Vida nova pós-FIDCs

Fundos de recebíveis mudam o padrão de transparência das empresas cedentes dos créditos, estimulam a revisão de processos e estreitam o relacionamento com o mercado de capitais

Edição 18 / Reportagem / 1 de fevereiro de 2005
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ed18_p022-025_pag_3_img_001O que fazer para uma empresa endividada, há anos consecutivos no vermelho, conseguir encher os olhos de investidores? A pergunta foi lançada aos executivos da Gradiente no final do ano 2000, momento em que a companhia dava início a um grande processo de reestruturação. A resposta, conta Gustavo Junqueira, que chegou à companhia em 2001 para assumir a gerência financeira, foi o lançamento de um Fundo de Investimento em Direitos Creditórios (FIDC). “Foi o primeiro passo para melhorarmos a imagem da companhia perante o mercado”, afirma.

Segundo Junqueira, o fundo contribuiu para que a companhia fechasse 2004 com um passivo inferior a US$ 50 milhões. Em 2000, esse número alcançava US$ 230 milhões. Ajuda ainda maior foi dada pela carteira de recebíveis da empresa, carimbada com um festejado “AA” da Standard & Poor’s. “Com essa nota, podemos dizer que, hoje, a Gradiente vende R$ 1,2 bilhão por ano para clientes AA”, diz Junqueira. “O investidor vai enxergar a empresa como um ativo importante para ter em seu portfólio”, acredita. O final da história também já está previsto nos planos da Gradiente, que hoje possui ações ordinárias e preferenciais listadas na bolsa paulista. Será em 2006 e culminará com a adesão a um dos níveis diferenciados de governança da Bovespa.

A fabricante de eletroeletrônicos é reveladora de como os FIDCs estão mudando a vida das companhias que aderem a esta nova forma de captação. Inclusive de empresas de capital fechado, que encontram no fundo um veículo para captar recursos junto a investidores e, ao mesmo tempo, se deparam com a exigência de uma postura nova frente ao mercado, pautada por mais transparência e disposição da administração para prestar contas sobre suas decisões.

Roadshows, atendimento a analistas, detalhamento de estratégias e outras rotinas tão comuns para as companhias abertas mais atuantes agora invadem o dia-a-dia de empresas que até então se viam dispensadas dessas obrigações. “É o primeiro degrau para acessar o mercado de capitais”, avalia Antonio Hermann, sócio da consultoria Integral Trust, responsável pela estruturação de 17 FIDCs. “Os preparativos para a operação fazem com que a companhia absorva processos mais sofisticados”.

A capacidade de abrir informações é um dos pontos destacados por Jayme Bartling, diretor da área de estruturação da Fitch Ratings no Brasil. “A maioria das empresas que vêm cedendo seus recebíveis não tinha relação com o mercado de capitais”, explica. “Por isso, é importante que essa aproximação se dê por meio de uma política de transparência.”

O caso da Gradiente, ainda que relacionado a uma companhia já aberta, é emblemático. É claro que, até ser tomada a decisão de lançamento de um FIDC, outras ações foram implementadas para pôr a casa em ordem. A arrumação começou pela reestruturação operacional, passando pela organizacional e a financeira. Nesta última, decidiu-se pelo alongamento de prazos e a adoção de novos mecanismos de captação – momento em que o FIDC caiu como uma luva. “Passamos a captar com custos menores”, afirma Junqueira, ao explicar que a remuneração de referência do FIDC está vinculada à variação do Certificado de Depósito Interbancário (CDI), acrescida de 2%. “Menor do que o empréstimo bancário”, afirma.

REVISÃO DE PROCESSOS – Os preparativos para lançamento do FIDC da Gradiente passaram também pela implementação de novos – e melhores – processos de gestão. A começar pela carteira de clientes. A partir da estruturação do fundo, nenhum deles passou a responder por mais de 10% da carteira. Regra que não ficou restrita apenas aos recebíveis que seriam transferidos ao fundo, mas a todo o “contas a receber” da companhia. “Houve uma reformulação da nossa política de crédito”, conta Junqueira. Outra mudança ocorreu no relacionamento com o cliente. Como os recebíveis estão, agora, atrelados a um fundo, foi preciso restringir a flexibilidade de negociação, prática sempre usual no mercado.

