A retomada

Por que Blackrock, Franklin Templeton, Pimco e Warburg Pincus estão otimistas com o Brasil



Ilustração: Beto Nejme / Grau 180

Ilustração: Beto Nejme / Grau 180

Apesar da crise econômica e política — ou talvez justamente por causa dela —, o Brasil está voltando a despertar o interesse de investidores estrangeiros. Alguns, tradicionalmente mais otimistas, só enxergam o que há de positivo. É o caso de Mark Mobius, gestor da Franklin Templeton. “Estou otimista porque os fundamentos do País ainda são muito bons.” Outros investidores já são mais comedidos. “Para que o Brasil cresça e prospere de maneira sustentável, a política fiscal deve ser crível”, ressalta Michael Gomez, diretor da gestora Pimco.

Confiantes no afastamento definitivo da presidente Dilma Rousseff, os investidores apostam na diminuição da volatilidade dos mercados e no retorno do crescimento da economia brasileira. “Num primeiro momento, a retomada está associada ao uso da capacidade instalada que ficou parada”, avalia Piero Minardi, sócio da Warburg Pincus. Problema resolvido? De jeito nenhum. Para Minardi, “uma recuperação mais consistente depende de os bancos voltarem a dar crédito”, uma parte da equação que não pode faltar. Já para Will Landers, gestor da BlackRock, é “depois do impeachment que começa o trabalho duro”.

Mobius, Gomez, Minardi e Landers conversaram com a capital aberto entre o fim de junho e começo de agosto. As próximas páginas desta reportagem, comemorativa dos 13 anos que a CAPITAL ABERTO completa em setembro, são dedicadas às opiniões desses renomados gestores sobre a atual situação política e econômica do País.

“Os fundamentos são bons”

Em artigo publicado há alguns meses na imprensa, Mark Mobius, presidente executivo do Templeton Emerging Markets Group, afirmava: “As pessoas acham difícil acreditar que a situação vai melhorar em um mercado oprimido como o do Brasil, mas percebemos que, em geral, períodos de pessimismo extremo marcam o momento em que um piso está próximo, e esse é o momento em que procuramos investir”. Hoje, Mobius diz acreditar que, enfim, o piso foi atingido — e que os fundamentos da economia brasileira vão assegurar bons resultados para quem se arriscar. Além disso, em sua visão, o Brasil é hoje “provavelmente o país mais progressista do mundo para enfrentar problemas relacionados a governança corporativa, tendo em vista a agressiva campanha anticorrupção em andamento”. A seguir, os principais trechos da conversa.

Tendência ascendente
“O mercado brasileiro já teve uma recuperação e, por isso, pode cair novamente, mas a tendência de mais longo prazo é ascendente. E por longo prazo entendo os próximos três anos. Podemos dizer que o piso já foi atingido. Estou otimista porque os fundamentos do País ainda são muito bons: população jovem, batalha efetiva contra a corrupção, recursos naturais abundantes, base industrial grande e crescente, além de bom potencial exportador. O sentimento entre os investidores está negativo de maneira geral. A recuperação, portanto, será vista como uma surpresa.”

Pessimismo exacerbado
“Todo mundo está esperando uma retração de cerca de 3% do PIB neste ano, mas essa visão pode ser pessimista demais. É possível que haja um encolhimento menor do que o previsto. Além disso, dada a contração da economia do País nos últimos tempos, a base mais baixa fará com que qualquer crescimento seja maior do que o esperado em 2017. A melhora pode decorrer da recuperação das exportações e do avanço dos preços das commodities, assim como de uma retomada do consumo.”

Olhos no varejo
“Os setores ligados ao consumo estão entre os melhores para se investir no Brasil atualmente, já que muitas das ações de companhias orientadas a esse segmento estão sendo vendidas a preços atrativos. Também acredito que o valor das commodities já atingiu um patamar mínimo. O Brasil, portanto, pode esperar obter preços melhores na venda de mercadorias de baixo valor agregado daqui para a frente.”

“É possível que haja neste ano um encolhimento do PIB menor do que o previsto”

Mark Mobius, presidente executivo do Templeton Emerging Markets Group

Mark Mobius, presidente executivo do Templeton Emerging Markets Group

Retomada ampla
“A economia brasileira se saiu pior do que as de outros países emergentes nos últimos dois anos. Mas acredito que nos próximos anos a recuperação será substancial e muito surpreendente. Não existe um ponto de inflexão específico, mas posso afirmar que será uma retomada ampla.”

Reformas
“O principal desafio do País está na área política, por causa da corrupção e das ineficiências que existem. Mas se houver vontade política para implementação de reformas, a situação econômica provavelmente vai melhorar. O impacto [das medidas econômicas tomadas pelo governo do presidente interino Michel Temer] deve ser imediato, uma vez que, se as metas propostas forem efetivamente cumpridas, os fluxos de investimento vão começar a aumentar. E o nível de emprego vai subir junto com eles.”

Combate à corrupção
“Tendo em vista a agressiva campanha anticorrupção em andamento, o Brasil é provavelmente o país mais progressista do mundo no enfrentamento de problemas relacionados a esse assunto. A chave está nos sistemas de vigilância que estão agora em funcionamento, a partir do trabalho dos procuradores.”

“O Brasil ainda vai rastejar um pouco”

Diferentemente de alguns de seus colegas estrangeiros, Piero Minardi, sócio-diretor da Warburg Pincus no Brasil, adota um tom cauteloso ao se referir à economia brasileira. Para ele, se disposta em um gráfico, a curva da recuperação tenderia a assumir um formato de “u” — com um piso que dura mais tempo do que se tivesse a forma de um “v”. “Ainda vamos rastejar um pouquinho mais no fundo do poço”, brinca. Mas não o suficiente para alterar radicalmente os planos da Warburg Pincus no País.

Seu objetivo pessoal é alocar algo como US$ 700 milhões no Brasil nos próximos três ou quatro anos. Atualmente, a Warburg possui cerca de US$ 1 bilhão investidos em ativos brasileiros, o equivalente a 2,5% dos recursos sob sua gestão. Os alvos são empresas de setores como os de consumo, saúde, educação e agronegócio, em que as oportunidades são abundantes. Os padrões de governança corporativa locais, avalia Minardi, dão mais segurança ao investimento nesses setores em comparação com outros países emergentes. E, com o desenrolar da Operação Lava Jato, a tendência é de que essas práticas sejam reforçadas. “Temos uma chance única de reinventar o Brasil”, afirma. Confira abaixo os principais trechos da entrevista.

Piero Minardi, sócio-diretor da Warburg Pincus no Brasil

Piero Minardi, sócio-diretor da Warburg Pincus no Brasil

Cenário incerto
“É difícil dizer que o pior já passou. Na verdade, isso só é válido até que aconte