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Capitalistas de risco adotam critérios socioambientais na seleção de ativos, mas princípios ainda estão fora do dia-a-dia da gestão das empresas investidas

Edição 21 / Reportagem / 1 de maio de 2005
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O empresário comanda uma companhia em franca expansão e precisa de recursos para fazê-la deslanchar. Põe-se a estudar as melhores formas de captação para viabilizar seus planos e vislumbra a venda de pequena parcela da empresa para um fundo de capital de risco. Seu receio, contudo, é abrir as portas para esse investidor e ser impedido de manter suas crenças sobre políticas sociais e ambientais. Ele avalia que os investidores vão querer ver lucro o mais rápido possível, para só depois pensar em investir no bem-estar dos funcionários e em iniciativas voluntárias de mitigação dos impactos ao meio ambiente. Para o empresário, investir num clima de trabalho agradável e saudável para os colaboradores e em práticas que incentivem o desenvolvimento da comunidade e a preservação do meio ambiente é uma idéia que deve, obrigatoriamente, acompanhar a preocupação com o lucro. Estaria ele mal informado sobre o universo de venture capital e private equity? Ou esses investidores realmente ainda não entraram na onda da responsabilidade social corporativa?

O relato do empresário, verídico, demonstra bem a imagem que muitos empreendedores fazem desse tipo de investidor. Por um lado, ele provê capital à empresa, melhora sua governança e a municia com novas armas para competir. Por outro, seu apetite por lucratividade amedronta. Espera-se que ele promova o crescimento da empresa dentro dos limites dados pela legislação, sem iniciativas que representem passos além.

A controvérsia que envolve o papel social das empresas também se aplica ao private equity e ao venture capital. Há quem acredite que esses investidores já cumprem sua função social ao estimular o empreendedorismo (provendo capital para as empresas), ao contribuir para a geração de empregos e ao investir somente em empresas que atuam com funcionários registrados, que não descumprem a legislação ambiental e não sonegam impostos – situações que claramente poderiam gerar passivos e, portanto, abalar o retorno do investimento. Mas, afinal, é papel do capitalista de risco promover a responsabilidade social corporativa? Sua missão não seria dar condições financeiras e elementos de gestão que permitam o crescimento acelerado das empresas e a venda da participação com lucro mais adiante? Enquanto o empresário, em princípio, visa perpetuar o seu negócio, o capitalista de risco está comprometido com a companhia por determinado período.

CRITÉRIO DE SELEÇÃO – Por enquanto, a tendência que melhor se delineia é a de os fundos levarem em conta esses critérios na hora de escolher os investimentos. Se a empresa tiver algum tipo de passivo ambiental ou trabalhista, o investimento é descartado ou o seu valor é avaliado para baixo. Neste momento, contudo, a preocupação é muito mais a de evitar surpresas que abalem a rentabilidade do negócio do que trabalhar para aprimorar a atuação da empresa junto à comunidade e ao meio ambiente. Uma exceção fica com aqueles que investem em negócios voltados para a biodiversidade e energia alternativa, como os fundos de gestoras como a Econergy e da Ecoinvest.

A adoção de critérios mínimos de responsabilidade social e ambiental para escolha dos investimentos vem sendo incentivada por fundos de pensão e por fontes de recursos ditas “oficiais”, como Finep, Sebrae, BID e IFC. Eles aportam recursos em private equity e venture capital desde que certos aspectos sejam levados em consideração. A Petros, que recentemente investiu R$ 70 milhões em fundos de venture capital, fez a exigência de que todos os fundos aprovados estivessem de acordo com os seus princípios sociais e ambientais. Segundo o diretor financeiro e de investimentos da entidade, Ricardo Malavazi, no início alguns gestores dos fundos de participações se mostraram resistentes à idéia porque a análise das empresas candidatas a entrar no portfólio passaria a ser mais complexa. No entanto, diz ele, a entidade acredita que a existência de critérios sociais e ambientais mitiga riscos e agrega valor no longo prazo. A fundação tem a sua própria cartilha de investimentos, mais detalhada que o manual da Associação Brasileira de Previdência Privada (Abrapp) de investimentos socialmente responsáveis. Os R$ 70 milhões da Petros foram direcionados para fundos do Pactual, Stratus, Rio Bravo, FIR Capital e CRP. O fundo Investech 2 da Rio Bravo, por exemplo, que recebeu aporte de recursos da Petros, não permite o investimento em empresas dos setores de fumo, armas de fogo e bebidas alcoólicas.

