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Com o lançamento do mercado de acesso este ano, empresas com investimento de fundos private equity são fortes candidatas a continuar a série de IPOs

Edição 17 / Reportagem / 1 de janeiro de 2005
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A retomada dos lançamentos de ações em 2004 não serviu apenas para mostrar que o mercado de capitais ainda pode ser um veículo de financiamento para as companhias brasileiras. Ao interromper o jejum dos últimos anos, a nova série de aberturas de capital confirmou que a bolsa de valores pode ser, sim, uma porta de saída para o chamado capital de risco – aquele que chega a empresas pequenas e médias com elevado potencial de crescimento por meio dos fundos venture capital ou private equity.

Fundos de private equity que haviam investido em ações da ALL, Gol e Dasa (rede de laboratórios Diagnósticos da América) aproveitaram o apetite do mercado por novos papéis para dar liquidez a suas participações. Ao encontrar preços atrativos, preferiram usar o caminho da bolsa – e ampliar a liquidez da companhia como um todo – a procurar um sócio estratégico que lhes pagasse o preço desejado. Com as três experiências bem sucedidas, espera-se que a onda de “desinvestimento” dos fundos de private equity continue sendo uma importante via de chegada de companhias novas à bolsa em 2005. “Estas são as vedetes do mercado a partir deste ano”, observa Saul Sabbá, do Banco Máxima.

Em dezembro, o fundo de private equity TMG, acionista da Odontoprev, maior empresa de assistência odontológica do País, anunciou que pretende se desfazer de sua participação e que estuda a bolsa de valores como possibilidade de saída. E há outras boas promessas à vista. Somente o Banco Pátria, que este ano vendeu suas ações da Diagnósticos da América no pregão, carrega em seu portfólio companhias como Editora Peixes, Fotoptica, Drogasil e Casa do Pão de Queijo.

A entrada de empresas com investimentos de private equity na bolsa de valores é facilitada por alguns aspectos. O primeiro deve-se ao fato de estes empreendimentos, desde o começo, serem adaptados às mais elevadas práticas de governança corporativa. Não importa se de porte pequeno ou médio, praticamente todas as empresas investidas são ensinadas a prestar contas a seus acionistas, ter uma contabilidade adaptada aos padrões norte-americanos, um conselho de administração com funções estratégicas e a contratar uma auditoria independente.

Por estas razões, lembra Álvaro Luis Gonçalves, presidente da Associação Brasileira de Capital de Risco (ABCR), é mais fácil uma empresa com investidores de venture capital ou private equity se dirigir ao Novo Mercado do que uma outra, já listada, tentar migrar. Além do fato de estas companhias já terem, em sua maioria, o capital formado apenas por ações com direito a voto – como exige o Novo Mercado –, elas têm empreendedores conven cidos de que, para obter recursos com investidores, é preciso aprender a dividir poder.

UMA PORTA DE ENTRADA – Outro impulso para a chegada de empresas investidas por fundos private equity na bolsa é o lançamento do mercado de acesso, previsto para 2005. Adaptado às companhias de médio porte, o novo segmento de listagem da Bovespa poderá ser uma via para que essas companhias cheguem mais rapidamente à bolsa, ampliando, também, as oportunidades de investidores darem liquidez a suas posições. “Antes a bolsa era um canal de saída para os fundos de private equity apenas na teoria. Agora estamos vendo que isso se aplica na prática”, afirma Maria Helena Santana, superintendente de empresas da Bovespa.

Segundo Gonçalves, os fundos private equity serão os principais “fornecedores” de empresas para o mercado de acesso da Bovespa. E terão um papel fundamental na tarefa de quebrar o tabu de que apenas grandes emissões encontram espaço na bolsa de valores. Nos Estados Unidos, por exemplo, 30% das ofertas iniciais de ações (IPOs) do primeiro semestre de 2004 foram de médias e pequenas empresas, segundo o presidente da ABCR. Em mercados de capitais desenvolvidos, a diversificação entre blue chips e ativos de segunda e terceira linha é bem vinda e contribui para a eficiência das alocações de recursos.

Mas o que realmente se observa entre muitos agentes do mercado, inclusive gestores de fundos private equity, é que o tamanho das empresas e o volume da emissão ainda pesam na análise sobre a viabilidade de se levar uma companhia à bolsa. “Para abrir o capital é necessário no mínimo um Ebitda de US$ 50 milhões e faturamento da ordem de US$ 150 a US$ 200 milhões”, estima Alexandre Saigh, sócio do Banco Pátria. Sem isso, diz ele, fica difícil até pagar os custos de uma emissão.

