Alimentos e bebidas

Brasil entre os gigantes

Especial/Relações com Investidores/Reportagem/Edições/Temas / 1 de setembro de 2006
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Você reparou, nos últimos anos, o quanto aumentou o número de pratos prontos e semi-prontos nos balcões dos supermercados? Essa foi uma tacada certeira das duas principais empresas do setor alimentício no Brasil que têm ações em bolsa — Sadia e Perdigão. Elas se mostraram sintonizadas com a demanda crescente dos consumidores por lanches rápidos e práticos, investindo em massas e pizzas. A Perdigão, por exemplo, lançou a categoria de massas em 1998 e hoje detém 37,6% do mercado total. As pizzas vieram no ano seguinte e atualmente têm um terço do mercado.

Apesar da diversificação, a produção de carnes continua sendo o principal negócio do setor de alimentos. Em 2005, a produção brasileira foi de 20,9 milhões de toneladas, com consumo anual estimado em 80 quilos de carne per capita. O faturamento bateu R$ 52 bilhões, dividido entre os segmentos bovino, de frango e suíno. Sadia, Perdigão e Avipal são as principais competidoras, responsáveis por fazer do Brasil o maior exportador mundial de aves e bovinos e o quarto maior em suínos.

No mundo, a produção de carne bovina foi de 52,2 milhões de toneladas no ano passado, liderada por Estados Unidos, Brasil e União Européia, nesta ordem. No segmento de carne de frango, a produção global chegou a 58,7 milhões de toneladas, encabeçada por Estados Unidos, China e Brasil. Já a carne suína totalizou 94,2 milhões de toneladas em 2005, sendo que a China respondeu por mais da metade da produção (53%), seguida por União Européia e Estados Unidos.

Se a diversificação aumentou a receita das empresas, não foi suficiente para diminuir os problemas que o setor vem enfrentando no exterior: as restrições ao consumo de aves — devido à gripe aviária que atingiu países da Europa, Ásia e África — e à importação dos suínos brasileiros pela Rússia, por conta da febre aftosa. Por serem tão competitivas lá fora, é fácil entender porque uma restrição ao comércio mundial impacta diretamente os resultados das companhias brasileiras e, portanto, o valor das suas ações. No caso da Avipal, a empresa foi ainda mais afetada pela gripe aviária porque não tem uma marca tão forte quanto Sadia e Perdigão, na opinião dos analistas. Ironicamente, no final dos anos 90, uma outra doença que causou temor mundial — a encefalopatia espongiforme bovina (BSE, na sigla em inglês), mais conhecida como “vaca louca” — atacou o gado de países europeus e abriu brechas no comércio internacional para que países do Cone Sul, especialmente o Brasil, expandissem suas exportações.

Ainda assim, o País conta com vantagens em relação a outros países na produção de carnes: é auto-sufi ciente em milho e soja (usado para alimentar as criações); tem uma área signifi cativa para expansão do agribusiness (ocupou até agora cerca de 70 milhões de hectares, de um total de 400); os grandes concorrentes no mercado internacional, que dependem de subsídios, estão diminuindo cada vez mais a produção; sem falar no potencial de crescimento no mercado doméstico, a partir do aumento do poder de renda da população.

Além disso, as grandes empresas vêm se mostrando duras na queda, apesar dos reveses: em 2006, a Perdigão fechou a compra do controle da Batávia por R$ 110 milhões, entrando, portanto, no segmento de lácteos, enquanto a Sadia anunciou a construção de novas plantas no Mato Grosso para fabricar produtos assados e grelhados para exportação.

BEBIDAS — O investidor que optou por aplicar recursos no setor de bebidas em 2006 teve um motivo a mais para se decepcionar com o pífio desempenho da Seleção Brasileira durante a Copa da Alemanha: as vendas de cerveja não decolaram. Para os fabricantes de bebidas, a Copa do Mundo costuma ser um “segundo verão”: isso porque, numa época de temperaturas baixas no Brasil (junho e julho), a animação da torcida acaba se refletindo em vários litros de cerveja — coisa que não aconteceu no evento de 2006, em parte, por causa da Seleção, que deixou o campeonato nas oitavas de final.

Da mesma maneira que o setor de alimentos, o de bebidas está estreitamente vinculado ao maior poder de consumo da população. Portanto, perspectivas de aumento do rendimento médio salarial costumam influenciar diretamente, assim como o crescimento da produção da indústria. Além disso, o setor mostra-se bastante sensível às variações do clima: quanto mais quente, melhor para este mercado, que tem picos de consumo durante o período que combina festas, férias e verão (dezembro e janeiro), e quedas nos meses frios (junho e julho). O único grande competidor com ações em Bolsa é a Ambev que, no entanto, está à frente “apenas” no segmento de cervejas (a maior do setor). A liderança no mercado nacional de refrigerantes é da Coca-Cola, enquanto que o segmento de água tem como principal player o grupo brasileiro Edson Queiroz.

Em cervejas, a Ambev detém sozinha 68% de participação. Outros competidores importantes são Schincariol, Femsa/Kaiser, Petrópolis e Cintra. O País é o quinto maior produtor mundial de cerveja, atrás da China, dos Estados Unidos, da Alemanha e da Rússia. Conta com 70 fábricas e uma capacidade de produção estimada em 13,1 bilhões de litros. A principal matéria-prima usada na fabricação é o malte, derivado da cevada, cuja importação vem diminuindo por conta dos incentivos oferecidos à agricultura local em 2004 e 2005. Os fabricantes, por sua vez, investem em produtos premium, de maior valor agregado, buscando o aumento da rentabilidade e fazendo frente ao consumo de vinho e outras bebidas alcóolicas.

No caso da Ambev, existe também um atuação no mercado internacional, consolidada depois da fusão com a belga Interbrew, em 2004. Com exceção dos Estados Unidos e do México, a companhia está em todo o mercado americano, com uma participação expressiva no Canadá (30%). Como estratégia recente no Brasil, passou a operar a sua distribuição, até então terceirizada. A distribuição é um aspecto chave no setor de bebidas, e deve assegurar a rápida chegada do produto aos pontos-de-venda espalhados por todo o País.

O Brasil é o terceiro maior mercado de refrigerantes do mundo. Perde apenas para outros dois países do mesmo continente, Estados Unidos e México. Os refrigerantes de sabor cola são os preferidos (51,1% do consumo interno), seguidos pelos de guaraná (24,4%). Isso explica o fato de a multinacional Coca-Cola ser líder neste segmento, com 53,3% de participação. A Ambev está presente com as marcas Soda e Guaraná Antarctica (este último é líder de vendas na categoria), Sukita e Pepsi. O Real valorizado barateia os insumos desta indústria, que são cotados em dólar, o que acaba beneficiando as margens das empresas. Mas as constantes críticas de nutricionistas em torno do consumo de refrigerantes são um ponto negativo para a indústria — que, no entanto, busca refúgio no lançamento de versões de baixa caloria.

Dono da maior reserva de água mineral do mundo — aproximadamente 30% do total —, o Brasil apresenta um consumo per capita pífio: 30 litros por ano. Para se ter uma idéia, na Itália, esse índice chega a 173 litros ao ano por pessoa. Com cerca de 400 engarrafadoras de água disputando mercado — sob a liderança do Grupo Edson Queiroz, com 12% —, o País ocupa a oitava posição no ranking mundial de produção, encabeçado pelos Estados Unidos. A Ambev é dona da Água Fratelli Vita. A tendência mundial em torno de um estilo de vida mais saudável é bastante favorável a este mercado que, no entanto, acaba sofrendo o impacto do preço das embalagens, especialmente as de plástico.


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