Retrato da poluição

Investidores brasileiros aderem a projeto que requer transparência das companhias sobre emissões de carbono

Reportagem / Edição 21 / 1 de maio de 2005
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ed21_p050-052_pag_3_img_001Saúde financeira não é mais suficiente para que uma empresa seja bem vista no mercado de capitais. A atitude no trato com fornecedores, comunidade e meio ambiente é critério cada vez mais valioso na hora de atrair investimentos. Ultimamente, um dos fatores de análise de risco com maior importância para os investidores é a questão da mudança climática. Eles querem saber se ela tem preocupação com o tão falado aquecimento global e se toma alguma providência para evitá-lo.

Com o objetivo de tornar a informação mais clara para o mercado financeiro, o governo britânico, junto com um grupo de fundações liderado pela Rockefeller Foundation, criou, em 2003, o Carbon Disclosure Project (Projeto de Informações sobre a Emissão dos Gases do Efeito Estufa ou Relatório de Informações sobre o Carbono – CDP, na sigla em inglês). Trata-se, basicamente, de um questionário com nove perguntas sobre políticas de mudanças climáticas endereçadas às empresas listadas no índice FT 500 (que engloba as 500 maiores empresas listadas na Bolsa de Valores de Londres). O objetivo é aumentar a transparência da avaliação de risco de investimento a partir das informações fornecidas pelas empresas sobre as políticas adotadas para redução dos gases causadores do efeito estufa.

A terceira edição do CDP será lançada no próximo mês de setembro em diversas cidades, como Londres, Nova York, Tokyo, Paris e São Paulo (primeira vez na América Latina). No Brasil, o projeto tem sido difundido para companhias e investidores pela consultoria Fábrica Éthica em parceria com a Innovest. “Queremos ampliar ao máximo a lista dos investidores brasileiros signatários do CDP”, diz Giovanni Barontini, sócio da Fábrica Éthica. Aderiram ao projeto este ano o Banco do Brasil, as seguradoras Brasil Prev e InterBrazil, a Associação Brasileira de Previdência Privada (Abrapp) e o fundo de pensão dos funcionários do Banco do Brasil, Previ.

O CDP ganhou também apoio de entidades representantes de alguns setores brasileiros, como a Associação dos Analistas e Profissionais de Investimento do Mercado de Capitais (Apimec) e o Instituto Brasileiro de Relações com Investidores (IBRI). “Queremos criar uma consciência entre os investidores da importância de levar em consideração os critérios de responsabilidade social na hora de investir”, diz Geraldo Soares, presidente do IBRI. Para isso, ele está divulgando o CDP entre todos os associados da entidade. “Queremos que o relatório do projeto britânico seja uma referência para o mercado de capitais brasileiro”, diz Soares.

A Fábrica Ethica também pretende divulgar o CDP entre os representantes de diversos setores da economia por meio de uma série de seminários e palestras, inicialmente no eixo Rio-São Paulo. A intenção, diz Barontini, é fazer com que todos os investidores institucionais brasileiros se tornem signatários do CDP. Para tanto, ele já está conversando com representantes da Associação Nacional dos Bancos de Investimento (Anbid) e da Federação Nacional das Empresas de Seguros Privados (Fenaseg). “Ao ser signatário do CDP, o investidor está sinalizando para o mercado que prefere investir em empresas que se preocupam com a redução dos gases do efeito estufa”, diz .

O Banco do Brasil, por exemplo, não concede crédito para empresas com faturamento acima de R$ 100 milhões ou para projetos acima de R$ 10 milhões que não tenham responsabilidade socioambiental. A instituição foi uma das primeiras empresas brasileiras a se associar ao CDP. “Nossa intenção é conscientizar o mercado e as corporações que tal responsabilidade é fundamental para a sustentabilidade do negócio”, diz Wagner Siqueira, analista master da diretoria de relações com funcionário e responsabilidade socioambiental do banco. “No mundo todo, as portas estão sendo fechadas para as empresas que não demonstram ter boa conduta.”

Prova disso é o crescente número de signatários a cada edição do CDP. Quando foi inaugurado, há três anos, o CDP atraiu 35 gestores de recursos, com ativos gerenciados de US$ 4 trilhões. No ano seguinte, o número de investidores simpatizantes do projeto cresceu 171%. Saltou para 95 signatários, com volume administrado de US$ 10 trilhões. Hoje, o CDP tem a adesão de 147 investidores globais, que administram US$ 20 trilhões. Não por acaso é cada vez maior o número de empresas do FT 500 que respondem o questionário de mudanças climáticas. Afinal, elas não estão dispostas a perder o apreço de investidores de peso. Em 2003, 235 empresas, 47% das companhias do FT 500, participaram do projeto. No ano passado, 59% delas, ou 295, deram atenção ao questionário do CDP – um crescimento de 20%. Estimase que este ano um número maior ainda de empresas revele suas iniciativas em relação à mudança climática.