No caso do fundo Patrimônio Private Equity, do Pátria, criado em 1997 e com patrimônio de US$ 150 milhões investidos, uma companhia que estaria mais próxima de poder se lançar à bolsa é a Fotoptica, que hoje fatura em torno de US$ 100 milhões. Na visão de Saigh, a Fotoptica teria todos os quesitos para se financiar via mercado de ações mais adiante – embora este não seja necessariamente, ressalva, o seu objetivo agora.

A Intel Capital, braço de investimentos estratégicos da Intel, compartilha da mesma visão a respeito dos volumes necessários para emitir ações. “É preciso faturar centenas de milhões de reais para pensar em ir à bolsa”, avalia Fábio de Paula, gerente de investimentos estratégicos para a América Latina. O fundo da Intel é focado em negócios na área de tecnologia, outro segmento com grande potencial de abrir o capital.

No Brasil, ao contrário do que se viu em ritmo frenético no mercado americano, nunca houve ofertas relevantes neste segmento. Portanto, faltam boas opções de papéis de tecnologia na bolsa, o que pode ser mais um estímulo para que os fundos de capital de risco aproveitem o bom momento do pregão ou utilizem o mercado de acesso para se desfazer de suas posições com retornos adequados.

Recentemente, a Intel Capital anunciou um investimento na integradora de soluções de serviços celulares Yavox. Foi o único aporte no Brasil em 2004. De acordo com o executivo da Intel Capital, Yavox, Spring Wireless e NeoVia Telecomunicações são algumas companhias investidas que, depois de passar por um processo de amadurecimento intenso, teriam potencial para entrar na lista das aberturas de capital.

A Advent Internacional é outro fundo de private equity que estuda se desfazer de participações via bolsa. Suas principais candidatas são a processadora de cartões de crédito CSU CardSystem e a Microsiga. Porém, para o sócio da Advent, Erwin Russel, antes é preciso que estas empresas estejam faturando na casa dos R$ 300 milhões e tenham condições para ofertar ao mercado no mínimo R$ 100 milhões em ações. Para ele, operações menores não atendem aos objetivos de retorno do investidor, principalmente do institucional, o que pode diminuir a atratividade das ações.

Apesar das resistências, a Bovespa pretende, aos poucos, criar condições que estimulem os fundos de capital de risco a levar suas companhias para o mercado de ações. Pelas experiências deste ano, e pelas perspectivas de novos casos em 2005, esta possibilidade começa a ser real. “É uma boa notícia para a bolsa e para os gestores e investidores, que conseguem reciclar a carteira e se capitalizar”, diz Maria Helena.

Companhias médias buscam espaço para lançar ações na bolsa

Além das empresas com participação de fundos private equity, há outras pleiteando seu lugar na lista das futuras companhias abertas. A construtora Company é um exemplo. Presente em um segmento ainda pouco usual na bolsa, a companhia planeja lançar ações nos próximos anos. Segundo Luiz Rogelio Tolosa, diretor administrativo da empresa fundada em 1982, a bolsa, como um investimento de longo prazo, é coerente como fonte financiadora da atividade de uma construtora.

A Company tem registro na CVM desde 2000. Emitiu debêntures em 2001 e 2004, no valor de R$ 24 milhões e R$ 30 milhões, respectivamente, e lançou quatro vezes commercial papers, em 2000 e 2003, sendo cada emissão de R$ 15 milhões. A intenção dessas operações já era se aproximar dos investidores e começar a colocar a empresa na vitrine do mercado de capitais.

A percepção do executivo é de que não faltaria interesse pelos papéis. O grande empecilho para chegar ao mercado, avalia, é o porte da empresa. A Company tem um faturamento aproximado de R$ 100 milhões, tamanho considerado pequeno para os atuais padrões do mercado. “As pequenas e médias empresas não são alvo dos bancos e acabam esquecidas”, afirma Tolosa. “Nossa abertura de capital agora depende do mercado”, ressalta. Além de planejar ter a bolsa como fonte de novos recursos, os sócios da Company procuram formas de profissionalizar o negócio e perenizar a companhia.

A fabricante de monitores de vídeo Waytec é outra que espera um espaço na bolsa para entrada de empresas médias. A previsão do sócio Moisés Aleixo Nunes é promover o lançamento das ações até 2007, já se utilizando do mercado de acesso a ser lançado pela Bovespa. A Waytec está negociando o investimento de dois fundos de private equity, uma parceria que pode agilizar o processo.

Enquanto não acham o caminho para chegar ao pregão, as companhias que vislumbram um lançamento de ações aproveitam para desenvolver boas práticas de gestão e aprimorar seu padrão de transparência. “Mesmo que a companhia não chegue à bolsa, o processo já terá garantido mais eficiência”, avalia Tolosa.


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