De volta à agenda

Empresas colocam o mercado de ações em suas estratégias de crescimento e já há até quem reverta planos de fechar o capital



ed13_p030-032_pag_1_img_001O mercado de ações está ganhando cada , vez mais espaço no plano estratégico das companhias brasileiras. Prova disso é o número crescente de empresas interessadas em estrear no pregão e de outras já listadas que reforçam seu papel na Bovespa ou até abandonam planos de fechar o capital.

Neste último caso encaixa-se a Rasip Agro Pastoril que, até pouco tempo atrás, planejava sair da Bolsa. O motivo era o mesmo de quase todas as empresas que optam por fechar capital: a relação custo versus benefício de se manter como companhia aberta. No final do mês de agosto, porém, os controladores da Rasip mudaram de idéia. E não só desistiram de deixar o pregão como resolveram fazer um aumento de capital. “Por ser a única empresa de agronegócio da Bolsa percebemos que nosso papel poderia ter uma grande atratividade em razão do atual potencial do setor”, explica Ademar José Kurmann, diretor de relações com investidores da Rasip.

Os recursos, R$ 12,5 milhões, captados por meio da emissão de 500 milhões de ações, serão utilizados, segundo Kurmann, para aumentar a capacidade produtiva de exportação e reduzir o endividamento da companhia, de R$ 15 milhões atualmente. A Rasip dedica-se à produção e comercialização de maçãs e mudas de macieiras e videiras e, por meio de sua controlada, a Randon Agropecuária, produz queijo e outros produtos derivados do leite. “Percebemos que, se formos mais atuantes no mercado de ações, os custos acabam compensando”, diz Kurmann.

A Mangels, empresa que atua no setor metalúrgico, também parece ter despertado para os benefícios de marcar presença no mercado de ações. Não por acaso está realizando freqüentes reuniões com analistas de mercado e gestores de fundos para divulgação da marca. Na década passada, teve um papel pouco expressivo no mercado de capitais. “Fomos pouco atuantes por causa das crises dos anos 90”, justifica Adelmo Felizatti, diretor de relações com investidores da Mangels. Fundada há 76 anos pelo imigrante alemão Max Mangels Júnior, a empresa, assim como grande parte das metalúrgicas, sofreu duros golpes com a abertura de mercado no governo Collor e conseguiu sobreviver a duras penas.

Atualmente, apenas um terço do capital da Mangels está nas mãos de acionistas minoritários. O restante pertence à família fundadora. O resultado é que, na hora de investir, a empresa acaba tendo de recorrer às instituições financeiras e ao seu próprio caixa. Recentemente, recebeu um empréstimo do BNDES para tocar um investimento de R$ 60 milhões. “Se tivéssemos uma relação mais estreita com o mercado poderíamos buscar esses recursos na Bolsa, que é a opção mais barata”, diz Felizatti. “Estamos fortalecendo nossa relação com investidores para, futuramente, recorrer ao pregão.”

Para ganhar maior expressão no mercado de capitais, e, conseqüentemente, mais investidores, a Mangels tenta desfazer a imagem de uma atividade excessivamente diversificada, com três unidades de negócio: fabricação de rodas para automóveis, laminação de aço e produção de botijões de gás. Felizatti avisa que, apesar da diversidade de produtos, a matéria-prima utilizada para a fabricação de todos eles é a mesma, o aço. Recentemente, a empresa também aderiu ao Nível 1 de Governança Corporativa e, futuramente, pretende contratar um formador de mercado (market maker). No ano passado, voltou a apresentar resultado positivo, de R$ 8 milhões. E gerou mais caixa: R$ 40 milhões em 2003, contra R$ 11 milhões três anos antes. Toda essa força-tarefa já surtiu efeito. O papel da companhia subiu de R$ 1,75 (a unidade) para R$ 7,50 – cerca de 40% do seu valor patrimonial.

