Tocando o barco

Apesar das altas taxas de juros e do desinteresse por fundos multimercados, segmento atrai novos %u201Cplayers

Reportagem / Edição 25 / 1 de setembro de 2005
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ed25_p040-042_pag_3_img_001Há dois anos, a grande aposta dos profissionais do mercado financeiro era na queda dos juros. Ela faria com que os investidores sentissem a necessidade de buscar aplicações mais rentáveis, e eles aceitariam correr mais riscos e ampliar o horizonte de suas aplicações para engordar os rendimentos. Partindo dessa análise – e empurrados pela onda de cortes de pessoal dos grandes bancos – muitos consideraram que aquela era a hora de montar a própria empresa de gestão de recursos.

Passado esse tempo, vê-se que algumas dessas expectativas não se concretizaram. Muito pelo contrário: a trajetória dos juros foi ascendente e os fundos multimercados – que costumam ser o principal atrativo da cesta de produtos desses gestores – perderam apelo junto aos investidores. Nos últimos doze meses, os resgates dos multimercados superaram as captações em R$ 62,9 bilhões, segundo dados da Associação Nacional de Bancos de Investimento (Anbid). Surpreende que, mesmo com essa situação adversa, o número de gestores independentes continue crescente. “Teoricamente, o mercado deveria estar em consolidação, mas está em banho-maria”, diz George Waschmann, diretor da Fidúcia Asset Management.

Houve, sim, um movimento de acomodação, mas bastante tímido. Ainda mais se for levado em conta que o ritmo de crescimento do patrimônio gerido pelos independentes tem sido, nos últimos dois anos, menor que o do surgimento de novas empresas de gestão. Em 2002, os recursos sob alçada dos independentes cresceram 53%, enquanto o número desses gestores aumentou 27%. Foi em 2003 que esse mercado viveu o seu auge: o patrimônio mais que dobrou (subiu 117%), enquanto o número de independentes cresceu 45% em relação ao ano anterior.

Em 2004, os investidores já começaram a dar sinais de que estavam menos atraídos pelos fundos multimercados, mas novos gestores se dispuseram a empreender neste segmento. Enquanto o patrimônio sob gestão dos independentes subiu 16%, o número de novas casas aumentou 31%. Já em 2005 os recursos nas mãos dos independentes caíram 18%. E, mesmo assim, o número de gestores aumentou 11%. Os dados são da Mellon Serviços Financeiros – que faz a administração dos fundos de cerca de 90% dos gestores independentes em atuação no Brasil. De acordo com a Fortuna, os gestores independentes têm atualmente cerca de R$ 10 bilhões em patrimônio no Brasil, o que ainda é pouco frente ao total da indústria de fundos (aproximadamente R$ 586 bilhões, segundo a Fortuna).

Esperava-se que, após o “boom”, o mercado retrocedesse e alguns gestores fossem forçados a encerrar as atividades por não conseguirem atrair recursos em montante que remunerasse o capital investido. E, de fato, foi o que ocorreu em alguns casos. Nesse tímido processo de acomodação, os gestores que fecharam suas portas (como Proventus Invest, Legacy e Acrux), o fizeram sem deixar seqüelas nos investidores, apenas porque consideraram o retorno do negócio insuficiente, e não porque os fundos quebraram.

PAGANDO PARA VER – O que explicaria, então, o crescimento dos candidatos a gestores independentes em meio à perda de atratividade dos multimercados? O motivo principal, avaliam alguns especialistas, vai além da inexistência de uma crise externa, e reside na expectativa dos gestores. “A minha impressão é que tem ainda muita gente pagando para ver a queda dos juros”, Waschmann.

A percepção de Wagner Murgel, diretor da Neo Investimentos, é a mesma: “Existe uma aposta de que esse cenário vai mudar. Apesar de operarem com volumes pequenos, muitos gestores consideram que este é apenas um momento desfavorável do mercado, mas que ele deve ser revertido”. A motivação para a abertura da Avanti Gestão de Recursos, uma das mais novas gestoras independentes, parece ir ao encontro da percepção desses dois profissionais. A empresa começou a atuar há cerca de quatro meses com foco nos clientes de alta renda (mais de R$ 1 milhão disponível para investir), que não são atendidos pelas áreas de private banking de grandes bancos. Alexandre Espírito Santo, um dos sócios da Avanti, diz que dois fatores levaram os sócios a acreditar que o momento para abrir a empresa era favorável: a constatação de que nem sempre os clientes de alta renda são bem atendidos e a expectativa de queda nas taxas. “A manutenção dos juros nesse nível é insustentável no médio prazo”, diz ele.


