Notícias de 2010

Profundas mudanças atingirão a indústria de fundos nos próximos anos

Artigos/Edição 34 / 1 de junho de 2006
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Alexandre Póvoa*/ Ilustração: Julia Padula

Estamos em junho de 2010, véspera de mais uma eleição presidencial. Apesar da luta política novamente acirrada, a economia, como em 2006, não deverá sofrer grandes impactos. Quem diria que, oito anos depois da fase mais difícil da história da indústria de fundos, estaríamos não mais naquela tosca discussão de como marcar a mercado uma LFT e, sim, no saudável debate sobre o lançamento de produtos cada vez mais sofisticados.

O volume administrado em fundos dobrou nos últimos quatro anos, chegando em 2010 a R$ 1,6 trilhão, com profunda transformação no perfil das carteiras. Apesar de o juro real não ter atingido ainda níveis de países com a classificação grau de investimento como o Brasil, o patamar médio de 7% anuais já ampliou consideravelmente o apetite por risco do nosso investidor. O conjunto de fundos de curto prazo, DI e renda fixa, que em 2006 representava 65% do total, hoje não passa de 30%. Os multimercados ampliaram sua fatia de 20% para 40%, enquanto os fundos de ações mais que duplicaram a participação, de 7% para 15%. Os fundos de previdência também experimentaram forte crescimento. Outra mudança marcante foi na parte dos portfólios dedicada à renda fixa. Há quatro anos, 15% do lastro dos produtos era composto por títulos privados e o restante, por papéis públicos. Hoje, a participação da parcela privada já chega a 35%.

A mudança do perfil do investidor provocou verdadeira revolução na indústria. Profissionais que vão de CEOs a analistas, passando por gestores e officers comerciais (os vendedores), tiveram que se reinventar, provocando uma intensa “dança de cadeiras”. Os bancos de varejo têm investido fortemente no treinamento de gerentes de agências. O trabalho envolve não somente aspectos técnicos, mas também habilidades para lidar com a insatisfação do cliente em relação à volatilidade e às perdas nas cotas e para vencer a resistência natural a mudanças. A maior sofisticação também fez com que a alta concentração de volumes fosse reduzida. Em 2006, as dez maiores empresas de asset eram responsáveis por 75% do total administrado. Em 2010, esta proporção já caiu para 50%, com aumento importante de participação de gestoras menores e/ou independentes, que vêm ganhando espaço com maior agilidade, tanto em gestão como em produtos.

A adaptação à nova realidade tem sido difícil, já que a indústria foi construída a partir de parâmetros muito diferentes. As taxas de administração, sobretudo no varejo, tiveram que ser reduzidas para manter a competitividade dos produtos vis-à-vis outras opções existentes. Bons tempos em que era possível cobrar taxas de administração de 4% a.a., com a economia trabalhando com juros nominais de 20% a.a. Agora, com a taxa Selic em 11%, todos os custos fixos (inclusive taxa de administração) tiveram que baixar. Com o aumento do número de produtos de gestão ativa, a cobrança de taxa de performance se tornou comum e relevante na receita total das empresas de asset. O negócio de fundos de investimento no Brasil caminha para as características encontradas em países desenvolvidos: margens menores, volumes crescentes e ganho progressivo de importância da remuneração variável do gestor.

No que diz respeito à gestão propriamente dita, a situação de 2010 também difere bastante da observada em 2006. Por exemplo, em fundos multimercados, 80% dos resultados vinham de operações de câmbio e renda fixa, ficando renda variável, dívida externa e mercados internacionais em segundo plano. Além disto, 95% dos lucros ou prejuízos eram gerados em posicionamentos direcionais, ou seja, em apostas de alta ou queda de ativos. Os gestores, na média, sentiam maior dificuldade em ganhar dinheiro em mercados voláteis e sem direção clara. Hoje, as operações com ações e ativos internacionais (bolsa, moedas, títulos, etc.) dobraram a participação no desempenho dos fundos. Com isto, as áreas de risco, além de ganharem relevância crescente no processo de gestão de produtos mais sofisticados, tiveram que adaptar os seus modelos estatísticos para o novo perfil do mercado.

