Duas almas

Nelson Eizirik

Bimestral/Retrato/Edição 102 / 16 de fevereiro de 2012
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No conto O Espelho, o escritor Machado de Assis faz uma investigação da existência humana por meio de João Jacobina, um personagem que relata como descobriu a ambiguidade de ser para si próprio e ser para o outro. A criatura humana, para ele, traria consigo duas almas: uma que olha de dentro para fora; e outra que olha de fora para dentro. Depois de ser nomeado alferes, Jacobina quase deixa que o título, alegórico de sua “alma externa”, domine sua “alma interior”.

O jurista Nelson Eizirik por acaso havia lido o conto na véspera da entrevista com a CAPITAL ABERTO, no livro Papéis Avulsos. Faz a menção apenas porque foi instado a citar seus escritores preferidos, uma lista que se estende quase contra sua vontade, como se temesse exibir erudição. Eizirik tem horror ao bacharelismo dos discursos empolados e cheios de citações, criticado em outro conto do livro, O Medalhão, e acredita que literatura e direito são “coisas diferentes”. Mas graças às perguntas para o quadro “3X4” desta coluna, conseguimos acessar sua “alma interior”, discreta e perfeitamente complementar à sua “outra alma”, como duas metades de uma laranja, imagem escolhida por Machado de Assis para o equilíbrio necessário à existência.

Na metade externa, o mais recente feito de Eizirik foi escrever os três volumes e as 2 mil páginas do livro A Lei das S/A Comentada, lançado em novembro. Ele ressalta que a empreitada só foi possível porque promoveu seminários internos com outros advogados do escritório, em que cada capítulo era discutido em profundidade e aperfeiçoado pelas sugestões. “Esse processo meio dialético tem muito a ver com a minha experiência no Ibmec e na CVM”, diz ele, referindo–se aos sete anos em que chefiou o núcleo de direito do Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais, no Rio, e aos dois como diretor da Comissão de Valores Mobiliários.

Foi no ambiente multidisciplinar do Ibmec e do mestrado feito na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC–Rio) que ele acabou finalmente conquistado pelo direito. Até então, as duas metades da laranja pareciam não se encaixar: “Detestei a faculdade”, conta. No colegial, ainda em Porto Alegre (RS), o jovem Nelson se destacava pelos poemas, contos e ensaios sobre literatura. Um deles, sobre um personagem de Érico Veríssimo, foi premiado com uma viagem de dez dias ao Rio, onde ele decidiu morar quando se graduasse.

A faculdade só não foi abandonada por causa do AI–5, decreto do governo militar que afastou professores do curso de Letras e Filosofia que ele pretendia fazer, também na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRS). “Achei melhor seguir uma carreira mais técnica e ficar no direito mesmo”, lembra. Mas a rebeldia continuava. Quando ele chegou ao Rio diplomado, com o cabelo na cintura, carregando o jornal O Pasquim e revistas de quadrinhos underground debaixo do braço, aconteceu o inevitável: não conseguiu emprego. “Eu era muito hippie”, admite. Depois de seis meses, decidiu tentar o mestrado na PUC e ganhou uma bolsa de estudos da Fundação Ford.

Além de teoria do direito, Eizirik estudou teoria política e economia logo no primeiro semestre, e a dinâmica entre as disciplinas o despertou. Convidado pelo professor de economia, Hélio Portocarreiro, foi ser seu assistente no Ibmec, dirigido por Horácio de Mendonça de Neto. Quando deu por si, o jovem advogado que nunca exercera a profissão estava nos Estados Unidos estudando a regulação do mercado de capitais. “Na volta, escrevemos um livrinho sobre controle de mercado, mostrando que era necessário criar uma CVM, esse tipo de coisa.” Era apenas uma das publicações do instituto, em que a liberdade de pesquisa gerava estudos pioneiros em diversas áreas. Alguns anos depois, ele daria aulas no Ibmec para a primeira turma de advogados aprovados no concurso da CVM — entre eles, Luiz Leonardo Cantidiano e Paulo Aragão.

E a rebeldia, onde foi parar? “Acho que a levei para a ideologia da proteção aos minoritários, que para mim funcionava como uma espécie de trava aos excessos do capitalismo.” E quanto aos versos e contos escritos na juventude? No terreno da “alma interior”, Eizirik se retrai e adota a postura reservada que os quase 40 anos no Rio, caminhando diariamente na praia, não alteraram. “Estou sempre tomando notas. Penso em um dia resgatar isso. Escrevi sobre literatura para a Getulio (revista da Fundação Getulio Vargas na qual publicava resenhas de livros) durante dois anos e adorei.”

Leitor de escritores contemporâneos, Eizirik também aprecia e coleciona artes plásticas. O escritório Carvalhosa & Eizirik, com vista para a Baía de Guanabara, é decorado com obras de sua coleção. No corredor, há um quadro pintado por sua mãe, dentista que se tornou artista plástica. “Não é um negócio. Compro arte porque gosto e porque tenho muitos amigos artistas plásticos.” Artistas também advogados? “De forma alguma; isso é outro mundo.”

Os dois mundos, ou as duas almas, convivem no escritório de advocacia, que ele só quis montar depois de sair da CVM, em 1989. Advogado militante, manteve o interesse pelos estudos e pela atividade acadêmica: deu aulas e formatou o curso de direito da Faculdade Cândido Mendes de Ipanema, no Rio. Durante 15 anos, participou dos seminários promovidos pela International Faculty for Corporate and Capital Market Law and Securities Regulation, da Universidade da Pensilvânia. No ano passado, o grupo voltou a se reunir, dessa vez num encontro social na França, ao qual Nelson compareceu acompanhado da mulher Flávia. “Eu a conheci no elevador, há dez anos”, toma a iniciativa de contar. “Sempre fui muito racional, não acreditava nessas coisas, mas… foi amor à primeira vista”, revela, oferecendo–nos mais um vislumbre da sua “alma interior”.




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