Mercado em ebulição

Captações via debêntures ganham adesão de usuários menos tradicionais e emissões em 2005 já são recorde nos últimos cinco anos

Edição 20 / Reportagem / 1 de abril de 2005
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ed20_p008-010_pag_2_img_001O ano de 2005 começou forte para as captações com debêntures. Entre emissões registradas e em análise pela Comissão de Valores Mobiliários até o dia 24 de março, somava-se R$ 16,625 bilhões, o maior volume dos últimos dez anos. O movimento dá seqüência à trajetória crescente iniciada em 2004, quando as emissões de debêntures somaram R$ 9,614 bilhões, 82% superiores a 2003, ano de forte derrocada para esses títulos (ver gráfico na página ao lado).

A volta das emissões de debêntures acompanham a recuperação do mercado de capitais doméstico como um todo – caracterizada, principalmente, pela retomada das emissões de ações. Na opinião de Paulo Eduardo Souza Sampaio, superintendente geral da Andima, a estabilidade macroeconômica foi fundamental para esse resultado. “As companhias foram estruturando suas operações entre abril e setembro do ano passado, enquanto as taxas de juros estavam em queda ou estáveis. Os registros para lançamento foram aprovados pela CVM (Comissão de Valores Mobiliários) quase que totalmente no período de estabilidade”, lembra Sampaio. A melhoria generalizada na percepção sobre os rumos da economia local, aliada à maior confiança do investidor, alimentaram o interesse das companhias pelo mercado local. “As boas notícias macroeconômicas ampliaram a qualidade do crédito. Foi o momento ideal para quem precisou se capitalizar”, afirma o responsável pela área de mercado de capitais local do Citibank, Hamilton Agle.

O fortalecimento das emissões de debêntures reativou também a presença de setores menos habituais na utilização desses títulos. Além das figuras carimbadas, como as empresas de energia elétrica, petróleo e gás, saneamento, telecomunicações e leasing, nota-se nas emissões de 2004 e 2005 a volta de setores menos familiarizados com as debêntures como o petroquímico, de construção, celulose, varejo e alimentos, conforme mostra um levantamento realizado pela Andima (Associação Nacional das Instituições do Mercado Aberto), a pedido da Capital Aberto.

O setor petroquímico não aparecia pelo mercado de debêntures desde 2001, quando realizada uma emissão de R$ 625 milhões da Copene. No ano anterior, 2000, uma representante da terceira geração de petroquímicos, a Petroflex, havia realizado uma emissão de R$ 60 milhões. Em 2004, o setor voltou a captar. Somente a Braskem obteve R$ 1,5 bilhão, em duas operações. A Petroquímica União retornou no ano passado, com uma captação de R$ 150 milhões. Este ano, Ultrapar (R$ 300 milhões) e Unipar (R$ 150 milhões) marcam presença nas ofertas em análise na CVM.

As construtoras também voltaram a mostrar interesse pelo mercado de debêntures. Até o fechamento desta edição, estava em análise na CVM uma emissão de R$ 60 milhões da Gafisa que, desde 2001, quando lançara R$ 50 milhões, andava sumida do mercado. A Company S.A também representou o segmento em uma operação de R$ 30 milhões no ano passado, a primeira depois da emissão da Gafisa em 2001.

Até empresas mais voltadas ao consumo voltaram a se interessar por emissões de debêntures. Ano passado a varejista Lojas Americanas emitiu R$ 200 milhões e a fabricante de laticínios Vigor, R$ 50 milhões. O segmento de alimentos se vê pouco representado no mercado de debêntures. Antes de Vigor, haviam emitido a Chapecó (R$ 68,5 milhões), em 2001, e a Santista Alimentos (R$ 160 milhões), em 2000. O setor de varejo também não costuma recorrer às debêntures. A única operação do segmento nos últimos cinco anos ocorreu em 2002, quando Pão de Açúcar fez uma emissão de R$ 500 milhões.

Igualmente pouco assíduo nesta seara, o setor de papel e celulose lançou mão desses títulos. Depois de uma emissão da Klabin, de R$ 1,036 bilhão, em 2002, foi a vez da Suzano Papel e Celulose buscar R$ 500 milhões no mercado de capitais via debêntures no ano passado.

RECUPERAÇÃO DO CRÉDITO – Neste começo de ano o que se percebe no mercado de debêntures é uma forte predominância das empresas de arrendamento mercantil, o chamado leasing (ver também matéria na próxima página). Até meados de março elas respondiam por mais de 77% das emissões registradas, contra 1% em 2004.