Nos chamados fundos “macro”— que fazem posições a partir da análise econômica — os gestores têm hoje a mesma facilidade para assumir posições pessimistas (comprando dólar e vendendo bolsa, por exemplo) e otimistas. Isso não ocorria em 2006, o que gerava, na época, alta correlação de performance entre os diversos produtos da categoria. Como a volatilidade média dos mercados caiu, apostas adirecionais ganharam espaço significativo nas carteiras (sobretudo operações com ações e moedas). Como conseqüência, a demanda por fundos long short, dentro da classe multimercados, subiu exponencialmente.

Os tradicionais operadores de DI e câmbio têm sido impelidos a mudar os seus conceitos. Os primeiros foram obrigados a aprofundar o conhecimento no mercado de títulos privados (devido ao crescimento do crédito), além de estudar e negociar ativos em curvas de juros das principais economias desenvolvidas. Os outros começaram a ter que operar não só o Real, mas também volumes crescentes em moedas de países emergentes e do primeiro mundo. Neste contexto, o profissional de perfil globalizado vem conquistando grande valor de mercado, assim como os especialistas em renda variável. O curioso é que os analistas de ações, que tradicionalmente eram reconhecidos e premiados pelas recomendações de compra de papéis, estão também agora sendo muito bem remunerados pelas boas indicações de venda.

Os tradicionais operadores de DI e câmbio têm sido obrigados a aprofundar o seu conhecimento do mercado de títulos privados

O número de aberturas de capital na bolsa e de ofertas primárias de ações mudou de patamar, atingindo a média de quase duas por semana. A Bovespa ganha importância como instituição, com o volume diário negociado em bolsa saltando de R$ 2,5 bilhões, em 2006, para R$ 4 bilhões . O maior número de empresas abertas (salto de 350 para 500 no mesmo período) e a valorização dos papéis fez com que a relação valor de mercado das ações/ PIB brasileiro fosse incrementada de 65% para 80%. Este novo patamar se aproxima do nível asiático, demonstrando o aumento de importância do mercado de capitais. A diversificação de setores na bolsa se ampliou continuamente, com o crescimento concomitante do mercado de aluguel de ações. A Bovespa tem criado novos índices, sobretudo no âmbito setorial. Na BM&F, o volume negociado também cresce rapidamente, com a progressiva criação de produtos mais sofisticados, sobretudo na área de commodities e derivativos de ativos negociados no mercado internacional.

O profissional de perfil globalizado vem adquirindo grande valor, assim como os especialistas em renda variável

Os fundos de ações finalmente começam a ganhar relevância na vida do cidadão comum de classe média. Nasce timidamente a cultura de renda variável, que muitos julgavam que demoraria gerações para substituir um suposto “viés claramente de renda fixa do brasileiro”. O investidor nacional começa a trilhar o caminho dos espanhóis, portugueses e gregos que, quando assistiram às taxas de juros reais em seus países convergirem para padrões europeus, rapidamente elevaram a fatia de ações em seus portfólios. Na verdade, o maior apelo para este rápido “aculturamento” surgiu do bolso. Um catalisador importante ocorreu quando os extratos mensais de fundos DI começaram a estampar rentabilidades nominais abaixo de 1% mensais. Ainda me lembro de alguns familiares exclamando surpresa: “Só isso? Deve estar errado!”. É inquestionável que 1% ao mês ainda era um patamar satisfatório, mas quem estava mal acostumado começava ali a estranhar.

Sonho, excesso de otimismo? O Brasil começa a cristalizar o relevante potencial de crescimento do seu mercado de capitais. Basta ligarmos os nossos “controles anti-bobagem” na política econômica para chegarmos próximos a esta taxa real de juros — algo em torno de 7% ao ano — mesmo antes da aprovação das tanto alardeadas reformas estruturais. Afinal, 2010 nos aguarda ansiosamente.


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