Vôos mais altos

Company, CTIS, Netuno, TCI, Democrata e Nutrella aquecem as turbinas para abrir o capital no mercado de acesso da Bovespa

Reportagem / Edição 26 / 1 de outubro de 2005
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ed26_p010-014_pag_3_img_001O ano 2005 tem tudo para ficar marcado pela volta das empresas de médio porte à bolsa de valores. Freqüentadoras do pregão nos anos 80, elas foram, em vários casos, engolidas pelas crises econômicas que se seguiram naquela década ou, mais tarde, nos anos 90, desprezadas por um mercado dominado por investidores institucionais muito mais afeitos às companhias de grande porte, especialmente aquelas com potencial para emitir ações na Bolsa de Nova York. Com a retomada das ofertas públicas de ações, as empresas médias entraram novamente no radar da Bovespa e das corretoras, que começaram um trabalho de prospecção daquelas teriam perfil para uma abertura de capital.

Os primeiros resultados vieram no início do ano. As ofertas públicas de 2005 foram inauguradas pela Renar Maçãs, empresa familiar catarinense com quase 40 anos de fundação e faturamento ligeiramente superior a R$ 50 milhões. Foram colocadas 10 mil ações em uma oferta primária, praticamente voltada para investidores pessoa física, que captou um total de R$ 16 milhões.

Passados sete meses, porém, a Renar tem pouco o que comemorar. Além de enfrentar a dura concorrência num mercado de liquidez concentrada como o brasileiro, a companhia viu suas ações caírem de R$ 1,60, na data do lançamento, para R$ 0,78 no final de setembro, puxadas pelos efeitos da variação cambial sobre as exportações e da seca que levou à quebra de 20% da safra anual. Mas os planos de trazer as companhias de médio porte de volta ao mercado acionário não foram abatidos pelo desempenho frustrante da exportadora de maçãs.

A Bolsa de Valores de São Paulo prepara para dezembro o lançamento do Bovespa MAIS, mercado de balcão organizado pensado para ser um novo canal de acesso ao pregão, dirigido justamente a companhias como a Renar. O plano é reunir empresas que procurem por uma estratégia de acesso gradual, com ofertas públicas de volume inferior às do Novo Mercado e direcionadas a um menor número de investidores.

“Nossa intenção é oferecer a empresas com grande potencial de crescimento e caráter inovador a possibilidade de dimensionar a oferta pública de acordo com seu tamanho e de contar com um ambiente de negociação mais flexível, adaptado ao padrão de liquidez de cada participante” conta Wang Jiang Horng, gerente de desenvolvimento de empresas da Bovespa.

Cerca de dez empresas são consideradas potenciais candidatas à abertura de capital no Bovespa MAIS. Algumas delas ainda não revelam seus planos ou confirmam interesse em fazê-lo. Em estágios de preparação diversos, a maioria prevê efetivar os projetos num prazo que varia de 18 a 24 meses. Mas há quem esteja com o processo mais adiantado.

Este é o caso da Company, construtora e incorporadora que atua nos segmentos residencial, comercial e industrial. Considerada a promessa de estréia do novo segmento, sua oferta pública é esperada para os próximos 60 dias. Os recursos captados serão destinados ao financiamento de lançamentos imobiliários.

A quinta maior construtora paulista foi também uma das quatro participantes do IV Fórum Brasil de Abertura Capital, promovido na última semana de setembro pela Finep (Financiadora de Estudos e Projetos) em conjunto com a Bovespa. No evento, empresas escolhidas pelas duas entidades realizaram apresentações para instituições financeiras e investidores institucionais. Estiveram presente também a Democrata Calçados, Netuno Pescados e o Grupo TCI.

Realizado desde 2002, o evento tem sido influente no processo de formação das empresas e na maturação de suas estratégias de lançamento de ações: oito das dez candidatas ao MAIS participaram das quatro últimas edições. Além das selecionadas para este ano, estão Nutrella, Lupatech, CTIS e Bematech.


