Ética: o novo conceito de poder

Temos aí uma opção que visa colocar as pessoas em primeiro lugar, estimular a responsabilidade e criar o bem

Artigo / Edição 28 / 1 de dezembro de 2005
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Quando o tema é “Ética”, duas associações me ocorrem de pronto: a primeira, e preocupante, é a contínua vulgarização do conceito; a segunda, e animadora, são os efeitos extremamente positivos para a sociedade que a Ética está produzindo ao reformar, por completo, o conceito de poder. Vamos à primeira, começando desde logo com um exemplo muito atual e bastante eloqüente. Meses atrás, o governo de um dos maiores Estados brasileiros promulgou o seu “Código de Conduta Ética do Servidor Público e da Alta Administração Estadual”, do qual extraio apenas dois dos 19 “deveres éticos”:

“São deveres éticos do servidor público:
• ser assíduo e freqüente ao trabalho
• manter limpo e em perfeita ordem o local de trabalho”

Esta é uma forma grosseira de vulgarização, mas existem outras que, mais sutis, também levam ao mesmo resultado. Um bom exemplo é o alarde que muitas pessoas ou organizações fazem em torno de sua obediência à lei. É claro que a submissão às leis é um dos princípios éticos mais universais, mesmo porque não faz nenhum sentido produzir uma infinidade de regras que ninguém leve a sério. Mas a Ética não pode resumir-se a um de seus princípios! Não somos éticos porque fazemos aquilo que a lei nos obriga a fazer. Somos éticos quando fazemos o bem que ninguém ou lei nenhuma nos obriga.

Conhecemos ou já ouvimos falar de empresas que praticam o chamado “capitalismo selvagem”, isto é, desrespeitam direitos trabalhistas, fraudam produtos, subornam autoridades ou, pior do que tudo isso junto, produzem artigos nocivos ao homem. No andar de cima, encontramos as empresas que respeitam todos os direitos trabalhistas, ajustam-se às disposições legais e regulamentares, zelam pela boa qualidade dos produtos, ainda quando estejam trazendo para o mercado artigos nocivos à saúde e à segurança das pessoas. Estas pretendem ser “empresas éticas”, “cidadãs”, porque cumprem a lei. Em minha opinião, não fazem mais do que sua obrigação. Para que fossem realmente “éticas”, porém, seria preciso fazer algo mais e, definitivamente, não contribuir para rebaixar uma qualidade de vida que, em proporção alarmante no mundo, já é muito baixa.

Outras organizações fazem praça de sua defesa do meio ambiente como uma conquista de natureza ética. Também não concordo com isso. A convivência harmônica com a natureza é questão de sobrevivência, não de ética. O animal que polui a água que bebe e o ar que respira não é anti-ético, é um imbecil! Estas organizações estão vulgarizando o conceito de Ética. Confronte-se isso com o exemplo das empresas que contribuem, com seus produtos, para a melhoria da qualidade de vida da população; que primam pela obediência às leis do país e, além disso, fazem muito mais nessa direção do que a legislação lhes impõe. Procuram criar um clima interno de harmonia, investem na qualificação de seu pessoal, não só geram como distribuem bem a riqueza, não usam seu poder econômico para influenciar as decisões políticas, cortam todos os custos possíveis antes de mandar um único empregado para a rua e assim por diante. Quando a gente faz o bem que não está obrigado a fazer, como é o caso dessas empresas, aí sim estamos falando de Ética, ou seja, dos princípios e valores que inspiram nossa conduta moral, que começa com o cumprimento de regras, mas se sobreleva muito mais. A transparência, vista como a disposição de uma entidade em produzir todas as informações que sejam de interesse de seus públicos e não apenas aquelas a que está obrigada por lei ou regulamentação específica, é um ótimo exemplo de princípio ético.

Até aqui se cuidou da associação preocupante. Tempo de passar para a animadora. Quando analisamos a estrutura da sociedade nos últimos séculos, particularmente a ocidental, nos damos conta de que todas as colunas de sustentação tinham no “poder absoluto” sua base mais sólida. Isto era verdade com o chefe de família, o professor, o rei, o presidente ou o gerente da empresa e, em idêntica proporção, com os líderes religiosos, entendendo-se como poder absoluto a autoridade incontestável e sempre exercida, prima facie, pelo poder em si, sem outras considerações. Se, de um lado, esse “tecido social” tinha a vantagem de relativa estabilidade, de outro, contribuía fortemente para a manutenção de uma sociedade absolutamente desequilibrada, em termos de direitos e oportunidades.

