Quem é ele afinal?

A Capital Aberto consultou nove corretoras para desvendar o perfil do investidor pessoa física que participou das últimas emissões. Descobriu que ele aplica cerca de R$ 20 mil em renda variável, é do sexo masculino, gosta de empresas “conhecidas” e se interessa pelo significado do “tal tag along”

Edição 15 / Reportagem / 1 de novembro de 2004
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ed15_006-010_pag_3_img_001As estatísticas das ofertas públicas de ações realizadas este ano dão algum alento a quem ainda sonha com um mercado de ações pulverizado no Brasil, repleto de pessoas físicas participando ativamente do capital privado. Depois de quase uma década sem volumes razoáveis de emissões na bolsa doméstica, foi a vez de quatro novas empresas – Natura, ALL, Gol e CPFL – arrematarem cerca de R$ 3 bilhões abrindo o seu capital, sendo algumas dezenas desse montante provenientes das poupanças de investidores pessoas físicas.

Os volumes não são de se desprezar. Na Gol, os chamados investidores individuais contribuíram com R$ 88 milhões para sua capitalização. Na CPFL, com R$ 75 milhões (ver quadro na página 10). É muito mais do que a catarinense Renar, exportadora de maçãs com sede em Fraiburgo, pretende captar com o lançamento de ações de R$ 16 milhões previsto para ocorrer ainda este ano. E mais também do que as emissões que a Bovespa planeja promover em 2005, no mercado de acesso que está desenvolvendo para companhias de médio porte. Em outras palavras, os investidores pessoas físicas já demonstram potencial para arrematar sozinhos algumas das emissões que prometem pipocar no próximo ano. Ao todo, nas últimas quatro emissões, investiram R$ 284 milhões.

Mas quem é esse investidor que decidiu entrar nos lançamentos deste ano e surge como forte candidato a aparecer nas próximas ofertas? É aquele que sempre teve uma queda por investimentos em ações ou o tipo jovem e ousado, que planeja realizar sonhos no futuro e não se contenta com os juros da renda fixa, a despeito de suas taxas serem para lá de convidativas?

Com o intuito de esclarecer algumas dessas curiosidades, a Capital Aberto saiu a campo e colheu informações com um grupo de oito das principais corretoras paulistas, além de uma administradora de recursos. De pronto, descobriu que tais investidores são, em sua maioria, homens, com idade entre 30 e 45 anos e volumes de aplicações em renda variável na casa dos R$ 20 mil. No geral, gostam da idéia de virar acionistas de uma empresa que já faz parte do seu died15_006-010_pag_3_img_002a-a-dia, como a Natura, mas também estão propensos a investir recursos nas tradicionais Vale do Rio Doce e Petrobras. Seu grau de informação e conhecimento sobre o mercado de ações é bastante variado. E, mesmo os que costumam acompanhar de perto o sobe-e-desce das cotações, quase sempre cedem a palavra final para o seu corretor.

Reinaldo Zakalski, da BI Invest, afirma que esse investidor já alcançou o que ele chama de “segunda fase de acumulação de capital”. Ou seja: é o sujeito que poupou a vida inteira, conseguiu formar um patrimônio satisfatório – com carro, casa própria, uma casa de campo ou praia – e agora percebe que há formas mais atraentes de investir o seu dinheiro. O gerente de informática Anderson Santos, 34 anos, se enquadra nesse estereótipo. Em março deste ano, começou a investir em bolsa. Apesar de há muito tempo estar de olho no mercado financeiro, demorou para fincar sua bandeira no pregão por falta de quem o ajudasse a entender os riscos e as vantagens desse negócio. “Comecei perguntando ao gerente do meu banco, mas não tive o retorno esperado”, conta. Foi quando um amigo o indicou a BI Invest. Das novas emissões, subscreveu papéis da ALL.

