Poupança para o futuro

Depois da bem-sucedida popularização do mercado de ações, eis o objetivo seguinte, não menos ambicioso: ensinar o investidor brasileiro a pensar no longo prazo

Reportagem / Edição 25 / 1 de setembro de 2005
Por 


ed25_p012-016_pag_3_img_001Quando os analistas de uma era futura olharem para trás, para ver o que acontecia com o setor financeiro do País em meados dos anos 2000, certamente vão encontrar o exato momento em que o mercado de ações deixava de ser um mito para as pessoas físicas. Sim, o Brasil vive a fase da popularização das Bolsas de Valores. Superamos o tempo em que aplicar em ações era uma prática das elites econômicas. Hoje, o operário quer saber a quantas anda o rendimento do fundo em que investiu parte de seu FGTS. E até a mesa de bar virou lugar para discutir a cotação dos papéis, como ocorre nos clubes de investimentos que escolhem esses ambientes nada formais para falar de suas carteiras.

Tais cenas se traduzem em números. Em apenas dois anos, a participação das pessoas físicas no volume financeiro da Bovespa saltou de 20,5%, em setembro de 2002, para 30,1%, em julho de 2004 – o pico da década. As recentes turbulências na política trouxeram este percentual para os atuais 25,1%. Mas é inegável que a popularização do mercado virou realidade e, embora nossa parcela de pessoas físicas ainda seja modesta se comparada a de países do primeiro mundo, trata-se de um fenômeno que tende a crescer. “Conseguimos desmistificar a bolsa”, comemora o presidente da Bovespa, Raymundo Magliano Filho.

De fato, essa batalha está ganha. E agora vem o próximo, e não menos pretensioso obstáculo: fazer com que a pessoa física deixe de enxergar esse tipo de investimento apenas como uma forma de ver seu dinheiro se multiplicar no curto prazo, com a compra e a venda acertada de um papel. “Precisamos mostrar que o mercado de capitais vai além disso”, alerta Paulo Portinho, gerente do INI (Instituto Nacional de Investidores), uma organização civil que, em dois anos, já soma cinco mil associados. Ele explica que o próprio Instituto foi criado com o propósito de mostrar que ser acionista é participar do crescimento da companhia e, aí sim, desfrutar de suas conquistas.

“Lá percebemos que as pessoas físicas não sabem o que é governança corporativa. Ainda não conseguem avaliar qual é o próprio papel e o da corretora quando entregam seu dinheiro para aplicação em bolsa. Também não imaginam se o preço que pagam por uma ação é alto ou baixo”, exemplifica Portinho. Para ele, ainda estamos longe do dia em que o brasileiro saberá guardar um papel por dez, 12 anos, e só vendê-lo quando realmente houver uma boa oportunidade. “Hoje, ele ganha um pouquinho e já mata a sua galinha de ovos de ouro.”

Para mudar essa cultura na cabeça dos cerca de 120 mil brasileiros que hoje têm algum dinheiro aplicado diretamente em ações, o INI faz parcerias com as corretoras – já são 20 escritórios – para ensiná-las como abordar a pessoa física e transmitir os tais conceitos de “longevidade”.

Do lado das corretoras, a idéia é muito bem aceita. Elas já vêm percebendo que precisavam mesmo mudar o modo de receber o investidor leigo. A começar pelo vocabulário. “Aqui não se usa mais o ‘financês’ ”, afirma o diretor da corretora Socopa, Homero Amaral. Com uma carteira de clientes que chega a 70% de pessoas físicas, costuma usar exemplos na hora de conversar com os menos informados. “Digo que uma ação é como aquele terreninho que ele um dia comprou. Pode valorizar ou não. Por isso tem de prestar atenção numa série de fatores.”

Na Coinvalores, pesa na contratação dos novos profissionais a paciência do corretor. “A ordem é clara: se for preciso, terá que se explicar dez vezes, sempre com um sorriso no rosto”, diz o diretor Fernando Silva Telles. “Os meses passam e um dia ouvimos deles expressões como ‘tag along’, dividendos, Ebitda. É gratificante.” Para Fernando Marques, da Fator, a prova de fogo de que o corretor aprendeu a conversar com a pessoa física leiga ocorre na hora em que a ação perde o valor. “A orientação inicial é fundamental”, sentencia.

