Tudo mais complicado

Depois de tantas novidades em 2004, indústria de fundos se prepara para um ano de estratégias complexas

Edição 17 / Reportagem / 1 de janeiro de 2005
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ed17_p031-032_pag_2_img_001Após um ano de muitas mudanças e de baixo crescimento real, a indústria de fundos de investimento entra em 2005 cercada de incertezas e dúvidas sobre sua atratividade frente a outros tipos de investimento e sobre o perfil das aplicações. A criação da conta investimento, as mudanças nas alíquotas do imposto de renda que incidem sobre os rendimentos dos fundos e uma nova Instrução da CVM (a 409), que dispõe sobre o funcionamento dos fundos, foram algumas das novidades do último ano que contribuíram para investidores indecisos preferirem deixar seus recursos em outros tipos de aplicação.

De acordo com dados da Fortuna, a captação líquida de recursos para a indústria de fundos cresceu apenas 3% do início do ano até o fim de novembro. Um número modesto se comparado à expansão vivida em 2003, da ordem de 20%. Vale ressaltar que a base de comparação deste ano ainda é pequena – em 2002, os resgates superaram as aplicações em 19%. No todo, porém, a indústria vem se expandindo, principalmente por conta dos rendimentos que resultam das altas taxas de juros, diz Marcelo D´Agosto, sócio da Fortuna.

A Instrução 409 foi muito bem recebida pelo mercado. Não só porque unificou a legislação de fundos de renda variável e renda fixa, mas também por ter proporcionado maior transparência e acesso a informações. Ou seja, tentou proteger os investidores, mas não os tutelou e nem impediu o funcionamento da indústria.

Outra mudança saudada com entusiasmo foi a criação da conta investimento, que permitiu o trânsito de recursos destinados a aplicações sem pagamento de CPMF. No início, esperava-se que os investidores migrassem em massa para as aplicações e fundos mais atrativos, aproveitando a folga na taxação. Mas, pelo fato de ainda serem poucos os recursos incorporados às contas investimento e por ter faltado, no início, informação sobre o seu funcionamento, não foi o que ocorreu. A esperada migração de recursos foi também atropelada pelas mudanças na tributação. “As Medidas Provisórias inibirão a competição entre os gestores”, avalia Francisco Camargo, sócio da Fortuna.

Migração de recursos para a conta investimento foi atropelada pela edição das Medidas Provisórias que alteraram a tributação dos fundos

Primeiro veio a Medida Provisória 206, que criou alíquotas de imposto diferenciadas de acordo com o tempo que o investidor deixasse o seu dinheiro aplicado. A alíquota dos fundos subiu de 20% para 22,5% para prazos inferiores a seis meses. De seis meses a um ano, o IR ficou em 20%; de um a dois anos em 17,5% e, para prazos superiores, em 15%. O mercado aplaudiu a modificação, que desoneraria os aplicadores com vistas no retorno no longo prazo. Ao mesmo tempo, contudo, a MP pode ter um efeito perverso e retrair novas aplicações, à medida que impõe uma cunha fiscal mais pesada para investimentos de prazos curtos.

Em seguida, foi baixada a Medida Provisória 209, que fez mais uma exigência para os investidores poderem usufruir das taxas de imposto diferenciadas. Além do período mínimo de permanência, passou a ser necessário que os títulos em carteira tenham prazo médio superior a 365 dias. Títulos mais longos, contudo, significam mais volatilidade no valor das cotas, o que pode fazer alguns investidores abdicarem da economia fiscal para evitar a convivência com flutuações muito bruscas no valor de suas aplicações.

PLANEJAMENTO É FUNDAMENTAL – Em resumo, podese concluir que a nova tributação deixou as coisas mais complicadas para aplicadores e gestores. Estes últimos terão que encarar o desafio de criar produtos de longo prazo que, apesar da volatilidade esperada no meio do caminho, indiquem rentabilidades promissoras para quem deixar ali suas economias. Aos investidores, caberá a responsabilidade de analisar com cuidado as aplicações disponíveis e o risco envolvido para tirar proveito das vantagens fiscais. Mais que isso, eles deverão fazer um planejamento financeiro adequado para saber quais recursos serão usados no curto prazo e quais constituem uma poupança mais longa.

