Mudando de idéia

Ofertas secundárias de ações voltam em novo contexto e levam investidores a reavaliar o preconceito contra esses papéis

Edição 18 / Reportagem / 1 de fevereiro de 2005
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ed18_p013-015_pag_2_img_001É sabido que o mercado de capitais teve razões de sobra para comemorar o saldo de 2004. Ao todo, foram sete ofertas públicas iniciais de ações, volume que não se via desde 1994, quando nove empresas abriram o capital. Desta vez, além de confirmada a tão esperada volta dos IPOs, investidores depararam-se com uma nova realidade: em todos os lançamentos de 2004, em maior ou menor escala, existiram as chamadas ofertas secundárias de ações, que haviam desaparecido dos IPOs há pelo menos cinco anos.

Um certo consenso entre especialistas indica que, historicamente, as ações de “segunda mão”, transferidas dos sócios controladores para o mercado, não têm, pelo menos logo de início, o mesmo atrativo dos papéis novinhos em folha, recém- emitidos pelas companhias. Enquanto na oferta primária o recurso obtido vai para o caixa da companhia e, depois, pode ser utilizado na expansão de fábricas, aquisição de novas tecnologias, contratação de pessoal e outras melhorias, na oferta secundária o dinheiro vai para o bolso dos sócios que vendem as ações. “Quando o mercado fica sabendo do lançamento secundário, há uma certa desconfiança por parte do investidor, que tende a preferir entrar em uma empresa que vem a mercado vender ações para viabilizar seus planos de crescimento”, explica Maria Helena Santana, superintendente de relações com empresas da Bovespa.

Na dúvida, o preço pago pelas ações é o primeiro atingido. Segundo André Querne, responsável pela gestão de renda variável da Máxima Asset Management, o mercado costuma aplicar um desconto ao preço considerado justo para as ações quando a oferta, ou parte dela, é secundária. “Se o investidor puder optar entre os dois tipos, deve ficar com a ação primária”, afirma. Uma das justificativas para o desconto está na transparência, que é naturalmente maior nas ofertas primárias. “Nas novas emissões, fica claro o destino do dinheiro, que costuma ser aplicado em grandes projetos de investimento”, afirma Alexandre Barreto, sócio da área de mercado de capitais do Souza, Cescon Avedissian, Barrieu e Flesch Advogados.

É nas diferenças de percepção quanto ao potencial de crescimento futuro das companhias que nasce um certo preconceito contra as ofertas secundárias, observa o professor João William Grava, especialista em finanças. Afinal, enquanto a oferta primária dá claramente o “recado” de que a empresa pretende crescer, a secundária não oferece maiores garantias neste sentido. Outra variável que pode justificar o desconto sobre o preço das ações secundárias é a simples hipótese de que a venda dos papéis pelo controlador esteja ocorrendo naquele momento justamente porque as ações estão caras. “A emissão primária cria um humor melhor no mercado”, completa Isabel Ramos, chefe da equipe de análise do Opportunity.

CARÊNCIA POR NOVOS PAPÉIS – Ainda que, em tese, as ações provenientes de ofertas secundárias devam sofrer uma penalidade em relação às ofertas primárias, o que se viu na prática com as experiências de 2004 é que o tamanho dessa punição – e até mesmo a sua aplicação de fato – depende de uma série de fatores conjunturais.

Casos como Natura e Grendene – cujas ações foram adquiridas com prêmios elevados pelo mercado – mostraram que a desconfiança gerada num primeiro momento tem boas chances de se dissipar quando a companhia expõe projetos convincentes para o futuro. “Nos dois casos, o mercado entendeu que não havia necessidade de capital novo, mas que existia um bom potencial de crescimento após a oferta”, comenta o advogado Luiz Leonardo Cantidiano, sócio do escritório Motta, Fernandes Rocha.