A multiplicação dos regimes democráticos, apesar de todas as suas vulnerabilidades ao poder econômico, também assinala a fragilização do poder político absoluto, sendo raros hoje os países em que podemos encontrar ditaduras, pelo menos ostensivas. A transição de empresas gerenciadas para empresas governadas, por sua vez, deu outra feição ao poder dos presidentes e dos gerentes, que agora devem prestar contas de seu desempenho e sopesar interesses que vão além da simples geração de resultados. O diagnóstico é que o poder absoluto está em declínio em todas as esferas da sociedade contemporânea e a grande pergunta que fica em nossa mente é: na ausência dele, qual será a base de sustentação da nova sociedade?

Entra em cena, a esta altura, um elemento relativamente novo: a comunicação imediata e universalizada, que terá uma enorme influência no desenrolar dos futuros acontecimentos. De fato, não se pode admitir que, uma vez revelados os gritantes contrastes que existem entre os vários segmentos dentro de um país ou entre os próprios países, o precário equilíbrio ainda existente não fique irremediavelmente comprometido. E é justamente aí que mora o perigo, porque a identificação dos contrastes é o empurrãozinho que faltava para fazer desabar a já comprometida estrutura existente.

COM QUE OPÇÕES NOS DEFRONTAMOS ? – A primeira é a onda de descrença e desencanto, geradora de movimentos de rebeldia, anarquia, violência contra a vida e contra as coisas, em todas as camadas sociais, e cujos sintomas estão visíveis por toda a parte e em todo o mundo: gangues, drogas, assaltos, depredações, queima de qualquer coisa — seja índio, indigente, ônibus, bandeira. É uma situação alarmante porque, temos de reconhecer, as instituições que outrora controlavam o rebanho ficaram sem mensagem. Quase ninguém quer mais ouvir falar em “vontade de Deus” quando o assunto é doença, desemprego, exploração do trabalho, pobreza ou mesmo miséria. Nessa direção, o mundo se tornará uma grande desordem, em que virtudes e valores não podem prosperar.

A segunda opção é a volta dos chamados “movimentos fundamentalistas”, sejam eles políticos ou religiosos, islâmicos ou cristãos. As liberdades são cerceadas, o processo de lavagem cerebral é estimulado e a maré do fanatismo só faz subir. O exemplo mais eloqüente é a obsessão do presidente norte-americano em fortalecer a “direita conservadora” nos Estados Unidos — a mesma que movimentava o Congresso para defender uma vida, a de Terry Schiavo (então mais morta que viva, há 15 anos) e, ao mesmo tempo, dar poderes ao presidente para bombardear cidades civis no Iraque, matando sem dó nem piedade milhares de inocentes para, com isso, destronar um ditador cruel e semear lá “nosso” maravilhoso regime de liberdade e respeito aos direitos humanos.

Felizmente, temos uma terceira opção, a Ética, que brota quando o relacionamento com as outras pessoas é colocado em primeiro lugar e o conceito de poder se reveste de responsabilidade. Sob seu domínio, todos os detentores de poder passam a usá-la para criar o bem. Assim, o pai usa sua autoridade para a felicidade dos filhos — e não apenas para a punição —; o chefe usa sua autoridade para ajudar o subordinado a ser bem-sucedido em seu trabalho; o professor a usa para melhorar o desempenho dos alunos, e assim por diante. A Ética, como pensava Aristóteles há quase três mil anos, tem por finalidade suprema a felicidade e o Paraíso é, figurativamente, o domínio das pessoas felizes, que não invejam, não agridem, não ofendem, não destroem, reconhecem seus próprios erros e são capazes de amar. O aspecto mais alvissareiro é que, na implantação desta nova sociedade, o que conta é o trabalho e o esforço de cada um de nós, dentro de nossas possibilidades, sem utopias, sem heroísmos, sem milagres.


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