O problema é que, no Brasil, o planejamento financeiro não é algo corriqueiro. E, sem esse planejamento e um correto entendimento dos produtos, na prática, o investidor poderá acabar pagando mais imposto. Se aplicar em um fundo de longo prazo, mas deixar os recursos por menos de seis meses, pagará uma alíquota de 22,5%, contra os 20% que valiam até 2004 independentemente do prazo. “Mais do que nunca, o planejamento tornou-se fundamental”, diz Renata Silveira, superintendente do BankBoston.

A mudança nas alíquotas e no prazo médio das carteiras não é complexa apenas em virtude da falta de preparo do investidor para cuidar do próprio orçamento. O risco envolvido também é uma questão a ser testada com o tempo. Mesmo cientes da possibilidade de seus investimentos terem rentabilidade negativa durante um período, a dúvida é se os investidores estariam realmente preparados para a oscilação das cotas. Eles assistirão a eventuais perdas em fundos conservadores como os DI até que uma possível situação de crise nos mercados esteja solucionada? Ou repetirão o que fizeram no episódio da marcação a mercado em 2002? Neste ano, a necessidade de marcar a mercado as Letras Financeiras do Tesouro (LFT), que foram negociadas com deságio, provocou perdas em fundos conservadores e assustou investidores. O resultado foi que os saques da indústria superaram as captações em R$ 57 bilhões, um encolhimento da ordem de 19% no fluxo de recursos que migram para os fundos.

Aos investidores, caberá a responsabilidade de analisar com cuidado as aplicações disponíveis e o risco envolvido para tirar proveito das vantagens fiscais
O maior interesse pelos CDBs já foi verificado no segundo semestre do ano. O desafio dos bancos será levar o investidor para o longo prazo

Essas perguntas ainda não têm resposta. Para alguns, o parco entendimento da pessoa física sobre investimentos, aliado a um ambiente mais complexo, pode tornar mais atraentes outras formas de aplicação, em especial o CDB. De acordo com Camargo, da Fortuna, o resultado será um crescimento mais lento para o mercado de fundos. Em sua opinião, os fundos de longo prazo não terão apelo entre os aplicadores.

Como o valor do CDB não é marcado a mercado diariamente, o investidor acaba por não perceber as oscilações e se sentindo mais seguro. Além disso, compreende com mais facilidade o seu funcionamento. As alíquotas que incidirão sobre os rendimentos desse título também são decrescentes à medida que o prazo de aplicação aumenta. E muitos bancos recompram os títulos antes do vencimento, caso o investidor não possa esperar até o fim do prazo.

O maior interesse pelos CDBs já pôde ser verificado no segundo semestre do ano. “O desafio dos bancos vai ser levar o investidor para o longo prazo, de forma que ele possa aproveitar o beneficio tributário”, diz William Eid Junior, professor da EAESP da Fundação Getulio Vargas.


MULTIMERCADOS DE LONGO PRAZO – Se entre os investidores ainda existe bastante desconhecimento e indecisão, para os gestores alguns pontos começam a ficar mais claros. É praticamente um consenso entre eles que produtos destinados a investidores propensos a correr riscos maiores e cientes do potencial de perda dos recursos, como os fundos multimercados, tendem a ser transformados em fundos de longo prazo para se beneficiar das alíquotas mais baixas. “Mas não será isso que irá atrair mais investidores para esse tipo de produto”, pondera Eduardo Rezende, diretor da Mellon Global Investment do Brasil. Já a expectativa sobre os fundos DI e de renda fixa é que eles contemplem os dois horizontes de aplicação: curto e longo prazo.