Banco Itaú, Petrobras e Companhia Vale do Rio Doce são as únicas empresas brasileiras no índice FT 500. Petrobras e Vale responderam o questionário do CDP nas duas primeiras edições e já se preparam para repetir a dose este ano. “Como temos uma grande visibilidade no exterior e pretendemos fazer investimentos pesados nos próximos anos, precisamos passar uma boa imagem com relação à responsabilidade social e ambiental aos agentes financeiros internacionais”, diz Luiz Stano, coordenador para desenvolvimento sustentável da Petrobras. A estatal, segundo ele, pretende realizar investimentos da ordem de R$ 50 bilhões até 2010 e, para isso, necessitará de recursos de grandes investidores. “Por atuarmos num ramo delicado, precisamos ter características cada vez mais competitivas e, neste caso, não poderíamos deixar de participar de um projeto como esse”, afirma Stano.

Entre as 22 companhias de petróleo que responderam o questionário em 2004, a estatal brasileira é a segunda melhor no quesito intensidade de gases do efeito estufa por barril de óleo. A preocupação da companhia com relação à mudança do clima, no entanto, vai muito além da participação no projeto britânico. De acordo com Stano, a empresa acaba de concluir seu inventário sobre emissões de gases do efeito estufa (CO2, óxido nitroso, metano etc), que será divulgado em meados deste ano. O inventário custou à estatal R$ 6 bilhões e, em breve, deverá fazer parte de seu relatório anual.

A Vale do Rio Doce não fica atrás. A companhia também está concluindo um inventário de emissões que será conhecido pelo mercado no seu relatório anual de 2006. “Por ser uma grande empresa, a Vale tem que ter uma boa divulgação de suas práticas de sustentabilidade e, neste caso, responder ao questionário do CDP é fundamental”, diz Maurício Reis, diretor de meio ambiente da companhia. Segundo ele, projetos do gênero não só aproximam a empresa de potenciais investidores como facilitam a avaliação interna sobre as emissões, ajudando a melhorar a gestão ambiental. “A iniciativa do governo britânico é louvável. A cada dia, existe um consenso maior de que questões como a mudança climática são fundamentais para a sobrevivência dos negócios e dos seres humanos”, diz Reis.

Segundo Barontini, da Fábrica Éthica, as companhias que mais se preocupam em participar do relatório elaborado pelo CDP são aquelas vistas como o bicho-papão da poluição atmosférica, como as do setor siderúrgico e petroquímico, inclusive as americanas. Por mais que George Bush insista em negar que a atmosfera terrestre está se aquecendo, boa parte dos cidadãos do planeta sente na pele os efeitos drásticos das mudanças climáticas provocadas por esse aquecimento.

CATÁSTROFES NATURAIS – As perdas econômicas associadas a desastres naturais – como ciclones, furacões e maremotos – tiveram uma escalada vertiginosa nos últimos anos, segundo dados da Munich Re, uma das maiores empresas de resseguro do mundo, que faz um balanço anual dos prejuízos associados a tais fenômenos. Em 2004, as perdas ficaram na casa dos US$ 140 bilhões e, em 2003, haviam somado US$ 65 bilhões. O cômputo dos anos 90 totaliza US$ 535 bilhões, quase três vezes mais que na década anterior.

Por trás dos dados da Munich Re, escondem-se dramas climáticos que têm ganhado as manchetes dos jornais. O mais notório talvez tenha sido a onda de calor que matou mais de 20 mil pessoas no último verão europeu, causando perdas superiores a US$ 10 bilhões. Há também o caso da chuva de granizo que entrou para a história do Texas, há dois anos, por seu poder devastador. E o que dizer da inundação de Praga, em 2002, quando o Rio Vltava cobriu boa parte do centro histórico, na pior enchente da capital tcheca. Pelo menos 280 mil livros das bibliotecas locais foram destruídos e os prejuízos superaram US$ 2,8 bilhões. Sem falar no maremoto que causou o tsunami, na Ásia, em dezembro de 2004.

Até o Brasil, que sempre ficou de fora das estatísticas catastróficas, tem sofrido com os desastres naturais nos últimos tempos. Em março do ano passado, o ciclone Catarina deixou no norte do Rio Grande do Sul e no sul de Santa Catarina um saldo de 37 mil casas, 2 mil estabelecimentos comerciais, e 1,6 mil hectares de lavouras danificados.

Todas essas ocorrências só confirmam o que alguns cientistas vêm dizendo há tempos: os últimos anos foram os mais quentes de que se tem notícia e a temperatura pode subir até 5,8 graus Celsius ao longo deste século, causando terríveis inundações e maremotos pela elevação do nível dos oceanos.

As evidências têm alertado cada vez mais a população para a importância da redução dos gases do efeito estufa. Por isso, é cada vez maior o número de investidores preocupados com o tema. Além do CDP, existem várias iniciativas que estimulam a boa conduta das empresas com relação ao meio ambiente. Uma das mais conhecidas internacionalmente é o Dow Jones Sustainability Index (o índice de sustentabilidade social da Dow Jones).

A Bolsa de Valores de São Paulo, Bovespa, deve lançar em breve seu índice de sustentabilidade, que elegerá empresas socialmente responsáveis por meio de vários critérios socioambientais. O CDP também tem seu índice composto pelas empresas que mais se sobressaem no relatório de cada ano. Pelo visto, uma política clara voltada para o meio ambiente e a mudança climática está mesmo no check list dos grandes investidores.


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