CAPTAÇÃO À VISTA – A volta do interesse pelo mercado de ações está levando empresas já abertas a planejar grandes emissões para o segundo semestre. É o caso da Braskem, que anunciou o interesse de captar R$ 900 milhões nas bolsas paulista e nova-iorquina com um lançamento de ações.

No caso da companhia petroquímica, o mercado de capitais foi adotado como parte do plano estratégico de negócios desde a sua criação, em 2002, pelo grupo Odebrecht. “A empresa sempre encarou a Bolsa como parceira para seu crescimento”, diz José Marcos Treiger, diretor de relações com investidores da Braskem. Ele lembra que o processo de abertura de capital foi muito rápido e, por isso mesmo, administrar todas as informações divulgadas não foi fácil. “O primeiro release apresentado ao mercado revelava um prejuízo estrondoso”, conta Treiger. “Era como se tivéssemos que reformar um avião em pleno vôo.”

Mesmo tendo de dar satisfações para o mercado e contornar as informações pessimistas, diz o executivo, a companhia não estava disposta a iniciar suas operações tomando recursos a custo de empréstimos bancários. “No Brasil o risco país se transfere para as empresas e, no caso da Braskem, esse impacto poderia ser ainda pior por se tratar de uma companhia nova, sem histórico”, explica. Os recursos a serem captados na próxima emissão serão utilizados para reduzir o endividamento da Braskem.

Rasip Agropecuária cancela fechamento de capital e decide lançar novas ações em uma operação de R$ 12,5 milhões
Nossa Caixa planeja ingressar no pregão em meados de 2005 e quer profissionalizar sua imagem de banco estatal

Outra corporação que incluiu o mercado de ações no seu plano de negócios foi a Nossa Caixa. O banco do Estado de São Paulo pretende estrear no pregão em meados do ano que vem. A idéia surgiu no início de 2003, quando a Nossa Caixa ganhou uma nova administração. “Recebemos a tarefa de tornar a instituição mais eficiente e isso também inclui a abertura de capital”, diz Rubens Sardenberg, diretor financeiro do banco. Foi ele, junto com Eduardo Guardia, atual secretário da Fazenda do Estado, que levou a idéia para o governador Geraldo Alckmin. “Não houve nenhuma resistência”, afirma Sardenberg. “O governador não só gostou como encampou a idéia imediatamente.”

O primeiro objetivo da Nossa Caixa com a abertura de capital é conferir maior transparência a sua imagem de banco estatal. Daí a intenção de aderir ao Novo Mercado e de adotar, logo no início, as mais reconhecidas práticas de governança corporativa. Até lá, contudo, a Nossa Caixa precisa cumprir alguns objetivos estratégicos para fortalecer sua competitividade, como concluir as subsidiárias de vida e previdência, capitalização, seguros e consórcios, além de inaugurar uma financeira e uma gestora de recursos de terceiros. “A abertura de capital é a última etapa da revolução que estamos realizando no banco”, diz Sardenberg.

Ele acredita que, além de conferir maior credibilidade à instituição, a Bolsa servirá como uma espécie de blindagem contra possíveis interferências na administração da instituição, ocasionadas por trocas de governo. “Abrir capital é uma condição imprescindível para que o banco possa concorrer e crescer num mercado tão disputado como o dos dias de hoje”, afirma Sardenberg.

Newton Chiaparini, membro do conselho de administração da fabricante de autopeças Sabó, pensa da mesma forma. Para ele, a abertura de capital poderá ser uma opção para um crescimento mais sustentável no futuro. “Temos um plano ambicioso e não conseguiremos atingir nossos objetivos apenas com capital próprio”, diz Chiaparini. Presente em países como Alemanha, Áustria e Hungria, a companhia pretende construir mais uma fábrica no Brasil e se prepara para começar a produzir na China.

Assim como a Sabó, diversas companhias vêm percebendo que, para crescer, não precisam apenas de uma economia estável. Faz-se necessário também um mercado de capitais forte e algumas delas já se mostraram dispostas a construí-lo.


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