Liberdade para negociação, aliás, é um capítulo à parte na vida das companhias pós-FIDCs. Mauro Sérgio de Oliveira, sócio da Oliveira Trust DTVM, administradora de sete FIDCs, lembra a história de uma empresa cujo departamento comercial, por falta de informação, estendeu o prazo de pagamento para um de seus clientes. No fundo de recebíveis, a renegociação de dívida virou inadimplência e elevou a sazonalidade dos atrasos, que passou de 3% a 4% da carteira para 6%. “A perda da liberdade de renegociar prazos com clientes é um ponto sensível”, destaca Oliveira, que preferiu preservar o nome do cliente que passou pela experiência. “Por isso é importante que o pessoal da área comercial participe da estruturação do fundo”, recomenda. A revisão de procedimentos internos é outro ponto vital para a empresa que decide lançar um FIDC. “A estruturação obriga que a companhia reveja seus processos, desde a tesouraria até a área de sistemas e o faturamento”, destaca Hermann, da Integral Trust.

A Omni Financeira, especializada em crédito direto ao consumidor de baixa renda para financiamento de veículos usados, foi pioneira ao lançar, em 2003, cotas de FIDC para negociação em mercado de balcão organizado. Por tratar-se de uma financeira de pequeno porte, teve de destacar – e treinar – uma equipe para trabalhar com o produto. Além de incorporar um novo vocabulário, e ter as manhãs das sextas-feiras ocupadas, durante seis meses, para reuniões de estruturação do fundo, precisou criar uma nova metodologia de concessão de crédito e aplicá-la a toda a carteira, conta Tadeu da Silva, diretor de estratégia da Omni. “Abrir os números a uma auditoria externa também serviu como balizador de nossas atividades”, avalia o executivo. Outro ponto positivo foi a maior exposição ao mercado, que proporcionou uma resposta sobre o modelo de negócio, e a convivência com as empresas que a assessoraram no processo – estruturador, administrador e agências de rating –, que ajudou a rever estratégias e a melhorar a equipe.

Para uma financeira, conseguir financiar-se com seus recebíveis foi uma tática “vencedora”, segundo Silva. Tanto que a Omni não se deu por satisfeita com o FIDC emitido em 2003, de R$ 80 milhões, e em janeiro, lançou um segundo fundo, no valor de R$ 130 milhões, com características semelhantes às do primeiro. Os FIDC responderão por 20% dos recursos que a empresa irá precisar neste ano. O restante virá de outras fontes, como empréstimos bancários.

O Banco Bonsucesso, focado em crédito consignado em folha de pagamento e sediado em Belo Horizonte, também viu a captação por meio de FIDCs um motivo de comemoração. “Para um banco pequeno e pouco conhecido, abrir as portas ao mercado de capitais foi um desafio”, avalia Jorge Lipiani, diretor de captação da instituição. A operação recebeu o rating “AAA” outorgado pela Moody’s que, na opinião de Lipiani, motivou a demanda excedente de 120% na primeira colocação.

Maior exposição ao mercado e convivência com investidores e intermediadores ajudam a rever estratégias e melhorar equipes

O caso do Bonsucesso ilustra bem um dos aspectos mais glamourosos de um FIDC. Ao centrar as atenções do mercado na carteira de recebíveis e não no desempenho do emissor, o FIDC permite classificações de risco que jamais poderiam ser atingidas se o próprio emissor estivesse sendo avaliado diretamente. A nota concedida pela Moody´s ao banco mineiro, por exemplo, se equipara ao rating do Bradesco, maior banco de varejo do País. O Bonsucesso captou um total de R$ 50 milhões com o FIDC, após dois roadshows, um em São Paulo e outro em Belo Horizonte. Mais três tranches do mesmo valor estão previstas para este ano.

