Eles preferem semear

Fundos de longo prazo chegam ao mercado para apostar em companhias com potencial de desenvolver suas estruturas de governança

Edição 15 / Reportagem / 1 de novembro de 2004
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Os fundos de investimento voltados para o longo prazo ainda são uma gota no oceano das aplicações financeiras feitas no Brasil, em sua maioria orientadas por aspirações mais imediatistas de retorno. Neste contexto, não poderiam passar desapercebidos os produtos que miram resultados em prazos bem mais longínquos – possíveis somente após um trabalho árduo de fortalecimento da governança da companhia – e que se dedicam a uma estratégia de geração de valor capaz de justificar o risco e o prazo de maturação do investimento. Na esteira da melhora do mercado de capitais e das perspectivas positivas para o lado real da economia, tais produtos voltam a sair do papel.

Dentre esses fundos, estão os da Rio Bravo Investimentos, da Orbe Investimentos e da Jardim Botânico Partners. Embora tenham tamanhos e focos distintos, eles se assemelham no que diz respeito à estratégia de longo prazo e, também, à forma de atuação de seus gestores, que se propõem a participar das empresas em que apostam. “O momento é propício para investir no Brasil. O errado é fazer isso sem governança corporativa”, resume Fabio Carvalho, sócio da Orbe Investimentos.

A Rio Bravo quer investir em empresas de capital aberto com padrões mínimos de governança corporativa e, claro, promissores ramos de negócio. Além de serem analisadas com base em critérios fundamentalistas, as ações de companhias candidatas a entrar na carteira do Rio Bravo Fundamental serão examinadas a partir de três variáveis: o capital humano da emissora, o seu estágio tecnológico e seu modelo de gestão, explica o gestor do fundo, Mario Fleck. O objetivo é que os três cotistas iniciais – sócios da Rio Bravo – participem dos conselhos das empresas investidas e contribuam para seu aprimoramento. Em setembro, o fundo recebeu os primeiros R$ 10 milhões em aporte e o objetivo é captar mais R$ 100 milhões entre investidores institucionais brasileiros, family offices (escritórios voltados a gerir o patrimônio de famílias ricas) e, posteriormente, estrangeiros. A primeira empresa a compor a carteira é a Eternit.

Os outros dois produtos foram estruturados para aplicar em empresas de capital fechado. O fundo da Orbe Investimentos, chamado Agrotech Venture Capital, dispõe de R$ 20 milhões para empresas inovadoras na área de agronegócios. Como se trata de um fundo de venture capital, do tipo que investe em empresas em estágio inicial e, portanto, riscos elevados, a intenção é destinar os recursos para cerca de oito companhias apenas. Dessa forma, será possível participar ativamente da gestão de cada uma. A expectativa de Fabio Carvalho, sócio da Orbe, é colocar a primeira companhia no portfólio no início do ano que vem. O fundo foi estruturado como um FIP (Fundo de Investimento em Participações), com um prazo inicial de dez anos. Os recursos foram captados com pessoas físicas e family offices.

Mais um produto que recentemente saiu do papel é o da Jardim Botânico Partners (JB). Neste caso, a idéia é investir em projetos que estejam em estágio ainda anterior, mais precisamente no chamado plano de negócios (business plan). Trata- se de um fundo de capital semente para empresas de base tecnológica localizadas em Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo. Com a denominação Novarum, foi lançado em julho e também está estruturado na forma de FIP.

Os potenciais negócios do fundo estão sendo procurados pelo sócio Levindo Santos entre incubadoras de empresas, universidades e fundações de amparo a pesquisas estaduais, como a Fapesp. Para ajudar na seleção, a JB conta com um parceiro, o Instituto Inovação, que fará uma espécie de diligência para se certificar de que as pesquisas realizadas nas universidades são realmente inovadoras e, mais que isso, têm potencial para se transformarem em bons negócios. Nesse tipo de investimento, o acompanhamento deve ser feito ainda mais de perto. O risco é elevado, já que as empresas ainda não têm um produto testado ou um mercado definido.

Fundo da JB Partners procura bons planos de negócios no setor de tecnologia e prevê participação de cotistas como consultores das companhias

A intenção é trazer no máximo quinze companhias para o fundo. O sócio da JB, José Luiz Osorio, planeja fazer parcerias com as empresas juniores de faculdades como o Ibmec e também contar com a participação dos cotistas do fundo (até agora, 23 pessoas físicas e uma empresa, a Coteminas) para viabilizar uma espécie de consultoria às empresas investidas. Se esse tipo de trabalho fosse feito por outros profissionais, os custos seriam muito elevados. Os cotistas já integralizaram R$ 5 milhões e o objetivo é atingir R$ 15 milhões até março do ano que vem e começar a se desfazer de parte da carteira daqui a três anos.

SEM MILAGRES – Os investimentos de longo prazo podem ser feitos tanto por meio da compra de ações negociadas em bolsa quanto pela participação em empresas de capital fechado. Mas o trabalho conduzido é fundamentalmente o mesmo: ambos encontram na governança corporativa uma ferramenta para garantir bons resultados. Além de aumentar a eficiência da gestão, a adoção de práticas de relacionamento saudáveis com os diversos públicos ligados à companhia favorece sua imagem. Uma forma de reconhecimento que pode se traduzir em preços mais elevados para as ações, além de facilitar a realização de lucros pelo fundo investidor na venda da sua participação.