Para os gestores, uma das novidades é se acostumar a fazer relatórios menos restritos aos aspectos financeiros. É o caso, por exemplo, da FIR, que anualmente inclui em seu balanço do ano o número de empregos gerados pelas empresas em que investiu, afirma André Emrich. Além disso, diz Sidney Chameh, da DGF, os fundos prestam contas dos tributos pagos, do valor adicionado e do número de empreendedores que apóiam. Segundo Chameh, para captar recursos de investidores institucionais, atualmente é indispensável levar em conta critérios sociais e ambientais.

O que se percebe, porém, é que essa preocupação se dá, por exigência ou não dos investidores, no momento da seleção do ativo. Não é propriamente uma preocupação que perdura ao longo do investimento e que influencia a gestão da companhia. Para Roberto González, diretor de estratégia social da CorpGroup, se os conceitos de responsabilidade social corporativa fossem levados para os investidores de private equity e venture capital, eles só teriam a ganhar, pois os prêmios ao sair do investimento tenderiam a ser superiores. “O prazo para o investimento retornar aumenta quando princípios de responsabilidade na gestão das companhias são incorporados. No entanto, isso agrega valor e o retorno pode ser superior”, diz. Quando González fala de princípios de responsabilidade, ele se refere à existência de um código de ética que balize a operação, da inclusão de temas relativos à responsabilidade social na missão da empresa e, também, a uma gestão que leve em consideração esses aspectos.

Mas o fato é que não há massa crítica para uma análise objetiva da efetividade desta estratégia. A expectativa de González é que aconteça no mundo do private equity um fenômeno semelhante aos dos índices de sustentabilidade das bolsas, que apontam uma rentabilidade superior no longo prazo para as companhias que se preocupam com os stakeholders.

Fracasso da primeira gestora de private equity voltada a negócios sustentáveis é um dos motivos apontados para o atraso dessa estratégia
Quando critérios de sustentabilidade são incluídos na avaliação, cria-se uma dificuldade para a seleção dos projetos

RANÇO CULTURAL – Mas se a coisa aparenta ser tão boa, por que esses investidores treinados para farejar o lucro ainda não deram muita atenção ao assunto? Profissionais que trabalham com responsabilidade corporativa acreditam que é uma questão cultural. Como grande parte dos gestores desses fundos atuou em bancos de investimento, eles tendem a avaliar que esses critérios não levam a nada e significam uma perda de tempo que não faz a caixa registradora engordar.

Outro fator que acabou atrasando o passo das questões sociais e ambientais no private equity e no venture capital foi o fechamento da primeira gestora voltada unicamente para o investimento em negócios sustentáveis, a A2R, em menos de quatro anos de atuação. “Para o desenvolvimento desse nicho de mercado foi um choque a A2R não ter dado certo”, diz Mário Monzoni, do centro de estudos de sustentabilidade da Fundação Getulio Vargas de São Paulo.

Alguns investimentos feitos pela gestora foram a extração da fibra do babaçu, no Tocantins, e a produção de palmito na Ilha de Marajó. Embora os critérios sociais e ambientais possam ser usados para analisar e posteriormente desenvolver empresas de quaisquer setores, é naqueles ligados à biodiversidade e à energia que eles ganham maior peso. Principalmente quando se trata de projetos ligados à biodiversidade, saber relacionar-se bem com a comunidade, estabelecer preços e negociar prazos adequadamente é uma necessidade para garantir o futuro das operações.

De acordo com um profissional que fez parte do quadro da A2R, não foi por esquecer dos lucros que a gestora encerrou suas atividades, mas por disputas internas. Além disso, a empresa pode ter pago o preço do pioneirismo. “Quando se incluem critérios de sustentabilidade na avaliação de projetos, cria-se uma barreira maior para a sua aceitação”, diz ele. Para o profissional, a indústria de private equity e venture capital brasileira ainda precisa se consolidar para que o mercado chegue a esse estágio de amadurecimento.

