor aeroespacial, sediada em São José dos Campos (SP). Entre seus principais produtos estão equipamentos para os satélites brasileiros, mísseis para as forças armadas e sensores aviônicos. “O interesse da Bovespa e da Finep coincidiu com a busca por um parceiro que pudesse financiar os planos de expansão”, diz Rogério Salvador, um dos cinco sócios da empresa.

Com participação de 20% cada, os fundadores da Mectron pretendem continuar no negócio após a abertura do capital. “O natural seria mantermos uma participação igualitária, já que ninguém tem interesse em sair da empresa. Nos foi sugerido o Bovespa Mais, afirma Salvador. Acelerar a prospecção de oportunidades no mercado externo e a implantação da tecnologia aeroespacial em outros setores é o principal objetivo da Mectron, que já conta com auditoria externa e realiza reuniões transmitidas pela intranet com funcionários para que todos tenham acesso aos números da empresa.

A farmoquímica Blanver é mais uma empresa a estrear na lista de candidatas à abertura de capital. Cerca de 80% de sua receita líquida de R$ 60,5 milhões vêm das exportações para mais de 90 países. Com direção familiar — o fundador e presidente da empresa detém 34% da participação e o restante é divido em partes iguais pelos três filhos, atuais diretores —, a empresa tem como objetivos a profissionalização da administração do negócio e a busca de investidores que lhes permitam alavancar as áreas farmacêutica e farmoquímica.

“O Bovespa Mais nos parece o segmento mais adequado, mas a operação ainda está sendo estudada. A abertura de capital não será imediata. Pode demorar mais dois ou três anos, dependendo do interesse dos investidores”, diz o diretor comercial Sérgio Frangione, que considera o acesso ao mercado de capitais uma opção mais vantajosa de captação do que, por exemplo, uma linha de financiamento do BNDES. “Com a exposição no Fórum da Finep, agora estamos sujeitos à lei da oferta e da procura.”


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