Liquidez em pauta

Companhias trabalham para incrementar o volume de negócios com suas ações e garantir uma vaga nos cobiçados índices da bolsa paulista



ed13_p016-018_pag_2_img_001Tente imaginar o sonho de consumo de nove entre cada dez empresas de capital aberto no Brasil. Se você respondeu pertencer a um dos índices da Bolsa de Valores de São Paulo, acertou. De dois anos para cá, essas companhias têm adotado as mais variadas estratégias para integrar o seleto clube das ações com maior liquidez e valor negociado da Bovespa. Seja com a contratação de corretoras que mantenham ofertas de compra e venda para seus papéis (os chamados market makers), operações de grupamento, desdobramento ou mudanças no lote padrão de negociação, elas se movimentam para estar nos índices que servem de referência a muitos dos fundos de investimentos em ações que atuam no País e no exterior.

Mas para que vale tanto esforço? Em apenas uma palavra, visibilidade seria a resposta mais apropriada. Por desconhecerem o mercado local, muitos investidores estrangeiros costumam concentrarse na carteira mais tradicional, o Ibovespa, ao invés de analisar a fundo todas as opções disponíveis. Preocupados com a liquidez do mercado secundário na saída do investimento, fundos de pensão e de investimento acabam fazendo o mesmo, ainda que, muitas vezes, suas aplicações tenham horizonte de longo prazo. “O investidor se sente mais seguro na hora da venda, com menos risco de ver sua cotação despencar”, explica Paulo Gomes, analista da Global Invest Asset Management. Estar presente em um dos índices da Bolsa acaba sendo, portanto, uma forma mais garantida de estar também no portfólio dos investidores.

Para participar do Ibovespa, a ação de uma companhia deve atender a três condições: ter sido negociada em, no mínimo, 80% dos pregões nos 12 meses anteriores à formação da carteira; ter apresentado um volume de negócios superior a 0,1% de tudo o que foi movimentado na Bolsa; e estar incluída numa relação de ações cujo índice de negociabilidade (calculado pelo volume financeiro e número de negócios) represente 80% do total de negociações nesse período. A carteira teórica tem vigência de quatro meses para os períodos de janeiro a abril, maio a agosto e setembro a dezembro.

MUDANÇA DE LOTE – Foi prestando atenção nesses quesitos que a mineradora Caemi chegou lá. A empresa atribui a conquista de um maior volume de negócios à venda da participação da japonesa Mitsui para a Vale do Rio Doce, em setembro do ano passado, que lhe conferiu o prestígio do novo controlador. Em março, foi a vez de correr atrás da liquidez com a alteração da forma de negociação de seus papéis. O lote padrão mínimo para movimentação foi reduzido de 10.000 para 100 ações e a cotação, que era por lote de mil, passou a unitária. Como resultado, o investimento mínimo para quem quiser adquirir ações da Caemi, antes superior a 10 mil reais, caiu para a faixa de 1 mil reais. O movimento mensal, que não superava 2.500 negócios, saltou para 7.000 em março, chegou a 8.000 em julho e bateu novo recorde em agosto.

Neste último quadrimestre, a Caemi foi a única a entrar no Ibovespa. A composição do clube das mais líquidas sofreu um rearranjo, já que algumas companhias perderam espaço no volume de negócios e, conseqüentemente, abriram a fatia que limita os tais 80% do total de transações.

CONTRADIÇÃO – Se entrar no Ibovespa é difícil, sair dele também é pouco provável. Para felicidade das que lá se encontram, a Bovespa requer o cumprimento de apenas duas das três exigências para a manutenção das ações no índice. Como não é algo extraordinário para uma grande empresa estar presente em oito de cada dez pregões, as selecionadas precisam basicamente atingir uma quantidade suficiente de transações para corresponder a 80% do total negociado.

Mas o resultado da metodologia é uma contradição. Do lado de fora, pode haver empresas com índice de negociabilidade e de presença nos pregões igual ou superior ao dos papéis de algumas companhias do Ibovespa, mas que ficam impedidas de integrar o índice por não atenderem cumulativamente às três exigências. Cemig ON e Light ON, ambas no Ibovespa, possuem um índice de negociabilidade baixo, que hoje as impediria de entrar no indicador. Mas, como cumprem as duas outras exigências, desfrutam da companhia das primas ricas em liquidez. Ricardo Nogueira, superintendente da Bovespa, observa, contudo, que a presença de determinadas companhias não exclui a entrada de outras. “Não existe um número máximo de participantes”, afirma.

CRÍTICAS AO IBOVESPA – Com uma metodologia antiga, de 1968, o Ibovespa vem sendo alvo das críticas do mercado por essa metodologia que privilegia a permanência das que lá estão. José Roberto Pacheco, gerente de relações com investidores da Caemi, alerta, inclusive, que o índice pode reter companhias com perspectivas medíocres de desempenho futuro. “Se muitos investidores resolverem vender um determinado papel, ele acaba ganhando liquidez e mais espaço na carteira do índice.”

A Caemi vinha esperando há anos sua entrada no Ibovespa. Em abril, achou que seria a hora, mas o resultado acabou decepcionante. Só não foi pior porque ainda comemorava a boa notícia de janeiro, quando havia entrado para o IBrX-50, outro indicador da Bovespa, este com 50 ações.

