As missões de um médium

Eduardo Pocetti

Bimestral/Retrato/Edição 103 / 1 de março de 2012
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A quarta–feira de Eduardo Pocetti transcorre condizente com a rotina de alto executivo do setor de auditoria. Além das atividades como sócio da KPMG, incluindo o acompanhamento da integração dos mil funcionários que ele comandava até um ano atrás na BDO Auditores, ele ainda dá conta da agenda de presidente do Instituto dos Auditores Independentes do Brasil (Ibracon) desde janeiro. São várias reuniões e compromissos ao longo do expediente. Alguém mais atento, porém, pode reparar que, nesse dia da semana, Pocetti faz uma alimentação bem leve, nunca bebe álcool e evita debates mais acalorados. À tardinha desacelera o ritmo e ruma para um “segundo expediente”: o centro espírita onde faz trabalhos de “desobsessão”, uma espécie de exorcismo para afastar espíritos inferiores de pessoas com perturbações emocionais e mentais.

“Só falo de espiritismo se me perguntarem”, diz Pocetti, explicando por que pouca gente no mercado de capitais conhece seu outro “trabalho”. “Jamais provoco essa conversa.” Não que tenha constrangimentos com o assunto. Ao contrário de quando descobriu sua sensibilidade mediúnica, 35 anos atrás, ele diz que o espiritismo deixou de ser motivo de reservas quando Chico Xavier tornou–se blockbuster no cinema. “O problema é que as pessoas só querem saber dos fenômenos, não da doutrina kardecista.”

Mas foram os fenômenos, observados ainda na infância, que o levaram a estudar a filosofia e ler os livros escritos pelo educador francês Allan Kardec no século 19. Como vinha de uma família católica — chegou a ser coroinha em missa rezada por Dom Paulo Evaristo Arns —, o jovem Eduardo nem sequer procurava explicações para as “coisas estranhas” que às vezes via, ouvia ou sentia. Até que comentou sobre o assunto com um amigo da faculdade de economia: “Minha mãe tem um centro espírita. Você devia ir lá”, aconselhou ele, para espanto de Eduardo, que achava a mãe do colega um tanto “normal” para uma espírita. O centro, no bairro de Santana, zona norte de São Paulo, é aonde até hoje Pocetti vai toda quarta–feira.

Assim como a carreira profissional de auditor deve dar uma guinada daqui a dois anos e meio, já que a aposentadoria é obrigatória aos 60 anos na KPMG, também na trajetória espiritual Pocetti vive a expectativa de mudança: ele já pediu a seus espíritos mentores para deixar as sessões de desobsessão (o grupo tem oito médiuns, contando com ele) e passar às curas. “Estou sendo testado”, conta. Funciona como uma espécie de plano de carreira? “De certa forma. Vamos ver se sou aprovado!”, confirma, achando graça da comparação. A “promoção”, no entanto, não é uma questão de competência mediúnica, mas de equilíbrio emocional e moral, explica ele.

A competência como auditor e líder empresarial — talvez com a ajuda do equilíbrio dado pelo espiritismo — já foi mais do que avalizada pela trajetória ascendente e sem rupturas desde 1976, quando ele deixou a vaga de escriturário na Caixa Econômica do Estado de São Paulo, conquistada em concurso público, para ser trainee na Price Waterhouse Peat (Peat que hoje é o P da KPMG). “Na época, minha família ficou preocupada por eu estar abrindo mão de uma estabilidade.” Criado em ambiente simples de classe média, jogando futebol em campos de várzea da zona norte paulistana, Pocetti foi dos poucos garotos do bairro a valorizar o estudo e investir numa carreira universitária. “Quando descobri o que era a profissão de auditor, na Price, achei–a maravilhosa e mudei para a faculdade de ciências contábeis.” Depois, graduou–se também em economia, fez pós–graduação e apostou no treinamento contínuo durante a carreira que culminaria na presidência da BDO Trevisan, incorporada pela KPMG no ano passado.

Já na presidência do Ibracon, Pocetti abraçou uma nova missão. Embora não tenha a pretensão de tornar o ofício de auditor tão popular quanto aquele que era seu sonho de infância — ser jogador do Corinthians —, ele acredita que a profissão poderá ser mais compreendida e respeitada pela sociedade no futuro. “Minha missão hoje no instituto é mais corporativa do que técnica”, afirma. O mesmo termo é usado para esclarecer o seu trabalho no centro espírita: “Para os médiuns, receber espíritos e psicografar é uma missão, um trabalho às vezes árduo e que não será mais necessário daqui a cem ou duzentos anos”. Isso porque, explica ele, graças à “evolução moral” na Terra, os espíritos inferiores passarão a encarnar em outros planetas do universo. Os seus conhecimentos sobre a doutrina espírita e sua ligação com a física quântica (“Todos os fenômenos, se não foram, serão um dia explicados pela ciência”), no entanto, raramente são solicitados quando alguém do ambiente profissional descobre o seu “lado espiritual”. Em geral, as pessoas querem passes ou ajuda para se comunicar com parentes mortos. “Já dei muito passe, mas não faço mais. Só no meu centro.” Quanto à comunicação com os espíritos desencarnados, o contato é bem mais difícil do que sugerem os filmes de Hollywood. “Não existe a possibilidade de contatar quem eu quiser, não funciona assim. Embora, neste momento, esta sala esteja cheia de espíritos”, diz ele durante a entrevista, em seu escritório. A repórter, leiga, se encolhe na cadeira, mas Pocetti tranquiliza: “Como diz Chico Xavier, o mal não existe; ele é criação do próprio homem”.




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