Para Edvaldo Morata, diretor executivo do Santander Asset Management, a movimentação do setor de leasing vai ao encontro do que foi visto em 2004. “É um ciclo virtuoso desencadeado pela melhora e o aquecimento da economia. Há sempre uma defasagem na relação entre consumo e crédito. No ano passado, o que se viu foi a demanda pelo consumo, reflexo dos melhores índices macroeconômicos. Agora, as empresas de leasing se preparam para atender à necessidade de crédito”, explica o executivo.


PRÉ-FIXAÇÃO – Para 2005, a boa perspectiva das captações com debêntures já está dada, apesar das consecutivas altas das taxas de juros nos últimos meses. E há quem aposte na ascensão de um novo modelo de debênture assim que as taxas de juros se estabilizarem e começarem a sinalizar uma curva descendente: os títulos com remuneração pré-fixada – ou seja, não indexada a qualquer índice. “Esse tipo de papel já é realidade nos países desenvolvidos. É resultado da percepção do mercado de que há segurança sobre os rumos da economia e, especialmente, sobre os passos a serem dados pelo setor privado”, explica Átila Noaldo, superintendente de mercado de capitais do Banif Investment.

O uso de títulos de crédito pré-fixados, acredita, ampliaria a participação de novos investidores, principalmente as pessoas físicas. “São muito mais fáceis de serem compreendidos pelo grande público porque permanecem com a mesma taxa em períodos de alta ou queda inflacionária. Além disso, requerem muito menos burocracia para aprovação na CVM”, diz o executivo. Noaldo acredita que esse tipo de papel tem chances de ser utilizado em breve. “Novas estocadas na taxa de juros são esperadas, o que reduziria a volatilidade do mercado e da própria economia, fator essencial para que as debêntures pré-fixadas sejam adotadas”, afirma.

Sampaio, da Andima, duvida dessa possibilidade para o curto ou médio prazos. Para ele, a pré-fixação dos títulos de crédito seria o mundo ideal, só possível em uma economia estável. “É muito prematuro dizer que nossos investidores já estão preparados para ter essa confiança na economia e no setor corporativo locais”, avalia. Rodrigo Fittipaldi, gerente de mercado de capitais do ABC Brasil, concorda. Ele lembra que a maior parte da dívida pública do País é indexada, justamente para reduzir o risco do papel.

Expansão do crédito incentiva emissões de debêntures por empresas de leasing

As empresas de leasing representam a maior parte do volume de debêntures emitidas este ano. Dos R$ 7,5 bilhões de ofertas registradas na Comissão de Valores Mobiliários (CVM) até 24 de março, R$ 6 bilhões (80%) eram de companhias do segmento (R$ 4 bilhões da Itaú Leasing e R$ 2 bilhões do Unibanco Leasing). Trata-se da maior presença de empresas desta natureza nas emissões de debêntures dos últimos cinco anos. Em 2004, havia sido registrada apenas uma operação, do BIC Arrendamento Mercantil, no montante de R$ 100 milhões.

A primeira explicação para a maior presença das empresas de leasing entre as novas ofertas de debêntures é a expansão do crédito decorrente da recuperação econômica. Ao emitir debêntures, essas empresas escolhem aquelas do tipo subordinada – papéis que, em caso de liquidação, são os últimos a receber os ativos remanescentes antes dos acionistas –, o que lhes permite contabilizar os títulos como capital no balanço consolidado das instituições financeiras de que fazem parte. Ao engordar o patrimônio dos bancos, as debêntures expandem a sua capacidade de concessão de crédito.

A Lei 11.033/2004, que reduz a alíquota de Imposto de Renda (IR) para aplicações de longo prazo, também motivou as captações via debêntures, explica Eduardo Freitas, diretor de distribuição de renda fixa do Unibanco. Para garantir tarifas mais baixas, os gestores têm buscado títulos que alonguem suas carteiras e as debêntures são fortes candidatas.

Ao emitir debêntures, as empresas de leasing também proporcionam às instituições financeiras às quais pertencem – e que não estão habilitadas a emitir tais títulos (apenas empresas não financeiras podem emitir debêntures) – taxas de captação mais atrativas. O custo da tomada de recursos por meio de debêntures é menor que uma captação através de instrumentos de tesouraria, como os CDBs, lembra Freitas.


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