Assim como boa parte dos iniciantes, Anderson pertence ao time dos que vêem no corretor “aquele que cuida de tudo”. Não tem tempo de acompanhar as cotações e mal consegue lembrar de cabeça que ações compõem sua atual carteira. “A maioria só quer saber quando vai começar a ganhar dinheiro”, brinca o economista da corretora Souza Barros Clodoir Gabriel Vieira. Segundo ele, há pessoas físicas que batem em sua porta atrás de papéis da Gol, CPFL e Natura sem ter a noção do preço desses lotes. Para eles, basta o fato de serem empresas conhecidas. Otávio Sant’Anna, responsável pelo setor de home broker da Coinvalores, avalia que o interesse desses investidores tenha sido estimulado pelo investimento em marketing publicitário feito por algumas companhias no momento em que despejavam suas ações no mercado. “A pessoa vê a propaganda na televisãoed15_006-010_pag_4_img_001 e, em seguida, se depara com a notícia nos jornais de que a empresa acaba de abrir o capital”, diz.

Além da aparição na mídia mais popular, essas companhias seduziram o novo investidor com a presença constante em matérias publicadas por veículos especializados. Aí pode-se dizer que as pioneiras da nova safra de emissões levaram certa vantagem. Afinal, quando tudo era novidade, qualquer detalhe da oferta pública ganhava espaço nos jornais e revistas. “O noticiário despertou a curiosidade daquele cliente que já investia através dos grandes bancos”, acredita a coordenadora de marketing da Concordia, Mônica Saccarelli. Segundo ela, só o fato de a pessoa física procurar uma corretora de sua confiança já cria o hábito da busca da informação no até então misterioso mundo dos investimentos. “A exigência de mais transparência por parte das empresas veio ao encontro dessas expectativas”, acrescenta Mônica.

Fisgado pela enxurrada de informações, o candidato a investidor correu para as corretoras fazendo com que muitas delas tivessem de mudar o modo de atendê-los. Se antes os profissionais da área lidavam basicamente com pessoas mais experientes no assunto, agora chegou a vez de eles pararem o que estão fazendo para atender telefonemas e explicar, com toda a paciência e disposição, o que seria aquele “tal de tag along”. Em tempo, tag along é o direito garantido aos acionistas minoritários de receberem o mesmo tratamento dado aos controladores no caso de venda do controle da companhia. É um dos atributos valorizados pelas empresas que aderiram ao nível 2 ou ao Novo Mercado – como as quatro últimas que lançaram suas ações em bolsa.

O diretor da área de pesquisa da Planner, Luiz Antônio Vaz das Neves, diz que, com essa nova leva de acionistas, voltou o tempo de os corretores serem os mais assediados em festas e eventos sociais. “Todos vêm me perguntar qual é a boa dica da semana.” Neves se impressiona com a quantidade de clientes leigos que, longe de se sentirem intimidados por ignorar termos técnicos, querem discutir como se fossem antigos investidores. Anos atrás, havia até um certo constrangimento por parte dessas pessoas, pois investir em bolsa era tido como coisa de elite.ed15_006-010_pag_4_img_002

Pode-se até dizer que fica difícil classificar os investidores entre conservador, moderado e agressivo, na linha do que se fazia antigamente. Como definir, por exemplo, a investidora Cleusa Yakabi, desenhista, de 35 anos? Foi ousada na hora de aplicar um terço do dinheiro que recebeu com a venda de um apartamento em ações da CPFL e Weg. Mas tomou todo o cuidado antes de entrar para um clube de investimentos cujo nome, “Campeões de Sucesso”, não escapou da análise criteriosa de sua numeróloga. Atrás de boas ofertas, Cleusa chega a ligar duas ou três vezes por semana para o corretor da Planner, que já é tratado por ela como Paulão. Mas morre de medo de que o preço despenque quando os papéis atingem valorização superior a 10%. Pensa em comprar papéis da Natura, “assim que a cotação cair um pouquinho”, pois acha interessante participar do crescimento de uma empresa que já faz parte de sua vida. “Quanto mais desenvolvo o hábito de acompanhar o mercado, mais vou pegando confiança”, justifica a desenhista.

