Chamado para fazer o bem

Paulo Oliveira

Bimestral / Retrato / Edição 96 / 1 de agosto de 2011
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O presidente da Brasil Investimentos & Negócios (Brain), Paulo Oliveira, é atento às palavras. No dia a dia da instituição criada para transformar o País em centro financeiro internacional, corrige quase todo texto que lhe chega às mãos. “Às vezes, fica até chato”, reconhece. O esmero poderia ser atribuído à influência da mãe professora de português, já que sua formação é engenharia, mas logo se percebe que seu cuidado vai muito além da ortografia. Oliveira conhece as palavras a fundo, seus significados, e sabe como evitá-las ou utilizá-las, inclusive para juntar as duas atividades às quais se dedica com afinco e sucesso: executivo de mercado e líder de uma organização cristã.

A palavra “vocação”, por exemplo, usada displicentemente pela repórter no começo das entrevistas para esta coluna, ganha uma versão profunda por causa da origem latina. “Vocação vem de ‘vocatio’, que significa chamado. É a razão pela qual estou na Brain”, diz ele, explicando que antes de compreender a verdadeira vocação a maioria das pessoas vivencia as fases de ocupação (trabalho em troca de pagamento) e profissão (trabalho no que gosta de fazer).”

Neste último caso, existe uma realização, mas pequena. Até porque todo profissional, quando começa a crescer, de certa forma abandona a profissão.” Antes de passar pelas fases de “ocupação” e “profissão” numa carreira ascendente no setor de bancos, Oliveira demonstrava vocação para liderar ações sociais realizadas em sua comunidade religiosa. Hoje, essa liderança é visível nas reuniões em que busca integrar interesses e mercados da América Latina.

A menção à religiosidade, porém, suscita nova reflexão semântica, antes de adentrarmos na rotina da Brain: diferentemente do que ocorre com “vocação”, Oliveira não gosta da palavra “religião”. “O significado é até interessante, de religar o homem com Deus. Mas religião como estrutura religiosa remete a dominações, igrejas. Por isso penso em cristianismo, não em religião.”

Ressalva feita, continuamos o passeio pelas palavras escolhidas com precisão pelo presidente para conciliar ideias, superar divergências e viabilizar o sonho da prosperidade econômica e social. “A relação de forças entre dois países não impede que exista espaço para um ganha-ganha”, argumentou, recentemente, com um ministro irritado e desconfiado em relação ao tamanho do Brasil. “Estamos com a faca e o queijo na mão, vivendo a melhor oportunidade de mudar nosso país de patamar.”

Foi a sua capacidade de articulação nas reuniões entre as três entidades que formatavam o projeto da Brain — BM&FBovespa, Febraban e Anbima — que chamou a atenção do headhunter contratado para buscar no mercado um CEO para a entidade. “Tinha de ser alguém inclusivo, e ele notou o meu envolvimento”, conclui Oliveira, então diretor de desenvolvimento e fomento de negócios da BM&FBovespa. A solução “caseira” para a Brain acabou indo ao encontro também de suas ambições pessoais. Não as financeiras, mas a de cumprir seu propósito de vida baseado nos próprios valores. “Minha trajetória é diferente nisso: não busco o maior salário. Para mim, cumprir a vocação tem valor, é algo mensurado. Meus valores familiares e minha visão de mundo foram muito importantes para eu não me perder no início da carreira em um ambiente altamente yuppie, no qual tudo era medido pela capacidade de fazer dinheiro.”

Depois de conciliar as faculdades de física e de engenharia civil na Escola Politécnica da USP, o jovem criado em uma família extremamente intelectualizada viu-se dividido entre duas propostas de estágio: numa grande empresa de engenharia e no Banco Francês e Brasileiro (BFB). Escolheu a engenharia, numa época em que as oportunidades eram raras na área, mas, quando ia ser efetivado, surpreendeu-se com um conselho do chefe para não aceitar a vaga e “abrir o seu espectro”. “Foi a mão de Deus ali”, lembra Oliveira, que acabou indo para o BFB trabalhar na equipe de Cássio Casseb (mais tarde, presidente do Banco do Brasil) e ganhando, na prática, a formação de tesoureiro de banco. De operador de mesa aos 25 anos a diretor financeiro do Bank of New York/Credibanco, acabou fascinado pelo ainda incipiente mercado de derivativos, quando a BM&F dava seus primeiros passos.

“Gostei porque exigia bastante matemática financeira e estatística. Eram tempos heroicos, com planos econômicos, e ninguém sabia como precificar uma opção”, recorda-se. A carreira foi combinada com a participação em câmaras e órgãos internos da BM&F, e também com projetos sociais, incluindo a fundação da escola cristã do método “educação por princípios”, em que seu filho estudou. Em 2000, a filantropia acabou atraindo o executivo para um período sabático que quase o tirou definitivamente do mercado. “A demanda por projetos sociais é enorme, e eu tinha começado a estruturar uma consultoria de processos para dar profissionalismo a essas organizações”, explica. Depois de percorrer o mundo por quatro anos e fundar o Instituto Renovo, um guarda-chuva de obras sociais, Oliveira se surpreendeu com o convite do presidente Edemir Pinto para formar o Comitê de Ética da BM&F. “Eu estava afastado do mercado, mas precisavam de mim”, conta ele, para justificar sua volta.

Com a visão do processo de negócios de sua consultoria e as mudanças em curso nas bolsas, Oliveira se credenciou para comandar o Programa de Qualificação Operacional na BM&F, preparando a indústria de corretagem para um ambiente de competição internacional. Depois da desmutualização e da fusão das bolsas, ele assumiria uma diretoria executiva na BM&FBovespa, até ser notado pelo head hunter que buscava a liderança certa para a missão da Brain. Uma missão, reconhece, que encontrou muitos desafios no primeiro ano da entidade: “De um ano para cá, o mundo piorou, e isso se refletiu em medidas internas no Brasil. Mas temos a percepção de fazer algo histórico e de que há uma janela de oportunidade para o continente. A questão é não deixar a janela passar”. No que depender de sua habilidade, as oportunidades do mercado brasileiro e das suas obras sociais não serão desperdiçadas.


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