A cultura de Wall Street

Em Every Man a Speculator, Steve Fraser mostra como o centro financeiro novaiorquino se incorporou aos sonhos e pesadelos dos norte-americanos

Prateleira / Edição 24 / 1 de agosto de 2005
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ed24_p062-064_pag_1_img_001Os holandeses são os pais das finanças modernas: criaram o banco comercial, as operações de crédito, o instrumento do seguro e o mercado de ações – este último quando começaram a negociar na primeira bolsa de valores do mundo, localizada na ponte do Amstel River, em Amsterdam.

Em Manhattan, onde fizeram a Nova Amsterdam, construíram um muro alto de madeira na parte sul da ilha que ia desde o East River até o Rio Hudson para se protegerem da invasão dos índios e dos animais, e também dos ingleses. Criaram assim, no seu entorno, a rua do muro, que mais tarde se transformaria na famosa Wall Street. No decorrer dos anos, os ingleses, através do comércio, incorporaram a ilha ao Estado de Nova York.

O editor Steve Fraser, após varias tentativas frustradas de convencer autores a escrever um livro sobre a história de Wall Street e sua contribuição à sociedade norte-americana, resolveu enfrentar o desafio com o próprio punho e lançar Every Man a Speculator, publicado pela editora Harper Collins em fevereiro deste ano. É também autor de Labor Will Rule: Sidney Hillman and the Rise of American Labor, que recebeu o prêmio Taft como o melhor livro sobre a história do trabalho nos EUA.

Fraser faz a crônica de 200 anos do caldo cultural de Wall Street, incorporada à sociedade sob o codinome “the Street”. As lendas dos financistas, cria- dores de império e ambiciosos operadores que emergiram como uma nova casta por sua importância na criação de riquezas, atingiu o ápice da política americana e internacional em alguns ciclos da história deste centro financeiro.

Wall Street, segundo Fraser, é um estado mental de sonhos e pesadelos da sociedade norteamericana, porque “todos nós carregamos uma Wall Street” em nossa mente. Tudo começou com Alexander Hamilton, secretário do Tesouro de George Washington que criou a dívida pública dos Estados Unidos com a emissão dos primeiros bônus do Tesouro, ainda hoje referência para as finanças internacionais e denominados Treasury Bonds (T-Bonds).

Hamilton teve a visão de que Wall Street poderia mobilizar poupanças, e estava certo. Depois da emissão dos bônus do Tesouro, os Estados Unidos, durante meio século, experimentaram extraordinário crescimento da agricultura, expansão territorial e ampliação dos transportes e comunicações.

Hamilton foi duramente criticado pelo conservadorismo de Thomas Jefferson, que enxergou o lado vilão da especulação no surgimento do mercado financeiro. Morreu anos mais tarde em duelo de honra com James Reynolds devido a um “affair” com a Sra. Reynolds, mas deixou a semente para o desenvolvimento da indústria financeira de Wall Street. As armas deste duelo são uma das relíquias do museu do Banco Chase, em Nova York.

Depois da guerra civil, surgiu em Wall Street o financiamento para a criação dos grandes impérios industriais, que cresceram a partir da construção de ferrovias e siderúrgicas e sob as asas dos “napoleões” das finanças corporativas: Vanderbilt, Gould, e J.P.Morgan. A casa de Morgan, famosa por seu endereço – 23, Wall Street – liderou durante meio século a construção do capitalismo financeiro.

J.P.Morgan e seu grupo, através do “money trust” operado pelas companhias fiduciárias e os bancos comerciais, detinham grande parcela da poupança americana. Criaram megaprojetos como a General Electric e fizeram o financiamento para a concessão do Canal do Panamá.

Morgan reuniu os melhores talentos financeiros do setor bancário e colonizou as grandes corporações chegando a controlar 72 diretorias nas 47 maiores indústrias dos Estados Unidos. Incluíam- se aí GE, United States Steel e International Harvester.

Em conjunto com o National City Bank e o First National Bank, o grupo de Morgan controlava ainda 118 diretorias em 34 bancos e companhias fiduciárias, com ativos de US$ 2,6 bilhões.

Poderosos, os integrantes do grupo Morgan mereceram o apelido de “Morganizers” e foram duramente criticados por Louis Brandeis no livro “Other´s people money and how the bankers use it”, que combateu a concentração da poupança ou “morganitization” da economia. O poder de Wall Stret ganhou escala internacional com o apoio dos banqueiros de investimento na assinatura do Tratado de Versailles após a Primeira Guerra Mundial. Bernard Baruch e Thomas Lamont, este último do Morgan, assessoraram o Presidente dos Estados Unidos Woodrow Wilson.

Morgan também participou da reconstrução das finanças da Europa através de sua subsidiária inglesa. Em plena era do jazz, as indústrias da nova fronteira – de rádio e difusão, aeronaves, automóveis – se financiavam e construíam a boa imagem de Wall Street e seu papel na modernização da sociedade, até chegar a Crise de 1929.

Roosevelt trouxe com o New Deal o Glass-Steagal Act, que separou as atividades de mercados de capitais das operações de banco comercial e estabeleceu a Securities and Exchange Commission (SEC). Criou os fundamentos da democratização do mercado, isolando o grupo do Morgan e criando o Comitê Pécora no Senado para investigação das operações especulativas desta turma. O New Deal acabou com a concentração da poupança amparado no desejo de J.M. Keynes de abolir a armadilha do excesso de liquidez.

Entre o fim do New Deal e os anos 60, Wall Street, ferida pela Crise de 29, amargou um relativo silêncio no poder e na política. Seus cérebros foram prestar serviços em instituições multilaterais como o World Bank, o Fundo Monetário Internacional e a OTAN, além de ajudar na implantação do Plano Marshal.

Nos últimos 25 anos, Wall Street fez surgir uma verdadeira “nação de acionistas”, resgatando os valores de Charles Merrill, fundador do Merrill Lynch, Pierce, Fenner and Smith, que defendeu como única via para legitimação de Wall Street a volta aos valores da “Main Street”. Merrill eliminou as comissões sobre vendas dos corretores, para não coçar a mão desses profissionais e pressionar a venda, elevando assim o status dos corretores para “neutral advisors”.

Every Man a Speculator A History of Wall Street in American Life
Steve Fraser 752 páginas HarperCollins

Palestrantes se espalharam pelos Estados Unidos e falaram nos Rotary Clubs, Câmaras de Comércio, associações de mulheres e outros pontos de encontro da classe média em todo o território americano, interiorizando a cultura do mercado acionário. A “previdenciarização” do mercado, hoje representada pelos investidores institucionais que detêm 60% das corporações e companhias abertas, com 34 milhões de participantes, 401 mil planos de previdência e ativos acima de US$ 1,7 trilhão, construíram esta tal nação de acionistas multiplicada mais recentemente por Charles Schwab, pioneiro do “ trading” via internet.

Referências fundamentalistas como Warren Buffet criaram novos valores para formação da cultura financeira de Wall Street e resistiram às ressacas provocadas por escândalos como Enron e WorldCom. Hoje, este lendário centro financeiro incorpora respostas inteligentes para as incertezas: até contratos de futuros sobre atos terroristas são estudados.

Por sua importante contribuição à difusão da cultura de mercado numa sociedade, Every Man a Speculator merece o incentivo dos agentes locais para uma edição traduzida.


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