O percentual do patrimônio da indústria que optará por produtos de longo prazo – e atenderá, assim, aos interesses do governo, alongando a dívida pública – dependerá do comportamento do investidor de varejo, já que os institucionais têm isenção de imposto sobre os rendimentos de fundos, diz Renata Silveira. As mesmas MPs determinaram que os fundos de previdência abertos e fechados não pagarão o IR durante o período de capitalização. De acordo com Thyrso Pizzoferrato, consultor da Mercer Consulting, isso significa que, no curto prazo, eles podem não ter interesse em partir para investimentos com horizontes mais longos. Tal movimento poderia ocorrer sim, mas por outras razões de mercado, como uma retomada da queda das taxas de juros. Atualmente, de acordo com dados da Fortuna, o investidor de varejo responde por cerca de 54% do patrimônio da indústria, que é de R$ 512 bilhões. Mas ainda é impossível estimar quantos irão para o longo prazo. Essa tendência depende, também, do quão empenhados estarão os bancos para vender os fundos mais longos.

HORA DE ACHAR O PRODUTO CERTO – Embora o aumento da competição esperado após o início da conta investimento tenha sido mitigado pela nova tributação, os bancos estão de olho no que a concorrência vai fazer. Afinal, nenhum deles quer perder investidores. A diferença de tributação, que pode ser de 7,5 pontos percentuais (de 22,5% para 15%) é grande o bastante para ser um bom argumento. “Acredito que os investidores vão querer alongar os prazos de aplicação e tomar mais riscos”, diz Emanuel Carlos da Silva, sócio da GAP Asset Management. Ou seja, criar um produto de longo prazo pode ser fundamental para não perder espaço para a concorrência.

O patrimônio da indústria a ser aplicado no longo prazo dependerá do comportamento dos investidores de varejo, que representam 54% do total
Habilidade na criação dos produtos certos será fundamental para vencer a concorrência em tempos de alíquotas de imposto reduzidas

No entanto, como é sabido que a venda para o varejo, no geral, não é feita de forma consultiva, uma das possibilidades é que os gestores criem o produto mas não o promovam. Ou seja, como poucos bancos se aprofundam nos objetivos do investidor e no seu nível de propensão ao risco, é possível que se veja uma falta de empenho para vender os fundos de longo prazo. Apesar dos esforços feitos pelas instituições em treinar os gerentes – e pela Associação Nacional dos Bancos de Investimento (Anbid), que exige a certificação para profissionais dos bancos associados que vendem produtos de investimento –, esse tipo de iniciativa demora até dar resultado.

Justamente por conta de todas essas modificações, uma das tendências identificadas pelos profissionais é que as áreas que lidam diretamente com investidores ganharão mais atenção. “Com o aumento da gama de produtos, os distribuidores e as áreas de relacionamento com clientes vão ganhar importância”, diz Henrique Álvares, sócio da Neo Investimentos.

Um dos esperados efeitos do surgimento de produtos de longo prazo é a existência de taxas de administração mais elevadas para os fundos desse gênero, já que o trabalho para gerir uma carteira de longo prazo é maior. O esforço do gestor sempre tem de ser o de obter a melhor rentabilidade com o menor risco. Por isso, ele vai ter de trocar freqüentemente os títulos que compõem a carteira do fundo para reduzir as oscilações, evitando ter de substituir um título perto do vencimento que esteja com preço aviltado. As taxas de um fundo de longo prazo, avaliam os gestores, podem ser de 25% a 50% superiores às de um congênere de curto prazo.

Certamente, o desempenho da indústria no ano e a adesão dos investidores aos produtos de longo prazo devem estar relacionados às condições macroeconômicas e do mercado financeiro. Ou seja, é o rumo do mercado que irá dizer o quanto a volatilidade vai assustar os investidores. Em um ambiente de queda de juros e crescimento econômico, os aplicadores tendem a correr mais riscos e até a aceitar melhor os produtos de longo prazo.

A expectativa é que 2005 seja um ano de crescimento econômico. Mas, como sempre, existem as incertezas no meio do caminho. Dentre elas, diz Álvares, da Neo, está o rumo do dólar no mercado internacional. Uma desvalorização brusca da moeda poderia elevar a aversão ao risco e prejudicar os mercados emergentes, o que certamente teria impactos sobre a indústria. Mas, se o melhor cenário se concretizar, os investidores serão beneficiados pela redução nos impostos e pelo alongamento dos prazos. Resta esperar para conferir.


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