Gelada contra analistas

Retaliações às opiniões de venda entram na pauta da SEC e ficam na memória de profissionais brasileiros que já sofreram deste mal

Reportagem / Edição 27 / 1 de novembro de 2005
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ed27_p054-057_pag_3_img_001Nos últimos meses, investidores e autoridades trouxeram à tona um tipo de prática nada ética por parte das empresas listadas nas bolsas de valores do mercado norte-americano, considerado um dos mais desenvolvidos do mundo. Trata-se de retaliações contra analistas de mercado que não fazem uma avaliação simpática ao seu desempenho ou que recomendam a venda de papéis da companhia. As retaliações incluem, por exemplo, recusa dos dirigentes dessas companhias em responder às perguntas dos analistas nas teleconferências, o desprezo ao retorno das ligações destes analistas ou a ausência propositada de convite para visitas às fábricas ou aos executivos. Em alguns casos, as empresas ameaçam até mesmo suspender negócios que tenham com o empregador do analista, como bancos de investimento, se a cobertura de seus papéis não ganhar ares mais positivos.

Preocupada com essas práticas, a Securities Industry Association (SIA), entidade que reúne mais de 600 empresas de investimentos nos Estados Unidos, encaminhou em maio deste ano uma carta à Securities and Exchange Commission (SEC) encorajando a comissão, a Nyse e a Nasdaq a tomarem medidas mais duras contra essas práticas. Sugere que sejam adotadas regras, pela SEC ou entidades auto-reguladoras, que proíbam qualquer forma de retaliação e que sejam, inclusive, pré-requisitos para a listagem nas bolsas.

A iniciativa da SIA mobilizou o novo presidente da SEC, Christopher Cox que, no início de setembro, encaminhou uma carta ao senador Ron Wyden relatando o problema. Ele procura apoio do Senado americano para a criação de uma regulamentação que permita a punição das empresas que têm adotado atitudes repressoras contra analistas de investimento.

À luz da discussão nos Estados Unidos, a Capital Aberto foi atrás de profissionais que atuam no mercado de capitais brasileiro para saber se, por aqui, atitudes como as das empresas americanas também acontecem. E descobriu que, embora aparentemente ocorram com menos freqüência, as práticas opressoras contra analistas de ações não são raras por aqui. “Um colega chegou a ser demitido de uma instituição financeira porque se recusou a mudar a recomendação de venda que havia feito para a ação de uma empresa cliente do banco”, conta Marco Aurélio Barbosa, chefe do departamento de análise da corretora Coinvalores. “A empresa cliente pressionou tanto o banco que o analista acabou sendo prejudicado.” Um episódio que bate de frente com as propostas de independência da área de pesquisa (research) em relação aos demais departamentos do banco.

Embora nunca tenha sofrido retaliações, Roger Oey, analista do Banif Primus, reconhece que o profissional que recomenda muitas vezes a venda do papel de determinada empresa chega a ser ignorado pelos seus dirigentes em determinadas situações. “Um certo analista de siderurgia não é bem visto pelo mercado porque, por muito tempo, manteve opiniões negativas sobre o setor”, revela Oey. Nas reuniões da Associação de Profissionais e Analistas de Investimento do Mercado de Capitais (Apimec), conta, os executivos das empresas representantes do setor ignoram suas perguntas ou as respondem de forma grosseira.

“As empresas certamente não gostam de abrir suas portas e passar informações para depois receber uma avaliação negativa”, diz Alan Gandelman, sócio diretor da corretora Ágora Sênior. Se a empresa é séria, acrescenta, o máximo que pode acontecer é um mal-estar em relação ao analista. Gandelman, que trabalhou durante cinco anos no mercado de capitais norte-americano, acredita que as retaliações partem com mais freqüência das empresas familiares. “Quando os dirigentes são os donos da companhia, uma avaliação negativa pode ser entendida como uma questão pessoal”, diz ele.