Aqui se deve fazer uma ressalva dos próprios profissionais da área. “Apesar de ter um papel extremamente importante, a governança não faz milagre”, diz Bruno Constantino, da área de investimentos de longo prazo do Pactual. Se uma companhia tiver a melhor governança do mundo, mas seu negócio não for promissor e sólido, não irá muito longe. Considerando-se dois negócios com o mesmo potencial, contudo, a empresa com melhores práticas tende a ter um retorno mais rápido que a outra, ressalta.


ABERTAS VERSUS FECHADAS – Nas empresas de capital aberto, os limites de atuação dos investidores são dados pela regulamentação e pelos estatutos das companhias. Para ter representatividade na empresa, eles precisam comprar uma participação significativa do capital e ainda contar com a disposição dos controladores de melhorarem suas práticas de governança. Ou seja, os pequenos aplicadores têm menos chances de influenciar na gestão. Já nas empresas fechadas, a margem de manobra é bem maior. Antes de aportar seus recursos na companhia, os novos sócios negociam cláusulas para sua participação e regras de relacionamento com os controladores.

Para Fleck, da Rio Bravo, os empecilhos encontrados pelos investidores com foco no longo prazo são facilmente removíveis quando os controladores percebem que passaram a contar com minoritários de qualidade, que contribuem de forma decisiva para melhorar o resultado da empresa em vez de permanentemente criarem conflito. Outra diferença é que, nas companhias abertas, os investidores trabalham em cima de um modelo de governança já existente, enquanto, nas fechadas – freqüentemente empresas menores ou mais jovens – o desafio é construir esse modelo. Vê-se que, além de movimentar a vida dos executivos das companhias, os conceitos de governança corporativa criaram uma nova oportunidade de negócios para os gestores de investimentos. Resta conferir quais deles transformarão essa matéria prima em históricos efetivamente atrativos de rentabilidade.

Melhoria da gestão e mecanismos de defesa estão na pauta das negociações

A tarefa dos gestores que decidem implementar boas práticas de governança nas companhias em que investem não carece de detalhes. Vai desde a melhoria da prestação de informações até as formas de relacionamento com funcionários, fornecedores e comunidade.

Do ponto de vista prático, os investidores de longo prazo estão interessados em iniciativas como a instituição de conselhos de administração independentes, a distribuição dos trabalhos do conselho em comitês (de auditoria, remuneração e estratégia, por exemplo) e uma política de definição de metas e avaliação de resultados que faça o discurso em prol de uma boa governança sair da cartilha.

Na Eccelera, empresa de venture capital que procura oportunidades de investimento em companhias relativamente pequenas (faturamento abaixo de US$ 20 milhões por ano), um ponto sempre discutido é a separação do patrimônio do empreendedor e da empresa, afirma Rodrigo Leite, diretor de negócios da Eccelera. É comum encontrar uma mistura entre os recursos pessoais e da firma, deficiência também identificada por quem trabalha com investimentos de private equity, apesar do porte das empresas ser um tanto maior nesse último caso. “Definimos também o que é esperado do executivo e do acionista, mas existem muitas possibilidades de conflitos de interesse”, diz Leite. Uma das mais comuns é quando o empreendedor deseja se perpetuar na diretoria, mesmo quando fica evidente que ele não é a melhor opção como executivo. Outra possibilidade de conflito é quando o empreendedor perde o entusiasmo e quer tirar o pé do acelerador. Sabe-se que o nível de esforço para fazer crescer uma empresa é enorme, ainda mais quando investidores profissionais estão no seu encalço.

Outra parte do trabalho de governança dos investidores de longo prazo diz respeito ao estabelecimento de regras claras e justas de remuneração dos executivos das empresas em que aportam recursos. No Pactual, conta Bruno Constantino, considera-se que a remuneração deve variar de acordo com o desempenho no longo prazo: “O importante é ter uma postura que agregue valor”.

Além de medidas como essa, reflexo de uma postura ativa para melhorar a governança das companhias investidas, os gestores de fundos de longo prazo também adotam dispositivos que podem ser considerados defensivos. Aí se incluem instrumentos como o tag along (oferta compulsória pelas ações dos minoritários em caso de mudança do controle) e o drag along (venda obrigatória das ações pelos minoritários em caso de transferência do controle, por preço equivalente). Em alguns investimentos feitos pela Eccelera, por exemplo, existe uma cláusula que determina que os controladores da empresa contratem um banco para efetuar a venda da sua participação caso decida sair do investimento. Outro dispositivo que lhes dá garantias é a recompra obrigatória da participação da empresa de venture capital por meio de um fundo de resgate. Nesse caso, a empresa investida pode destinar determinado percentual dos seus lucros para uma “poupança” regularmente, de forma a prover liquidez para a participação do fundo se necessário.


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