Contam também a favor de uma oferta secundária bem sucedida o histórico de desempenho da companhia, seu mercado de atuação e, como não poderia deixar de ser, a demanda dos investidores por novos papéis. Na opinião de Denise Pavarina, diretora da área de mercado de capitais do Bradesco, é justamente o momento de mercado que explica grande parte do sucesso das ofertas secundárias no ano passado. Segundo a executiva, os investidores vinham acumulando uma carência por novos papéis nos últimos anos, inclusive por papéis de setores específicos. “Em 2004, chegaram empresas com bom nível de comprometimento com o investidor e boa gestão, que ampliaram as opções de investimentos”, observa.

Já havia também a expectativa de que os fundos private equity, muitos constituídos na segunda metade da década de 90, precisariam se desfazer de suas posições em algum momento e que buscariam o mercado de ações para tal. “Estava claro que isso era muito razoável e saudável”, diz Denise. Para a diretora, essa convergência de fatores motivou analistas e investidores a enxergarem as ações secundárias de outra forma. “O mercado reviu sua posição preconceituosa e avaliou que não há espaço para visões tão pragmáticas. É preciso olhar a intenção da companhia e seus planos futuros, cabendo a cada caso uma avaliação diferente”, diz.

Outra boa pedida para viabilizar o sucesso das ofertas secundárias é a transparência durante o roadshow. Ao largar em desvantagem, em razão do tipo da oferta, os profissionais de relações com investidores precisam de um planejamento de comunicação ainda mais elaborado e, de preferência, devem contar com o apoio dos controladores nas apresentações. Nestas reuniões, o desafio maior é demonstrar as oportunidades de crescimento da companhia sem dinheiro novo e definir com clareza o papel estratégico dos novos acionistas – que, naquele momento, não servem para injetar recursos – no plano de negócios da companhia.

 

É na dúvida quanto ao potencial de crescimento da empresa que nasce a desconfiança em relação às ofertas secundárias de ações
Casos como Natura e Grendene mostraram que a desconfiança pode ser superada quando existem planos convincentes para o futuro

MUDANÇA DE PARADIGMA – Modelos de gestão inovadores e prestigiados também podem ajudar. E muito. Segundo David Uba, vice-presidente de finanças da Natura, a aversão a visões antiquadas e o desejo de investir em gestões profissionalizadas, lastreadas em boas práticas de governança, foram as razões para a boa receptividade dos papéis secundários da companhia no ano passado. “Para vencer a possível desconfiança, decorrente do fato de que as emissões secundárias não ocorriam há algum tempo no País, nos preocupamos em esclarecer ao investidor nossas razões para a abertura de capital e os motivos pelos quais não precisamos de recursos novos para colocar em prática os planos de expansão da companhia”, conta.

Para Evandro Pereira, sócio responsável pela área de mercado de capitais do Pactual, os IPOs de 2004 promoveram uma reciclagem na visão do investidor. “Um paradigma foi rompido. Os analistas chegaram à conclusão de que ficar de fora do capital da empresa, apenas porque a emissão era secundária, seria bobagem”, afirma. Na opinião de Pereira, o mercado preferiu se focar nas chances de aportar recursos em setores novos, altamente competitivos e com boas perspectivas de crescimento.

Enquanto o mercado brasileiro avalia os prós e contras das ofertas secundárias, no exterior, principalmente devido à atividade dos fundos private equity, este já é um assunto mais bem resolvido. Todd Crider, sócio da consultoria norte-americana Simpson Thacher, conta que, nos Estados Unidos, a participação dos fundos private equity no capital das companhias é significativamente maior, o que leva a um volume mais expressivo de operações secundárias. “Fica claro que, mais dia, menos dia, esse tipo de fundo vai surgir na bolsa de valores vendendo sua participação”, diz, ressaltando que, naquele mercado, também ocorrem ofertas iniciais 100% secundárias, a exemplo de Natura e Grendene no Brasil em 2004. Na visão de Crider, essa é uma tendência para os países em desenvolvimento nos quais as bolsas de valores se mostrem um veículo atrativo para a venda de ações. Se o consultor estiver certo, os dois exemplos do ano passado podem ter sido só o começo.


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