TECNOLOGIA EM ALTA, DE NOVO – O crescimento da atividade das empresas de tecnologia em âmbito mundial arrefeceu as apreensões provocadas pela bolha da internet e reconquistou o interesse dos investidores. Este movimento, sem dúvida, está por trás dos planos da CTIS Informática, que deve ser outra pioneira das emissões pelo Bovespa MAIS. Em fase de negociação com bancos de investimento e já sob orientação de uma assessoria jurídica, a empresa espera um lançamento de ações na casa dos R$ 70 milhões para meados de 2006.

Até ser convidada pela Bolsa para participar do fórum de abertura de capital, em 2003, a CTIS não colocava o mercado financeiro entre suas possibilidades de captação de recursos. Em 22 anos de atividade, Avaldir da Silva, sócio controlador com 90% do capital e atual diretor-presidente, hesitou em adicionar novos sócios, desestimulado pelas muitas histórias de conflitos de difícil resolução. “A partir da apresentação realizada no evento e de um convívio mais próximo com a Bovespa e a Finep, fomos conhecendo melhor os investidores e as vantagens de adesão”.

Além de financiar seus planos de crescimento, voltados à abertura de escritórios em vários Estados do País, a CTIS pretende implementar um plano de concessão de opções de ações para seus colaboradores, com atenção especial para os membros da diretoria executiva, implementada há 15 anos.

A expansão geográfica também é a tônica do projeto de expansão do Grupo TCI, cujo nicho de atuação é a terceirização de processos de negócios (gestão de informação, materiais e logística). Presente em todos os Estados brasileiros, suas atenções estão voltadas para os países da América do Sul.

Assim como a CTIS, o Grupo TCI tem o capital concentrado nas mãos de seu diretor-presidente, Roberto Marinho Filho, que detém 75% do total. Ele afirma não temer as mudanças que virão com a realidade de uma companhia aberta, e afirma: “Dividir poder não é problema quando se tem a perpetuidade do negócio como objetivo maior”.

INOVAÇÃO EM PESCADOS – O setor de tecnologia não é o único inovador a se candidatar ao MAIS. Há também companhias que focaram seu negócio num modo diferente de administrar práticas tão antigas como a pesca, por exemplo. Essa é exatamente a história da Netuno Pescados, empresa que começou como uma peixaria situada numa vila próxima à Praia de Boa Viagem, em Recife, e hoje se dedica ao cultivo – desenvolvimento em laboratório de matrizes que crescem em viveiros – e beneficiamento de peixes e frutos do mar.

As atividades ligadas à cadeia de pescados movimentam mais de US$ 50 bilhões anuais no comércio internacional e empregam cerca de cem milhões de pessoas. Com a redução dos estoques naturais desencadeada pela exploração da pesca comercial nos últimos dez anos, cresceu a importância de alternativas sustentáveis de cultivo como a aquacultura, que poupa as reservas marinhas e lacustres com sua produção em cativeiro.

Líder em produtividade, o mercado brasileiro tem seu desempenho no cenário internacional be neficiado por esta tendência — acompanhada de perto pela Netuno desde o início de suas atividades, em 1989. A empresa baseou seu crescimento na capacidade de desenvolver soluções que garantam a sustentabilidade do segmento em períodos de mudanças mais profundas.

Foi exatamente o que aconteceu em 1996. Diante de uma onda de terceirização de frigoríficos, a empresa se lançou às atividades de processamento e armazenagem. Hoje já é a maior exportadora brasileira e conta com 12 escritórios de vendas no País, além de outros quatro de representação no exterior. Suas atividades abrangem ainda o desenvolvimento de tecnologia e pesquisa genética, além de soluções de assistência a outros fornecedores de pescados. É proprietária de uma fazenda de 600 hectares de produção de camarão na Grande Recife.

A expectativa trazida pelo fórum é ganhar visibilidade e identificar a estrutura mais adequada para o seu processo de abertura de capital. Inspirada pelo processo de consolidação da indústria do frango no passado recente, a Netuno planeja se tornar um dos grandes players do mercado mundial. Leonardo Moreira, gerente executivo de finanças e relações com o mercado, aponta a Sadia e a Perdigão como suas principais referências de atuação. “É nos exemplos delas que nos miramos para traçar as metas de futuro”, afirma.