BOM PARA POUCOS – Ainda que o número de gestores tenha aumentado, o que os profissionais da área dizem é que raros são os casos realmente bem sucedidos. Poucas casas, como a Gávea, de Armínio Fraga, puderam se dar ao luxo de fechar seus produtos à captação. Outras, com nomes menos conhecidos do grande público, como a Neo Investimentos, e mais antigas, como a Hedging Griffo e a JGP, também alcançaram esse patamar. Mas, em gestoras já renomadas e com boa estrutura, como a GP Investimentos e o Pátria, os fundos multimercados não tiveram o mesmo apelo entre os investidores. A situação ficou mais complicada para aquelas que não dispõem de outras frentes de negócios (como fundos de private equity) para segurar as pontas.

Nesse acanhado movimento de ajuste, mais comum que o fechamento das empresas tem sido a saída de determinados sócios, diz Fernando Ganme, diretor da Capital Serviços de Agente Autônomo. O maior custo de uma “asset” é o de remuneração dos seus gestores. Se um sócio sai – por preferir outra proposta profissional ou por não acreditar mais no potencial do negócio –, o custo cai consideravelmente.

E o que explica o sucesso de quem conseguiu se tornar competitivo? Além do desempenho dos fundos, a distribuição e a formação de uma boa base de clientes foram decisivas. O contato próximo com os clientes também provou fazer toda a diferença. “Alguns gestores acharam que era só ter nome no mercado e boa performance que choveria dinheiro. Eles não se preocuparam em conhecer os investidores e nem em construir uma marca”, diz Marcelo D’Agosto, sócio da Fortuna. O que falta, segundo ele, é a visão estratégica e a consciência de que os investidores precisam ser educados para o investimento de risco. Caso contrário, sacam os recursos apenas porque durante um ou dois meses se decepcionaram com o desempenho do fundo.

ARMADILHA DISFARÇADA – A mão que apedrejou os gestores independentes no ano passado e neste foi justamente aquela que os tinha afagado em 2003: os fundos de fundos (FAC) vendidos nas áreas de private banking dos grandes bancos. Os FACs fazem uma seleção dos melhores fundos multimercados e diversificam sua carteira. Mas, quando um dos gestores escolhidos tem um mau desempenho, o recurso é sacado sem que haja tempo para que ele prove que é capaz de se recuperar da perda nos meses seguintes. “O crescimento por meio dos FACs vendidos em private bankings é mais rápido, mas o gestor não ganha a fidelidade do cliente”, diz D’Agosto.

Ou então é o cliente que resolve mudar de aplicações e acaba fazendo grandes resgates. “Para os bancos, é mais fácil deixar que ele saque o recurso, mesmo sabendo que o investimento poderá render no futuro, pois dessa forma ele não corre o risco de imagem”, diz Ganme. Pois bem, a migração de recursos dentro das áreas de private banking foi grande em direção aos CDBs e também aos fundos de renda fixa. E o resultado foi que vários independentes tiveram perdas expressivas de patrimônio.

Esses gestores perceberam que os clientes de alta renda, na verdade, não são assim tão diferentes dos demais, mesmo com todo o aconselhamento financeiro. “Os clientes devem ser educados para entender que os fundos de hedge não podem ter liquidez diária e nem ter o CDI como benchmark”, diz Zeca Oliveira, diretor da Mellon Serviços Financeiros. Ele deve ser analisado por períodos mais longos e em termos absolutos (não como um percentual do CDI).

A falta de compreensão sobre os propósitos dos fundos de hedge pode ter pesado, mas houve um fato concreto: com juros elevados, é desnecessário correr risco para obter uma boa rentabilidade. Foi isso que ocasionou a perda de patrimônio dos fundos multimercados neste ano. Agora, grande parte dos gestores independentes está “desesperada para captar”, usando as palavras de Ganme.

A volta do crescimento dos fundos de maior risco e também dos gestores independentes não é descartada pelos profissionais. Só que eles consideram que, no atual cenário, será necessário suar mais a camisa e trabalhar bem a base de clientes para prosperar. Para Murgel, ainda existe espaço para expandir os investimentos dos clientes de alta renda em fundos de maior risco, desde que os produtos sejam inovadores e façam sentido na estratégia de diversificação desse tipo de investidor. Emanuel Pereira da Silva, sócio da Gap Asset Management, considera que o interesse pelos fundos de hedge reacenderá se os juros caírem para patamares “civilizados”, de 12% nominais ao ano.

Nesse período em que o número de independentes cresceu, os efeitos para o mercado – inclusive o de capitais – podem ser vistos como benéficos. O aumento do total de participantes contribuiu para trazer mais alternativas de investimento (surgiram fundos especializados em arbitragem, por exemplo) e para a liquidez dos mercados. Além de terem participado de algumas ofertas públicas iniciais de ações, os independentes contribuíram para a expansão do mercado de aluguel de ações. Só lhes falta agora depararem-se com ventos que soprem a favor.


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