BEM INICIADOS – Foi por estar bem esclarecida sobre a responsabilidade do investidor que a estudante de enfermagem Catharina dos Santos, 23 anos, manteve suas aplicações mesmo após olhar o extrato e ver a baixa que seus investimentos sofreram em 2005. “Não vou negar que fiquei chateada”, desabafa. “Mas acredito no mercado. Aprendi a pensar sempre a médio e longo prazo”, acrescenta. A estréia de Catharina no mercado de ações se deu em maio. Entrou para o clube de investimentos Mulherinvest e ainda convenceu a mãe, Joana Fernandes, a também participar do grupo, com aportes mensais de R$ 200. “Quando ela viu as primeiras quedas nas cotações, disse: ‘Minha filha, nem começamos e já perdemos’. Daí respondi: ‘Calma, depois isso muda’ ”. Ambas permanecem firmes e fortes no clube.

O fazendeiro Eduardo Franceschi foi outro que teve de aprender a ser paciente com o mercado de ações. Quando bateu à porta da corretora Petra, em 2002, chegou a pedir ao diretor Ricardo Binelli uma nota promissória caso ele perdesse dinheiro. “Disse a ele que só fazia negócio se fosse tiro certeiro. Comigo, é macuco no embornal”, lembra Franceschi. Obviamente, não houve nota promissória. Binelli explicou ao cliente que, assim como existe o dia da caça, também há o do caçador. Hoje, após longas aulas sobre o funcionamento do mercado, Franceschi fica feliz quando a cotação cai. “É hora de comprar mais porque está barato.”

De 2002 para cá, 805 novos clubes de investimento surgiram, média de um novo grupo a cada dois dias. Hoje, eles somam 1,2 mil

O diretor da Petra vê em comportamentos como o da estudante e o do fazendeiro a indicação de que a pessoa física brasileira já dá os primeiros passos para uma segunda fase no mercado de ações. “Antes, o investidor não tinha o hábito de aportes freqüentes. Ele aplicava um dinheiro que estava sobrando e deixava lá até precisar.” Para conscientizar seus clientes sobre a importância da continuidade, vem promovendo palestras. “Nelas, falo sempre da importância da governança corporativa. Mas a maioria só presta atenção na valorização ou não do papel.”

A história indica que vale uma aposta nesta segunda fase. As coisas no Brasil começam devagar, mas uma hora pegam o impulso. Basta ver que o País passou as últimas duas décadas com menos de 400 clubes de investimentos e, mesmo assim, formado, na grande maioria, por familiares. No entanto, de 2002 para cá, surgiram 805 novos clubes – uma média de um novo grupo criado a cada dois dias. Hoje, já são 1.217 deles no total. Além do mais, esses recém-associados são pessoas que conversam mais entre si, discutem balanços de empresas, planejam estratégias de longo prazo e fazem de seus encontros um evento entre amigos. As 50 investidoras do Mulherinvest, por exemplo, reúnem-se todo mês no Boteco 66, no bairro do Jardim Botânico, no Rio de Janeiro. “Ali, sai tudo quanto é assunto”, brinca a gestora do clube Sandra Blanco. “Por isso que a participação dos homens é proibida.”

Bem ou mal informado sobre a governança das empresas, pouco ou muito ansioso pelo retorno do investimento, mais ou menos disposto a correr riscos – são essas as variáveis que formam o perfil do investidor pessoa física no Brasil de hoje. Mas uma coisa é fato: agora que se deu a chamada popularização da bolsa de valores, não há como voltar para o estágio de total ignorância do mercado.

As empresas já enxergam isso e saíram à caça de seus novos acionistas. No Submarino, esse perfil de investidor é estratégico e possui entre 7% a 8% do capital da companhia em seu poder. Para atrair mais gente, apostam na clareza das informações, trocando o “economês” pelo didatismo. “Tudo é informado com transparência”, diz Martín Escobari, diretor de relações com investidores do Submarino. Na Localiza, onde a pessoa física representa 3% do capital total da empresa, o plano é investir em palestras e não faltar em nenhuma reunião pública, como os encontros da Apimec, por exemplo. Ambas estão certas. Como prevê Magliano, que legitimamente merece os louros do projeto de popularização, agora que a panela de pressão começou a ferver, o cozido há de sair.

