Relatos da crise pontocom

Em Blood on the Street, Charles Gasparino, ex-repórter do Wall Street Journal, registra o lado “sangrento” da bolha da internet

Prateleira / Edição 21 / 1 de maio de 2005
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ed21_p064-064_pag_1_img_001A bolha da internet trouxe para o mercado acionário da Nasdaq uma queda de 60% no período de março de 2000 a março de 2001. A comédia de erros tinha no palco instituições de primeira linha como Merrill Lynch, Morgan Stanley e Citigroup e foi tema de Blood on the Street, a obra do repórter Charles Gasparino, que cobriu a crise de perto pelo Wall Street Journal, publicada no início deste ano pela Free Press.

Entre os atores principais desta peça dramática para as bolsas de valores e a poupança de milhões de investidores Gasparino destaca Henry Blodget, da Merrill Lynch, apelidado de “Rei Henry” por suas projeções para o IPO da Amazon; Mary Meeker, do Morgan Stanley, a “Rainha da Internet” pelo seu apoio aos IPOs de empresas pontocom desde o início; e Jack Grubman, do Citigroup, o “Grande Midas”, cujas conferências e palestras eram comparadas a eventos do “pop rock”, com presenças disputadas e transmissão ao vivo por redes de TV.

O envolvimento dos analistas de mercado como agentes de venda no “sell side”, a passividade das autoridades e o comportamento da mídia especializada, que transformou analistas em ícones do mercado, contribuíram para criar a euforia transformada em bolha. Os analistas da nova economia esqueceram os fundamentos de valor de uma empresa listada, como preço/ lucro, e passaram a olhar a teoria do “momentum”: em outras palavras, para onde o dinheiro estaria fluindo naquela hora. Quando as grandes instituições de Wall Street passaram a vincular a remuneração dos analistas às operações de banco de investimento, instalou-se o conflito de interesses que seria outro poderoso combustível para a alta de preços desenfreada.

Para Gasparino, a Securities and Exchange Commission teve um papel passivo na gestão de Arthur Levitt e não impôs qualquer ação corretiva. Ao contrário, abriu espaço para o secretário de Justiça de Nova York, Elliot Spitzer, atuar no papel de “policial do mercado”, investigando os atores e tornando públicos seus relatórios de investigação para alimentar objetivos políticos. Com a saída de Levitt, avalia o autor, e a nomeação de Harvey Pitt, a SEC retomou o papel de agente regulador mobilizando ações corretivas como a lei Sarbanes-Oxley.

Gasparino lembra, ainda, que a crise destronou ícones como Richard Grasso, principal executivo da NYSE, por seu envolvimento com Sandy Weil, principal executivo do Citigroup, que patrocinou sua festa de aniversário no Carnegie Hall em 2003. Grasso teria retribuído Weil com uma nomeação para o conselho de administração da NYSE.

Blood on the Street The Sensational Inside Story of How Wall Street Analysts Duped a Generation of Investors
Charles Gasparino 368 páginas Free Press (10/01/05)

Em comparação à crise de 1929, a bolha da internet foi socialmente mais perversa. No “crash” do final dos anos 20 os estragos foram concentrados nos especuladores e investidores mais conscientes dos riscos do mercado. Desta vez, não escaparam os aposentados e fundos de pensão embalados pelo entusiasmo da classe média americana em comprometer suas poupanças ao ouvir as “boas dicas” de venda dos analistas para a nova economia.

O dia seguinte ao caos é bem desenhado por Gasparino. O Citigroup fez um acordo pagando US$ 400 milhões e a Merrill Lynch contribuiu com US$ 100 milhões para a SEC. Sandy Weil deixou sua cadeira de CEO no Citigroup. Grubman pagou uma multa de US$ 15 milhões e hoje é consultor de uma pequena empresa de telecomunicações.

Blodget pagou multa de US$ 5 milhões e voltou a sua origem de jornalista na revista On Line Slate. Mary Meeker perdeu o reinado da Internet e foi a única que escapou de uma condenação após as investigações.

Levitt foi para o Carlyle, um dos maiores fundos de “private equity” do mundo. E Grasso perdeu um dos maiores salários do mercado: US$ 25 milhões/ano, segundo o autor. Gasparino encerra o livro contestando Grasso a respeito da sua defesa pela integridade: “Qual foi a última vez que você ouviu um executivo de Wall Street colocando a integridade acima do dinheiro?”


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