Para Marcos Monteiro de Barros, da Socopa, as pessoas físicas mais “antenadas” são, por incrível que pareça, as que têm menos dinheiro. Isso porque, quanto mais jovem, mais o investidor tem tempo e facilidade para encontrar informações sobre os papéis, principalmente em sites especializados na internet. “Esses meninos até operam sozinhos sem os conselhos do corretor. Mas, em compensação, movimentam volumes pequenos.”

Vamos ver o caso de Sandro Conceição, 29 anos, gerente de negócios internacionais de uma indústria de cerâmica paulista. Em novembro do ano passado, só o fato de ter aplicado um modesto capital de R$ 5 mil na Bovespa já o fez se sentir o próprio George Soros. Atualmente, está de olho nos papéis da Grendene, embora tenha preferido ficar de fora nas operações de Natura, ALL e Gol. Contrariando o conselho da sua empresa de investimentos, a BI Invest, convenceu-se, por conta própria, de que essas ações iriam demorar para lhe trazer o retorno almejado. “Não gosto de aplicações a longo prazo, acho que sou um especulador”, justifica Sandro, lembrando que sua intuição já lhe rendeu 33% de retorno em apenas uma semana.

A ousadia da nova pessoa física é uma mistura do clima de confiança que paira no ar após as campanhas de popularização da Bolsa, da proximidade que certas empresas têm com o consumidor e do acesso às informações, cada vez mais facilitado pelos atributos da tecnologia e pelas políticas de transparência das companhias. Mas, embora o cenário esteja positivo para atrair novos clientes, as corretoras consultadas acreditam que ainda é preciso muito mais empenho por parte das empresas para atender seus candidatos a acionistas. “Dado o crescimento do público que nunca investiu em bolsa, tornou-se fundamental adaptar a freqüência e o modelo das reuniões para os seus clientes”, afirma o presidente da Apimec-SP (Associação dos Analistas e Profissionais de Investimento do Mercado de Capitais), Milton Luiz Milioni.

Na última década, a participação das pessoas físicas na Bovespa saiu da tímida fatia de 9,7% do total de negócios para representar R$ 3 de cada R$ 10 movimentados no pregão. Em pelo menos cinco meses deste ano, esse grupo vem superando a parcela representada pelas tesourarias dos bancos e os investidores institucionais na bolsa, numa clara demonstração de que a tão esperada cultura para o investimento em ações está tomando seu rumo. À frente da Geração Corretora de Valores, Milioni conta que, nos últimos meses, tem recebido uma dezena de mensagens por e-mail de pessoas ávidas por informações sobre como iniciar na bolsa. De 2000 para cá, foram formados mais de cem diferentes clubes de investimentos na corretora que pilota. Por isso, acredita que as companhias só teriam a ganhar dando mais atenção à pessoa física. Afinal, a vinda desse investidor resulta no aumento da liquidez de seus papéis, contribuindo, inclusive, para que ela consiga fazer parte dos tão sonhados índices de ações, como o Ibovespa ou o IBX-50.

“O apetite por informação dessas pessoas que investem nas novas emissões é enorme”, reforça Luiz Eduardo Mello, diretor de investimentos da corretora Fator. Talvez esteja no alimento dessas expectativas a chave para reverter a baixa posição das ações no ranking dos melhores investimentos para o brasileiro. Um estudo da Madiamundomarketing, consultoria que pertence ao grupo Madia Associados, coloca as ações e os fundos de renda variável como uma das últimas opções na hora de o assalariado dar um destino ao dinheiro extra economizado (ver quadro na página 8).

Na visão de Milioni, isso acontece porque a maioria dos brasileiros ainda é muito apegada ao patrimônio lastreado em ativos reais. “Mas é preciso introduzir uma cultura de mercado de capitais”, desabafa. As dezenas de milhões investidos este ano em ações de empresas recém-chegadas ao mercado podem ser um sinal nesta direção.


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