Quem também passa a fazer parte do IBrX-50, a partir de setembro, são as ações do Unibanco e da Companhia Suzano de Papel e Celulose. Ambas ainda não integram o Ibovespa por não atenderem aos três quesitos previstos na metodologia. Mas se sentem confortadas por terem cumprido as duas exigências do IBrX-50: estar presente em 80% das negociações realizadas nos 12 meses anteriores à divulgação da prévia do indicador e entre as 50 ações da Bovespa com maior número de negócios e volume financeiro. Essas ações são classificadas conforme o free float, quantidade de papéis não pertencentes ao controlador e à disposição para negociação do mercado.

Para o presidente da Abrasca, Alfried Plöger, é fácil compreender as dificuldades das companhias para atender aos pré-requisitos dos índices. “Que mercado de capitais consegue se desenvolver num cenário como o nosso, de juros altos, elevado custo de operações e pesada carga tributária?”, questiona. Mesmo empresas com bons resultados financeiros, lembra Plöger, não conseguem obter um volume de negócios significativo quando comparadas com companhias de bolsas européias e norteamericanas. “No Brasil, a conquista de qualquer

índice já deve ser vista como um grande feito.” É a partir desse raciocínio que, devagar, a mineira Belgo vem comemorando a presença em novos indicadores. A empresa já pertence ao IBrX- 100 (que segue as mesmas normas do IBrX-50, com a diferença de que, nesse caso, a carteira é ampliada para 100 ações) e, neste último quadrimestre, passará a integrar o índice teórico do jornal Valor Econômico, conhecido como IVBX. “Nosso grande mal sempre foi a falta de liquidez”, reconhece Marcos Faria, diretor de relações com investidores da Belgo. Está entre os planos da companhia a mudança no lote mínimo de negociação, de 10.000 para 1.000 ações ainda este ano.

Outro exemplo de companhia que aposta na redução do lote para ganhar liquidez é a Iochpe Maxion. Ela estuda também a contratação de um market maker para tentar chegar ao IBrX-50 em 2006 e, por que não, ao concorrido Ibovespa. Sua estratégia é cuidar de melhorar o percentual de free float. Até 2002, tinha 18% do capital disponível para negociação no mercado – fatia que hoje alcança 24,8%. O esforço já valeu a conquista de um lugar no IBrX-100 a partir de setembro. “É o primeiro resultado de um planejamento que estamos desenvolvendo há cinco anos”, diz o coordenador de relações com investidores da Iochpe, Marcio Fenelon.

A baixa liquidez é, na realidade, um mal sofrido pela maioria das empresas brasileiras. Mesmo a Caemi, que conquistou seu lugar no Ibovespa, tem um volume financeiro equivalente a apenas 10% do que a Telemar negocia, por exemplo, segundo dados da Economática. A grande concentração de papéis nas mãos dos acionistas controladores e outros poucos investidores é a principal vilã das negociações no mercado secundário.

Na Suzano Papel e Celulose, recém-chegada na carteira do IBrX-50, mais da metade do percentual de ações livres para negociação está nas mãos de apenas três acionistas. “Se um deles resolvesse vender sua parte, o preço já despencaria”, afirma o diretor de relações com investidores da companhia, Bernardo Spizgel. Em novembro, a Suzano realizou emissões primária e secundária de papéis num valor de R$ 430 milhões, o que fez aumentar o número de acionistas de 1.200 para 3.500. O foco agora é chegar ao investidor individual por meio das corretoras, outra estratégia que pode favorecer a liquidez. “Se estivermos no Ibovespa em 2005, será conseqüência do nosso trabalho”, completa Spizgel.

VANTAGENS DO IBRX – Mas atenção companhias que colocam o Ibovespa nas metas para 2005: o bom e velho índice da Bolsa de Valores de São Paulo não é mais o mesmo. Analistas do mercado avisam que outros indicadores, em especial o IBrX-50, já estão sendo considerados vitrines mais interessantes na escolha das referências que orientam as carteiras de investimentos. Para esses especialistas, o que mantém o reinado do Ibovespa até agora é sua tradição. Afinal, trata-se de um indicador oficial cuja metodologia permanece inalterada desde a sua implementação, o que permite o acompanhamento da evolução do mercado de ações brasileiro.

O coordenador da Economática, Einar Rivero, observa que o Ibovespa ainda padece da concentração de ações de companhias de telecomunicações e energia. “Se um desses dois setores espirra, o índice todo pode ficar comprometido”, diz. Só os papéis de telecomunicações representam 46% do total movimentado em um dia pelas companhias do Ibovespa.

Diferentemente do Ibovespa, o Índice Brasil pondera o percentual de ações livres para negociação – o chamado free float – das companhias. Nem a própria Bovespa poupa elogios ao índice. “O IBrX, teoricamente, tem a melhor metodologia”, reconhece o superintendente de operações da instituição, Ricardo Nogueira.

O Índice Brasil teve sua divulgação iniciada em janeiro de 1997, numa carteira teórica composta por 100 ações selecionadas entre as mais negociadas na Bovespa. Ele avalia os papéis pelo número de negócios e o volume financeiro envolvidos, ponderados pelo respectivo free float. Em 2003, surgiu o IBrX-50, que segue os mesmos princípios do irmão mais velho, mas exige a presença das 50 ações selecionadas em 80% dos pregões. Já os papéis que compõem a carteira do IBrX-100 necessitam de uma freqüência menor, em 70% do total de operações.

Apesar das vantagens de um índice sobre o outro, parece existir espaço para todos no mercado. “Quanto mais opções para o investidor, melhor”, reforça Gomes, da Global Invest.


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