Embora o Brasil tenha um grande número de empresas familiares, retaliações de companhias listadas em bolsa contra analistas são bem menos corriqueiras do que nos Estados Unidos, segundo especialistas. Entre os motivos estão o maior volume envolvido nas transações realizadas na bolsa americana e os modelos de pagamentos de bônus aos executivos muito mais disseminados naquele país. “Se a ação da empresa não é recomendada pelos analistas de investimento, isso significa que ela não terá um bom desempenho na bolsa, o que pode refletir no bônus dos seus dirigentes”, diz Milton Milioni, presidente da Apimec. Basta lembrar dos casos da Enron e da WorldCom, que tiveram seus lucros inflados pelos executivos de alto escalão.

Outro motivo para as retaliações acontecerem com menos freqüência aqui é o fato de a bolsa brasileira estar barata. Sendo assim, o número de recomendações de venda das ações listadas na Bovespa é bem menor que das ações listadas na bolsa dos Estados Unidos. Conseqüentemente, a quantidade de empresas insatisfeitas com a análise realizada pelos profissionais do mercado é menor. Para se ter uma idéia, 20% das 100 ações que compõem o índice IBrX, por exemplo, têm, atualmente, recomendação de venda. Já em relação aos papéis das 500 empresas que compõem o índice da bolsa americana, S&P 500, quase 60% têm este tipo de recomendação.

Há quem acredite que os analistas de corretoras sofrem uma pressão mais sutil das companhias listadas em bolsa que os dos bancos. “Como as empresas não são nossas clientes, o máximo que acontece é o diretor de relações com investidores ligar para o analista para saber por que ele recomendou a venda do papel e tentar fazê-lo mudar de idéia”, afirma Barbosa, da Coinvalores. Algumas vezes, diz, o tom da conversa é um pouco agressivo, mas, em outras, os executivos convidam o analista para visitar sua sede ou fábrica e se dispõem a esclarecer os números do balanço. “Neste caso, a iniciativa é válida, pois a empresa, desde que seja de forma lícita, tem todo direito de melhorar sua imagem junto ao mercado”, acredita Barbosa.

Certa vez, a tática de ligar para esclarecer dados financeiros funcionou com ele próprio. Uma empresa de fertilizantes o chamou para uma conversa depois de uma recomendação negativa da sua ação. “Os executivos me deram mais informações sobre a companhia e me passaram mais confiança”, diz Barbosa, que mudou a recomendação de venda para manutenção do papel.

Para Milioni, da Apimec e também sócio da corretora Geração Futuro, é legítimo que a companhia tente um contato com o profissional que não fez uma análise positiva de seu desempenho para tentar convencê-lo do contrário. “Mas evitar ou punir o analista, bloqueando o fluxo de informações, chega a ser burrice e só tende a piorar a impressão dele”, diz Milioni.

A Grendene é um exemplo de companhia que parece compartilhar dessa idéia. Desde que abriu o capital, em setembro de 2004, suas ações amargaram uma queda de 50%, contra uma valorização de 30% do Ibovespa até setembro deste ano. Para tentar reverter a situação, Marcus Peixoto, diretor financeiro e de relações com investidores da empresa gaúcha, tem visitado com freqüência analistas de investimento e os principais acionistas da companhia, incluindo executivos de cerca de 25 fundos europeus e 20 norte-americanos. O objetivo é tentar convencê-los pessoalmente a mudar a recomendação de venda ou parar a desova dos papéis da companhia. A tática do corpo- a-corpo já tem surtido efeito: no começo de maio o papel da Grendene estava cotado a R$ 12,50. Hoje, está em torno de R$ 16,00.

“Acredito que nos próximos semestres a ação da empresa vai se recuperar, pois nosso esforço de comunicação e transparência passará mais credibilidade para analistas e investidores”, diz Peixoto. Relacionar-se bem com este público não é nenhum mistério para o executivo. Afinal, durante algum tempo, Peixoto atuou do outro lado do balcão como analista de investimentos. “Durante uma época era o analista que mais fazia recomendação de venda e, por isso, já sofri muitas retaliações de companhias abertas”, revela.

