Mudança de rota

Investidores individuais conhecem pouco a governança, mas valorizam a transparência e preferem olhar as companhias no lugar das ações

Reportagem / Edição 27 / 1 de novembro de 2005
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O programa de popularização da Bovespa, intensificado a partir de 2000, elevou consideravelmente a participação das pessoas físicas no pregão. Elas passaram de 9,7% do volume de recursos negociados, há dez anos, para 30% esperados ao final de 2005. São investidores que, inclusive, embarcaram nas ofertas públicas de ações de companhias que abriram o capital com compromissos de boas práticas de governança corporativa, como Natura, ALL, Gol, CPFL, Dasa e Porto Seguro.

Mas, será que esses investidores, muitos deles ainda iniciantes no mercado de ações, sabem o que significam as tais práticas de governança corporativa que lhes “venderam” como um poderoso diferencial dessas ações? Entendem as vantagens de investir em companhias dos níveis especiais da Bovespa e conhecem as suas diferenças? Para ter uma idéia do que está na cabeça deles, a Capital Aberto resolveu abordá-los e ir direto ao assunto. A conclusão: não, eles ainda não sabem exatamente o que significam as práticas de governança e nem se elas realmente fazem diferença nas suas escolhas. Mas estão interessados em saber e, cada vez mais, procuram inteirar-se do assunto.

Homero Amaral, diretor da Socopa Corretora, comenta que os investidores pessoa física que chegaram ao pregão nos últimos anos estão muito mais preocupados em investir em companhias, e não apenas em bolsa de valores. Justamente por isso, estão mais interessados em entender a gestão dessas empresas. “O perfil mudou. Ele já não faz investimento em bolsa, mas em determinadas ações”, afirma o executivo da corretora que é líder de investimentos via home broker (sistema para transferência de ordens de compra e venda de ações via internet). “O mais importante é ele saber os conceitos principais da governança, aspectos que podem valorizar a ação e garantir seus direitos e benefícios”, destaca Amaral.

De fato, alguns conceitos vêm se disseminando entre os investidores, inclusive aqueles que não têm a menor idéia do que, a rigor, significam os níveis especiais de listagem da Bovespa. Esse é o caso do engenheiro mecânico Fábio Okano, 30 anos, que decidiu investir em ações há um ano.

Ele não sabe exatamente quais os pontos de cada nível da Bovespa, mas acredita que está sendo beneficiado com a maior transparência das empresas. Pela internet, consegue ter acesso às informações nos sites de Relações com Investidores (RI) das companhias e, confessa, por vezes fica inseguro com o excesso de informações. Para o engenheiro, a linguagem do mercado ainda é complexa, mas o acesso à informação é, hoje, muito mais fácil. Okano pretende comprar ações da Nossa Caixa, o primeiro banco listado no Novo Mercado: “Sei que haverá compromisso garantido com novos investidores e que o Novo Mercado diz respeito à melhor gestão administrativa.”

Enquanto o engenheiro pensa na transparência, o estudante de economia da PUC-SP e gestor de clube de investimentos Ronaldo Bernarde Cuba aponta a “lucratividade e a ética” como os principais atrativos das empresas com gestão eficiente. “Os participantes do clube de investimentos têm escolhido muitas ações de companhias do Nível 2 e Novo Mercado para compor a carteira porque elas transmitem mais confiança. Sempre que tem uma abertura de capital, eles querem entrar”, resume.

Parte dessa consciência sobre as práticas de governança vem sendo estimulada pelo comportamento das próprias companhias. Relatórios anuais completos e recheados de informações, assim como balanços munidos de textos claros e bem detalhados, são interpretados como sinais de transparência e respeito ao investidor. “Eles se sentem valorizados”, conta o diretor de operações da Petra Corretora, Ricardo Binelli, que recomenda aos consultores de sua equipe sempre indicar a governança como um ponto a favor das ações negociadas em bolsa.

Para José Carlos Batelli, diretor da Gradual Corretora, os novos investidores pessoas físicas estão experimentando as vantagens do esforço de conquista deste público por parte das áreas de RI. O movimento das companhias para abertura de capital também incentivou um tratamento diferenciado desses profissionais para a pessoa física e atraiu novos interessados. “Fiquei curioso e quis diversificar meus investimentos”, conta Jorge Zeferino Pereira, aposentado de 59 anos que afirma ter se sentido instigado pelas novas ofertas públicas de ações. Quanto à governança corporativa, ele afirma não conhecer o significado, mas tem na ponta da língua os insumos básicos para a decisão de investimento em uma companhia: confiança, transparência e liquidez. “Sei que a Bolsa é uma operação de risco, e busco entender as regras para jogar direito. É preciso estudar o assunto, ter responsabilidade”, afirma.

Embora alguns novatos tenham apenas noções, mas não conhecimento, sobre as boas práticas de governança, outros investidores um pouco mais antigos já versam com mais destreza sobre o tema. “Tem um grupo de pessoas físicas que opera há uns quatro ou cinco anos e está mais afiado, porque aprendeu no dia-a-dia sobre governança”, observa Manoel Lois, diretor de Novos Negócios da Spinelli Corretora.

Um exemplo é o advogado Roberto Wilson Renault, que participa de um clube de investimentos e também compra ações por conta. Ele é consultor jurídico de empresas e estudou muito sobre governança corporativa. Considera sempre os diversos aspectos da gestão das empresas que podem valorizar as ações, lê os balanços patrimoniais e as informações que saem nos sites de RI, jornais e revistas. Também observa a questão societária: se as ações são ordinárias (ON) ou preferenciais (PN) e se terá a garantia do tag along (direito de venda conjunta com o controlador na situação de transferência do controle da companhia). Mas confessa que não se interessa em participar das assembléias de acionistas: “É difícil eu ter tempo. Também acho que as empresas estão mais transparentes e não devem votar matérias que prejudiquem o pequeno investidor”, afirma sem esconder sua dose de ingenuidade. Pelo visto, a era da governança já fez alguma diferença na cabeça dos investidores que desembarcaram na bolsa de valores nos últimos anos.


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