Tudo começou com a ousadia de um verdadeiro obstinado

Os estímulos à popularização do mercado de ações são diversos. Passam pelo empenho das corretoras, da Bovespa e das companhias que se esforçam para acolher este público. No início de tudo, porém, havia uma figura que, por sua energia e determinação, provou-se essencial para convencer o mercado, em sua maioria cético, de que a aposta valeria a pena. Quem estava lá era Raymundo Magliano Filho, presidente da Bolsa.

Estudioso dos filósofos John Locke, Kant e Norberto Bobbio – até hoje, faz aulas particulares duas vezes por semana sobre o tema –, Magliano é um feroz defensor da democratização da informação. “Kant dizia que o esclarecimento é a primeira condição para o homem sair da menoridade”, ensina. Assim, ele trouxe a lição dos pensadores para dentro da Bovespa. Adaptou a filosofia iluminista dobrando a manga da camisa e, de cima de um carro de som em frente às fábricas do ABC paulista, explicou aos trabalhadores que qualquer um deles poderia se tornar acionista se assim desejasse. Era o ano de 2002.

Das palestras nas empresas, foi um pulo para visitar academias, estações do metrô, shoppings centers, parques etc. Tudo a bordo do Bovmóvel – o carro de som da Bovespa que virou a marca registrada do programa de popularização. É certo que houve momentos de desânimo. “Na Praia Grande, uma mulher veio me perguntar se a bolsa que vendíamos era de couro ou de plástico”, conta. O que ele respondeu? Bem, respirou fundo e tornou a explicar o que era o mercado de ações.

O programa ganhou o nome de “A Bovespa vai até Você”. Já atendeu 245 mil chamados, muitos deles recheados de histórias bizarras. Era comum confundirem Bovespa com o banco Banespa, por exemplo. Mas nada supera o episódio em que um policial rodoviário parou a van de Magliano na divisa entre São Paulo e Espírito Santo. Sua empolgação para explicar o objetivo da viagem era tamanha, que o próprio guarda o levou para dentro da cabine do posto, pois também queria que seus colegas aprendessem como era fácil investir em ações.

Hoje a Bovespa chegou à favela. No dia 10 de setembro próximo os moradores do bairro de Paraisópolis, um dos mais pobres de São Paulo, ganharão a “Biblioteca Norberto Bobbio”, como parte de uma ação social que a Bolsa desenvolve há dois anos no local. Por enquanto não haverá ali um guichê com acesso ao homebroker, mas um espaço cultural semelhante ao que já foi instalado em homenagem ao filósofo no centro da capital paulista, a poucos metros da sede da Bolsa. Mas, se na filosofia de Magliano qualquer grupo de 20 pessoas já é motivo para iniciar uma palestra sobre mercado de ações, não estranhem se houver uma visita do Bovmóvel à favela dentro de pouco tempo. “E por que não?”, adianta o presidente da casa.


Quer continuar lendo?

Você já leu {{limit_offline}} conteúdo(s). Gostaria de ler mais {{limit_online}} gratuitamente?
Faça um cadastro!

Tenha o melhor conteúdo do mercado de capitais sem limites ou interrupção.
Assine a partir de R$ 36/mês!
Você está lendo {{count_online}} de {{limit_online}} reportagens gratuitas

Seja um assinante!

Você atingiu o limite de reportagens gratuitas. Que tal se tornar nosso assinante? Além do acesso ao mais especializado conteúdo do mercado de capitais, você terá descontos de até 30% em nossos encontros e cursos. Aproveite!


Participe da Capital Aberto:  Assine Anuncie

Encontrou algum erro? Envie um e-mail



Matéria anterior
Uma questão de marketing
Próxima matéria
Encontro de expectativas




Nenhum comentário

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado.



Leia também
Uma questão de marketing
  A tendendo às exigências de um mercado em amadurecimento, as áreas de Relações com Investidores (RI) adotaram...