Outro ponto sensível, diz, é que, para os empreendimentos serem bem sucedidos, o mercado consumidor precisa reconhecer que determinados produtos têm mais valor porque as empresas que os produzem assumem uma postura dedicada ao bemestar da comunidade, dos empregados e fornecedores e positiva para o meio ambiente. Mas isso depende da percepção do consumidor acerca dessas questões e, ainda, do seu poder de compra, extremamente volátil e comprometido no Brasil. Talvez isso seja uma mostra de que a combinação entre lucro e responsabilidade social ainda tem poucos atributos para inspirar os capitalistas de risco.

Sustentabilidade começa no plano de negócios

Ao ouvirem os termos ‘capital de risco’ e ‘sustentabilidade’, a maioria dos interlocutores imediatamente faz a associação com projetos que utilizam a energia considerada ‘correta’, como a eólica, com o reaproveitamento do material já existente ou, ainda, com sistemas que utilizam pouca água. Como a água e muitos insumos não são infinitos e cada vez mais preciosos, a aplicação de medidas de ecoeficiência faz com que se tenha uma visão dessas empresas como ‘empreendimentos sustentáveis’.

Existe no Brasil, atualmente, uma gama de empreendimentos que se encontram na New Ventures É lógico que todos são relevantes, principalmente se desejamos que os nossos descendentes tenham um planeta para viver. Mas será que um investimento de risco socialmente responsável significa apostar, no bom sentido da palavra, somente em empresas desta natureza?

As chances de o investimento ser eficiente começam no seu nascimento. O empreendimento deve ser criado com conceitos socialmente responsáveis. Isto é, desde o plano de negócio devem ser consideradas as questões sustentáveis socioeconômicas, tanto para o private equity – investimento em empresas emergentes – quanto para o venture capital – investimento inicial em companhias na fase embrionária.

A antiga ABCR – Associção Brasileira de Capital de Risco –, atual AbvCap (Associação Brasileira de Private Equity e Venture Capital) deveria estudar com profundidade o impacto da questão da responsabilidade social das empresas investidas ou, ainda, a estruturação de mecanismos que possibilitem a implantação de conceitos socialmente responsáveis nas empresas, principalmente no caso do venture capital. O objetivo não é ser “bonzinho” com a sociedade, isto pode até ser conseqüência. A intenção, na verdade, é pura e genuinamente capitalista. Ou seja, oferecer o maior retorno para os investidores no momento da retirada do empreendimento.

LEGISLAÇÕES – Estas questões socialmente responsáveis, que levam a um empreeendimento sustentável em todos os sentidos, deveriam fazer parte das legislações para o empreendedor e o capital de risco como a Instrução CVM 209, que poderia apresentar conceitos de sustentabilidade para constituição e funcionamento dos fundos mútuos de investimento em empresas emergentes. Ou a lei 9.841/ 99, que dispõe de tratamento jurídico diferenciado e favorecido para microempresas e empresas de pequeno porte e poderia indicar contrapartidas de práticas sustentáveis.

Mas como deve, afinal, proceder uma empresa socialmente responsável para que seu investidor de capital de risco tenha o retorno esperado? Todos os princípios podem ser colocados em prática. Qualquer empresa pode, por exemplo, respeitar os seres humanos que nela trabalham, independentemente do seu tamanho. E já que a empresa respeita os seus profissionais, a prática do respeito à comunidade do entorno ou da região é conseqüência. O mesmo se aplica ao meio ambiente. No momento de uma OPA (Oferta Pública de Ações) ou da venda para um investidor estratégico, a empresa estará madura tanto economicamente como socialmente, questão cada vez mais valorizada na sociedade e, por conseqüência, pelo mercado.

E por que esses conceitos não são fortes no Brasil? Talvez por existirem confusões conceituais e se pensar que o investimento em negócios sustentáveis seja apenas de empresas com projetos e resultados ecoeficientes, ao invés de que o negócio sustentavel é um conceito que pode ser utilizado para todo e qualquer empreendimento.

É certo que temos que tirar muitas lições desta experiência, mas também não podemos jogar a cesta de maçãs fora somente porque uma delas não está boa. O certo é verificar por que esta fruta apodreceu e se desfazer dela e não da cesta.

*Roberto Sousa Gonzalez (roberto@corpgroup.com.br) é diretor de estratégia social da CorpGroup – Comunicação Corporativa e assessor para assuntos de responsabilidade social da Associação dos Analistas e Profissionais de Investimento do Mercado de Capitais.


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