ABRINDO O CONTROLE FAMILIAR – Legados de empreendedores do interior do País também aguçam o apetite do mercado. Representantes da categoria como Democrata Calçados e Nutrella, seduzidas pelo potencial de captação junto a investidores, também estão na lista das mais cotadas à abertura de capital no MAIS.

Em junho deste ano, a Democrata Calçados iniciou o processo de profissionalização de sua gerência, nomeando diretores executivos para áreas antes comandadas pelos sócios. Para assegurar um processo de transição responsável, melhor adaptado à realidade de uma empresa com 22 anos de gestão familiar, os controladores formaram um colegiado para acompanhar de perto os resultados que serão alcançados por esta nova diretoria.

A Democrata conta com 1800 funcionários diretos (e outros 800 indiretos) e uma produção diária de 8.000 pares de sapatos. Nos últimos três anos, o número de países clientes saltou de 13 para 59, sendo 32% das exportações voltadas ao mercado norte-americano.

Os próximos três anos serão dedicados à consolidação das práticas de governança e ao incremento dos níveis de transparência. Nas palavras de Giuliano Spinelli Gera, diretor financeiro, “fazendo a lição de casa vamos assegurar a formatação de um corpo gerencial mais robusto e preparado para a vida de companhia aberta, que garanta nossa continuidade ao longo dos próximos cem anos, pelo menos”.

Mais do que garantir a perpetuidade, a indústria panificadora Nutrella quer o apoio do mercado de capitais para se tornar líder. Fundada na década de 50 por filhos de imigrantes alemães, a empresa levou 30 anos para abocanhar a maior fatia das vendas de pães e bolos nos Estados da Região Sul.

No mercado paulista desde 2002, deve sua expansão geográfica ao convite de uma rede de supermercados de quem já era fornecedora e ao aporte de capital do BNDES, que hoje detém 25% do seu capital. A parceria com o banco trouxe uma visão inicial de governança e deu início às idéias de profissionalização da gestão.

“O processo com o BNDES foi nosso grande vestibular. Não queremos esperar outros 30 anos para ser o número um do mercado nacional e, por isso, avaliamos a melhor alternativa de abertura de capital. A decisão deve ser tomada até o início deste mês de dezembro”, resume o diretor nacional de vendas da empresa, Antonio Luiz Monteiro.

OPINIÕES DIVIDIDAS – Profissionais do mercado elogiam a iniciativa do Bovespa MAIS, mas divergem quanto às expectativas sobre a acolhida dessas empresas pelos investidores.

Rodolfo Riechert, diretor de mercado de capitais do Banco Pactual, é conservador em relação ao potencial de sucesso. “Acho difícil que consigam superar a reticência dos grandes investidores, devido especialmente ao seu potencial de liquidez e à atratividade das empresas do Novo Mercado”.

Mais do que a dificuldade de atração de investidores estrangeiros (em conseqüência do pequeno volume ofertado), questões relacionadas aos custos de migração para uma estrutura de companhia aberta e sua manutenção também preocupam o gestor de renda variável da Mellon Global Investment, Ricardo Magalhães. Ambos se valem de um mesmo exemplo para justificar as suas posições: o Neuer Markt alemão.

Lançado como um dos segmentos diferenciados da bolsa de Frankfurt em 1997, dirigia-se especificamente a “start ups” e empresas de tecnologia. Seu encerramento, em junho de 2005, ocorreu por ter sido o Neuer Market, com o tempo, considerado redundante, e não ter encontrado um espaço que justificasse a sua diferenciação. Passada a crise que levou à quebra de um grande número de empresas pontocom no início desta década, as particularidades do segmento especial deixaram de fazer sentido, visto que as companhias sobreviventes enxergavam a possibilidade de migração para segmentos de listagem mais prestigiados, e novas companhias não se viam atraídas pelo mercado cuja imagem havia sido fortemente desgastada pela bolha.

Walter Mendes, superintendente de renda variável do Banco Itaú, não enxerga, pelo menos no início, as empresas do mercado de acesso tendo efeito sobre a composição das grandes carteiras. Sua expectativa é de que as ações dessas companhias sejam alocadas inicialmente em fundos específicos, do tipo que destinam parte de seus investimentos para small caps, ou pessoas físicas.

