Aptidão para unir

Manoel Félix Cintra Neto

Bimestral/Retrato/Edição 97 / 1 de setembro de 2010
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O presidente do conselho de administração do banco Indusval & Partners, Manoel Félix Cintra Neto, é um conciliador. Dentre outras façanhas, chegou até a aproximar dois ex-presidentes da Bolsa de Mercadorias & Futuros (BM&F) que mal se falavam — Eduardo da Rocha Azevedo e Luiz Masagão — ao se candidatar para comandar a casa. Uma vez empossado, “não conseguia sair”, em função dos apelos dos corretores. Reelegeu-se por nove anos. “Os grupos se uniram, as coisas iam bem, havia muito que fazer”, justifica. Mas a competência para criar harmonia teve pouca utilidade no momento mais difícil desse executivo transformado em banqueiro pelo sucesso no mercado financeiro. Diante de senadores hostis e desinformados sobre operações com futuros, Cintra Neto foi massacrado na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) dos bancos, em 5 de maio de 1999. “Na volta, eu me sentia como se tivesse saído de uma luta com Mike Tyson.”

O sentimento de impotência no retorno de Brasília (“Percebemos que nosso problema era a falta de comunicação, porque o público não sabia para que a instituição servia”) seria compensado, sete anos e meio depois, pela sensação de dever cumprido em outro voo.
Dessa vez, Cintra Neto recorda-se do avião fretado em Nova York às pressas, depois de 18 dias de road show e da definição do preço de R$ 20 por ação na oferta pública inicial da BM&F marcada para o dia seguinte, 30 de novembro de 2007. “Negociamos o preço exaustivamente, perdemos o voo e conseguimos fretar um jato. Estávamos todos juntos, diretores e superintendentes, e nessas alturas eu já sabia quanto cada corretor iria ganhar. Foi uma viagem de glória.”

As aventuras e desventuras de Cintra Neto em suas atividades de conciliador encheriam, sozinhas, um livro. Uma biografia que poderia começar pelo primeiro dia na faculdade de economia, quando se tornou presidente da comissão de calouros no Mackenzie para evitar as barbaridades dos trotes, e terminar com o desafio de viabilizar um fundo para ajudar o Corinthians, clube do qual é vice-presidente há dois anos. Passaria por cargos em entidades do mercado financeiro e mostraria sua atuação em conselhos tão diferentes como o do Museu de Arte Moderna (MAM) e o do Comitê Olímpico Brasileiro (COB).

Sua trajetória de vitórias profissionais e pessoais pode ser simbolizada pela coleção de automóveis guardada em um galpão cercado de prédios, a poucos metros da movimentada avenida Juscelino Kubitschek. A paixão por carros veio de jovem, quando sonhava em dirigir um Ford Mustang ou um Chevrolet Camaro. “Mas não havia a menor possibilidade financeira naquela época”, diz. Seu interesse ia além das novidades da indústria. Tanto que, ao ter condições de trocar o seu Fusca 1974, tratou de vendê-lo para a irmã, com a condição de que ela jamais o repassasse a outro comprador senão a ele próprio. O carro da esposa, um Fusca 1973, foi objeto de um trato idêntico com o sogro.

Hoje, os dois fusquinhas estão novamente juntos no galpão, como ficavam nos primeiros dias do casamento. Ao lado, modelos como um Oldsmobile 1962, um Opel 1968 e um Ford Fairlane 1966, além do Mustang e do Camaro, todos restaurados e alvos de olhares curiosos nas ruas de São Paulo. “É que nem cachorro, tem que levar para passear”, brinca. “As pessoas os enxergam com admiração, diferente da inveja de ver um carrão importado”, afirma ele, que também tem um Jaguar e pretende comprar uma Ferrari.

Enquanto o acervo crescia, Cintra Neto colecionava também boas tacadas profissionais e financeiras, que ajudariam outras pessoas a realizar sonhos de consumo. “É uma satisfação que tenho: por onde passei, deixei muita gente rica. Aliás, é uma satisfação saber que é possível ficar rico no Brasil sendo honesto”, ressalta. O banqueiro, também conhecido no mercado como “rei das fusões” por conta das parcerias e sociedades que promoveu — as últimas resultaram na BM&FBovespa e no Indusval & Partners —, lembra da primeira opinião que colheu sobre o trabalho em bancos: um professor de contabilidade lhe garantiu que seria uma atividade horrorosa.

Mesmo assim, ainda na faculdade, acabou selecionado para um banco de investimentos que se formava no Brasil — o Bozano, Simonsen —, num movimento que denotava a modernização do sistema financeiro (“O professor tinha certa razão: o sistema antes era retrógrado”). Para ser efetivado, teve que abrir mão de uma carreira política que se desenhava na universidade, em que era presidente do diretório acadêmico. A veia política, observa hoje, encontraria novos caminhos para se manifestar, em outras atividades ou nas lideranças de classe.

Depois de dez anos no Bozano, o então diretor responsável pela Região Sul foi convidado para ser diretor-superintendente de um novo banco de investimentos, o Multiplic, que iniciava com um patrimônio de US$ 5 milhões. A venda para o Lloyds Bank 17 anos mais tarde, por US$ 1,2 bilhão, resultou em um polpudo prêmio para o executivo, que resolveu investir no sonho do banco próprio.

A instituição financeira começou com o nome de Corretora Multiplic, já que havia comprado uma corretora e conseguira o direito de usar por três anos a marca do banco vendido para o Lloyds. Quando um cliente pediu, no anúncio da emissão que faria, para não colocar a palavra “corretora” no jornal, Cintra Neto reviu a imagem que tinha dos bancos. “Brasileiro adora banco. Confia. Ao contrário do industrial ou do comerciante, que está sempre se queixando para não gerar inveja, o banqueiro precisa mostrar uma imagem de vencedor, de ganhador.”

É sem medo dessa imagem que o banqueiro conta uma última aventura. Ele acabara de fazer a fusão da Multiplic com o banco de investimentos Stock Máxima quando soube que o Santander pretendia se desfazer da financeira recém-montada com profissionais do mercado indicados por ele. Na beira da piscina do Club Med, na Bahia, esperando o réveillon de 2000 junto com amigos banqueiros, ele foi avisado de que a decisão evoluíra para o fechamento da financeira, com altos custos de demissão, para evitar a venda a bancos concorrentes. Resolveu, então, fazer uma proposta de compra, com valor simbólico. Do outro lado da linha, o presidente do Santander aceitou, com a condição de que ele levasse imediatamente a carteira de R$ 150 milhões. Sem captar havia quatro anos, Cintra Neto conversou com Masagão e outros amigos no resort e fechou o negócio. “Assinei um papagaio pessoal no dia 2 de janeiro”, conta, referindo-se à nota promissória que emitiu para pagar a conta. “Aquilo foi um sucesso”, recorda. Mais uma vez, ele tinha unido interesses com competência.




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