Até as multinacionais estão passando pela experiência de ceder seus recebíveis a um FIDC. Em 2003, a brasileira Caterpillar Financial, com o aval da matriz norte-americana, lançou um fundo com patrimônio líquido de R$ 23,8 milhões. No alvo da Caterpillar, além dos recursos é claro, estavam os benefícios que os FIDCs trariam para as suas operações. Um dos objetivos era otimizar a comunicação entre a fábrica e a financeira. “Hoje, contamos com um controle mais apurado da informação”, destaca Hector Bergos, gerente de projetos da Caterpillar Financial. Para se ter uma idéia, os pedidos da fábrica para a financeira demoravam, antes, três dias para ser atendidos. Com o sistema de controle de recebíveis, a análise de liberação de recursos passou a ocorrer em questão de horas. “Tem sido um processo contínuo de amadurecimento e aprimoramento”, destaca. Com os resultados, a companhia pretende estender as melhorias desencadeadas pelo fundo de recebíveis a outros setores, vislumbrando, inclusive, o lançamento de novos FIDCs, desta vez com lastro nas exportações e em créditos contra outros fornecedores.

ESTRATÉGIA DE LONGO PRAZO – Dotados de vantagens que vão desde o financiamento da companhia ao aprimoramento de seus processos de gestão, passando por uma exposição maior na mídia e o contato com investidores, os FIDCs começam a cair nas graças das pequenas e médias empresas e, até mesmo, a ocupar um papel mais estratégico nos seus planos de negócios. Para elas, contudo, cabe um alerta. “A empresa de pequeno e médio porte que quiser acessar o mercado de capitais por meio da securitização precisa começar hoje”, diz o responsável pelo desenvolvimento de produtos do Banco Pactual, Paulo Cunha. “A carteira de recebíveis precisa ter, pelo menos, uns três anos de fluxo estável”.

Os custos para o lançamento de um FIDC ainda são um problema, principalmente para as empresas menores. Mas a expectativa é que os valores se reduzam com o tempo, conforme aumente o número de empresas prestadoras de serviços que atuam neste mercado. Quando o primeiro FIDC – o da Omni – foi lançado, havia apenas um custodiante trabalhando com esse tipo de ativo. Hoje, já são cinco, o que fez o custo cair de 10% a 15%, segundo Hermann, da Integral Trust. Somando todas as outras etapas, desde a estruturação, a análise de rating, a assessoria jurídica, de cobrança e custódia, o custo de um FIDC é, hoje, 50% menor que em 2003. Com a evolução das operações, a tendência é que os preços continuem a cair.

Outra perspectiva para o crescimento deste mercado é a redução no volume das emissões. A previsão é que se chegue a operações de R$ 10 milhões – até agora, elas não saíram abaixo de R$ 50 milhões. São esperadas também operações que agrupem dezenas de pequenas e médias empresas. Um exemplo é o fundo que está sendo estruturado pelo Pactual, em parceira com o Sindipeças e a Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee). O FIDC será formado pelos recebíveis de 20 fornecedores de pequeno e médio porte, que atendem cerca de dez companhias dos segmentos de autopeças e eletroeletrônicos.

Os números recentes também são sinalizadores da evolução dos FIDCs. Há um ano, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) contabilizava o registro de cerca de 20 fundos. Em janeiro último, eram 51. O mercado secundário também vem mostrando algum movimento. Em 2004, primeiro ano de negociação desses ativos no BovespaFix e no SomaFix, mercados de dívida corporativa da bolsa paulista, as cotas de fundos de recebíveis movimentaram mais de R$ 420 milhões.

Aos poucos, os FIDCs começam a disseminar novos hábitos entre as empresas brasileiras. E a plantar uma semente para que, no futuro, já mais crescidas, elas continuem a se financiar através do mercado de capitais. Até lá, quem sabe, com emissões maiores e, por que não, com lançamentos de ações. É o mercado de capitais incentivando as companhias a contar com ele, desde o começo.


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