No entanto, ele aposta numa introdução gradual dessas companhias na bolsa de valores, patrocinada pelo interesse dos investidores institucionais em desenvolverem o mercado de capitais no longo prazo. “Este tipo de atitude pode levar a um cenário em que a bolsa de valores brasileira reflita melhor a diversificação de nossa economia”.

A aposta de longo prazo a que Mendes se refere já conta com um importante aliado no mercado brasileiro: o Futurevalue, fundo de ações gerido pela Fama Investimentos e focado nas small e micro caps, definidas como empresas com alto potencial de crescimento e pequena capitalização.

Fabio Alperowitch, sócio da Fama Investimentos, vê no Bovespa MAIS um celeiro de candidatas ao Futurevalue. Otimista em relação ao desempenho das ofertas pioneiras, ele confia que “o sucesso das primeiras emissões colocará fim à reticência daquelas que hoje tendem a adiar suas ofertas públicas em favor de outras formas de captação de recursos”.

Bolsa segue à procura de potenciais candidatas

A Bovespa está concentrada na preparação do lançamento do MAIS com dois objetivos: a prospecção de potenciais candidatas e a aproximação dessas companhias do mercado investidor. No mês de agosto, dois eventos foram realizados como parte deste trabalho: o seminário Bovespa-ABVCAP e o Encontro de Empresas Financiadas pelo BNDES.

No primeiro, gestores de fundos private equity ligados à Associação Brasileira de Private Equity e Venture Capital (ABVCAP) reuniram-se com diretores de empresas potenciais para discutir a abertura de capital sob os pontos de vista do emissor, do intermediário financeiro e do investidor. O encontro destinado a empresas financiadas pelo BNDES visava aproximá-las de agentes intermediadores do processo de abertura, como sociedades corretoras e assessorias jurídicas.

Para que as empresas do MAIS tenham um grau de exposição semelhante entre si, a Bovespa vai patrocinar a elaboração de relatórios periódicos de análise por equipes independentes. A iniciativa contempla, também, apoio na realização de apresentações para analistas e investidores e divulgação junto a corretoras, clubes de investimento e outras entidades.

A capacitação das candidatas complementa o programa. O ponto de partida é o curso prático de abertura de capital, realizado via internet. prazo. “Este tipo de atitude pode levar a um cenário em que a bolsa de valores brasileira reflita melhor a diversificação de nossa economia”. A aposta de longo prazo a que Mendes se refere já conta com um importante aliado no mercado brasileiro: o Futurevalue, fundo de ações gerido pela Fama Investimentos e focado nas small e micro caps, definidas como empresas com alto potencial de crescimento e pequena capitalização. Fabio Alperowitch, sócio da Fama Investimentos, vê no Bovespa MAIS um celeiro de candidatas ao Futurevalue. Otimista em relação ao desempenho das ofertas pioneiras, ele confia que “o sucesso das primeiras emissões colocará fim à reticência daquelas que hoje tendem a adiar suas ofertas públicas em favor de outras formas de captação de recursos”. Na seqüência, vêm os treinamentos de governança corporativa (ministrados pelo IBCG – Instituto Brasileiro de Governança Corporativa) e de relações com investidores (a cargo do IBRI – Instituto Brasileiro de Relações com Investidores). Segundo Wang Jiang Horng, gerente de desenvolvimento de empresas da Bovespa, as iniciativas visam melhorar as condições dessas empresas para a futura venda de ações e nelas fortalecer a cultura de companhia de capital aberto.

Os critérios de ingresso no programa não especificam setores de atuação ou volumes de faturamento. Toda empresa que tenha boas perspectivas de crescimento, esteja disposta a adotar práticas de governança corporativa similares às das companhias listadas no Novo Mercado e assuma o compromisso de manter pelo menos 25% do capital livre para negociação a partir do sétimo ano de operação é considerada uma potencial candidata.

Para viabilizar o processo de construção da cultura de companhia aberta, e respeitar o caráter gradual de acesso, a Bolsa dispensa as participantes do Bovespa MAIS de algumas regras do Novo Mercado, como as obrigatoriedades de manter um conselho de administração com número mínimo de cinco conselheiros, apresentar demonstrações anuais em padrão internacional ou demonstrações trimestrais com revisão limitada de auditoria.


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