Ele lembra de uma vez em que foi pressionado por um diretor de um dos bancos pelos quais passou para melhorar a recomendação do papel de uma empresa que tinha negócios com a instituição. “Levei o caso para o conselho do banco e, como era um analista experiente, o diretor acabou sendo demitido”, diz. Ele recorda também que algumas empresas já deixaram de lhe passar informações e de recebê-lo em visitas técnicas. “Companhias que têm esse tipo de atitude querem ganhar no curto prazo e não entendem que devem ter uma relação longa e consistente com o mercado”, afirma Peixoto.

Da mesma forma pensa José Antônio Felipo, vice-presidente financeiro da CPFL Energia. “Procuramos manter um relacionamento consistente com os analistas, promovendo um contato diário para que tenhamos a liberdade de esclarecer algo quando recomendarem a venda de nossas ações”, diz ele. “Caso contrário, pegaria até mal oferecer um café da manhã ou promover uma conversa com o presidente apenas nas ocasiões em que as recomendações não são otimistas.”

Segundo Felipo, atualmente, existem dois analistas recomendando a venda dos papéis da companhia. “Ligamos para eles para saber o motivo da recomendação negativa”, conta o executivo. “Eles justificaram a recomendação considerando que a perspectiva é de que a bolsa se valorize mais do que a ação da CPFL. Procuramos respeitar suas opiniões”, afirma. Para ele, o ideal é que o RI incentive a formação de uma base razoável de profissionais que acompanhem a empresa. A estratégia pode servir, inclusive, para que uma recomendação de venda não tenha tanto efeito no mercado. Atualmente, diz ele, 12 analistas de investimento cobrem a companhia. “Se desses 12 apenas um ou dois recomendar a venda do nosso papel, isso não será tão expressivo”, acredita.

A Ambev é outra companhia que procura preservar a relação com os analistas de investimento. A filosofia é passar o máximo de informações, independentemente de sua recomendação ser de venda ou compra do papel. “Um bom profissional de RI deve fazer com que a avaliação do analista esteja em plena sintonia com os números da empresa”, diz Pedro Aidar, gerente de relações com investidores da companhia de bebidas. “Procuramos travar uma discussão educada com quem faz uma avaliação negativa da empresa e, através de números reais, mostrar que ele está errado, se este for o caso.”

Aidar aprendeu na prática como uma comunicação bem feita com os profissionais do mercado de capitais é importante. Afinal, sofreu para contornar as críticas que a Ambev recebeu do mercado na ocasião da aliança com a cervejaria belga Interbrew, quando não foi realizada a oferta conjunta de venda (tag along), esperada por alguns acionistas preferenciais. Segundo uma fonte qualificada, a companhia chegou a incluir no cálculo dos bônus do executivo de RI a meta de convencer os profissionais de análise a não recomendar a venda do papel, por conta do episódio.

Aidar nega, porém, que exista ou tenha existido o vínculo da remuneração com o convencimento dos executivos. Segundo ele, o bônus aplicado ao RI está condicionado, entre outras variáveis, à boa percepção do atendimento prestado por essa área. Uma idéia que, inclusive, pode desincentivar algum tipo de retaliação aos analistas por recomendações contrárias aos interesses da companhia.

Para evitar as pressões de empresas insatisfeitas com as recomendações de analistas em relação a suas ações, os profissionais que são retaliados podem denunciar o fato. Aline de Menezes Santos, chefe de gabinete da presidência da CVM, afirma que a entidade nunca recebeu uma queixa sobre o assunto, nem mesmo em nível consultivo. Ela afirma que, para denunciar más práticas de empresas, não existe nenhuma burocracia. “Basta mandar um e-mail ou uma carta sem identificação, se for mais conveniente, relatando o episódio para que nós possamos investigar”, afirma. Mesmo que anônima, a denúncia seria a melhor arma do analista para preservar o seu direito à independência.


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